Mais de 60% das cidades do País ficam sem ônibus interestadual regular após corte de rotas. Levantamento da Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia, a Amobitec, com dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres, a ANTT, aponta que o Brasil perdeu 17% das conexões ativas, deixando 3,3 mil municípios isolados.
A retração da malha rodoviária eleva o preço das passagens e reduz viagens nos terminais do país.
O encolhimento da oferta acompanhou a queda na demanda nacional, que despencou de 43,1 milhões de passageiros em 2023 para 36,7 milhões em 2025, derrubando o faturamento total das viações de R$ 6,7 bilhões para R$ 6,15 bilhões no mesmo período.
Essa retração contínua do transporte interestadual empurrou o transporte rodoviário para uma forte concentração de mercado. Atualmente, apenas cinco grandes conglomerados econômicos, Gontijo, Guanabara, JCA, Suzano e Águia Branca, controlam 36,5% de todo o ecossistema nacional.
Na prática diária do passageiro que embarca nos terminais, cerca de 80% das rotas interestaduais operam hoje sob domínio de apenas uma ou duas empresas, que frequentemente pertencem ao mesmo grupo financeiro, sufocando a concorrência e mantendo as tarifas em patamares elevados.
Como reflexo dessa falta de competitividade, mais de 3,3 mil municípios, o equivalente a mais de 60% das cidades do país, encontram-se desassistidos de serviços regulares.
Trava no STF e paralisação da ANTT
Na tentativa de reverter esse cenário de monopólio , tirar o município dos isolamentos, e expandir as opções de transporte interestadual, a ANTT projetou a abertura da chamada Janela Extraordinária para licitar 47.291 mercados.
A medida previa atender 38.379 localidades atualmente isoladas e desassistidas e abrir a concorrência em 8.912 rotas que hoje são operadas por apenas uma empresa. O cronograma de expansão, contudo, sofreu uma reviravolta no Supremo Tribunal Federal (STF).
O processo foi suspenso por determinação judicial após questionamentos movidos pela Associação Nacional das Empresas de Transporte Intermunicipal e Interestadual de Passageiros (Anatrip) sobre supostas fragilidades no sistema tecnológico da agência reguladora.
Com o impasse travado no STF, a abertura de mercado permanece congelada, deixando os usuários isolados e reféns da falta de opções e de tarifas pesadas nas viagens saindo da Capital e das cidades do interior.
Entre liminares e municípios isolados
Paralelamente à perda de rotas, o Transporte Rodoviário Regular Interestadual de Passageiros (Trip) transformou-se em uma disputa judicial contínua em Brasília.
Dos 33 mil mercados formalmente cadastrados na agência reguladora, cerca de 25 mil dependem diretamente de liminares e decisões judiciais precárias para continuar com os ônibus em circulação nas estradas do país.
Em busca de espaço para operar e oferecer tarifas mais competitivas, novas empresas submeteram cerca de 70 mil pedidos de autorização à ANTT nos últimos dois anos.
No entanto, o ingresso desses novos operadores esbarra na forte resistência das empresas tradicionais já estabelecidas, que alegam riscos à segurança das viagens e desequilíbrio econômico para travar a entrada de concorrentes no setor.



