Um dos medicamentos mais conhecidos para o tratamento da hipertensão pode ter um efeito até então inesperado: a capacidade de estimular a chamada gordura marrom, tecido que queima calorias para produzir calor. A descoberta envolve a losartana, remédio amplamente utilizado para controlar a pressão arterial.
O estudo foi realizado por pesquisadores da Universidade Rockefeller, nos Estados Unidos, que identificaram uma associação entre o uso da losartana e uma maior presença de gordura marrom em pacientes. Os resultados, porém, ainda não significam que o medicamento provoque emagrecimento em pessoas.
Para chegar às conclusões, os cientistas analisaram dados médicos de mais de 100 mil pacientes com câncer e depois realizaram testes em camundongos e células cultivadas em laboratório.
O que a losartana tem a ver com a gordura marrom?
A gordura marrom é diferente do tecido adiposo comum. Em vez de apenas armazenar energia, ela utiliza calorias para produzir calor e ajudar na regulação da temperatura corporal.
Por isso, a atividade desse tecido vem sendo estudada por pesquisadores que buscam compreender possíveis formas de melhorar o metabolismo e combater doenças relacionadas à obesidade.
Na análise dos pesquisadores, a gordura marrom foi identificada em 8.897 dos 101.243 pacientes avaliados, menos de 9% do total. A presença do tecido foi mais frequente entre mulheres, pessoas mais jovens e pacientes examinados em períodos de temperaturas mais baixas.
Os cientistas também compararam os diagnósticos e os medicamentos utilizados pelos pacientes. Entre os 125 remédios analisados, 39 apresentaram alguma associação com a presença de gordura marrom.
A losartana e a valsartana, outro medicamento da mesma classe, apareceram entre os remédios associados positivamente ao tecido.
Estudo ainda não comprova efeito para emagrecer
Os pesquisadores observaram que 2,4% dos pacientes com gordura marrom usavam losartana, contra 1,9% daqueles que não apresentavam esse tecido.
Apesar da associação, os próprios dados não permitem afirmar que a losartana tenha sido responsável pelo aumento da gordura marrom. Isso ocorre porque a primeira etapa da pesquisa foi baseada na análise de prontuários e exames de pacientes.
Nos experimentos realizados posteriormente, os cientistas observaram que a losartana ativou a gordura marrom em camundongos e em células cultivadas em laboratório. O efeito também pareceu ocorrer por um mecanismo diferente daquele usado pelo medicamento para reduzir a pressão arterial.
Os testes apontaram para a participação da proteína PPAR-gama, que atua na regulação das células de gordura.
A descoberta pode abrir caminho para novas pesquisas sobre tratamentos metabólicos, mas ainda são necessários estudos clínicos para entender se esse mecanismo realmente provoca perda de peso em seres humanos.
Portanto, a losartana não deve ser usada com o objetivo de emagrecer sem indicação médica. O medicamento continua sendo utilizado principalmente no tratamento da hipertensão e de outras condições cardiovasculares, conforme orientação de profissionais de saúde.
