Eleições 2026: os dados que analisam os homicídios por período presidencial desde o governo Fernando Henrique Cardoso até hoje

Os dados analisados fazem parte de um levantamento realizado pela plataforma Crime Brasil exclusivo à Gazeta

Taxa por 100 mil habitantes traz dados importantes dos governantes brasileiros Arte/Gazeta de S.Paulo

Taxa por 100 mil habitantes traz dados importantes dos governantes brasileiros / Arte/Gazeta de S.Paulo

Um dos principais itens que poderá fazer a diferença na hora do voto da eleição presidencial deste domingo (25/10), a segurança pública é um dos temas mais debatidos e polarizados do Brasil. Mas afinal, o que os dados reais revelam quando afastamos as narrativas políticas de cada governo?

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Ao analisar o histórico de homicídios no País desde a gestão Fernando Henrique Cardoso até os dias atuais, de acordo com levantamento realizado pela “Crime Brasil“, exclusivo à Gazeta, que tem como base os dados oficiais do IPEA e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, fica evidente que as quedas e altas nos índices de violência respondem a dinâmicas complexas, que envolvem desde tréguas entre facções criminosas e mudanças demográficas até o papel decisivo dos governos estaduais, frequentemente omitido no debate federal.

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Para além das promessas de campanha e dos discursos de “menor violência da história” ou do “armamento como solução”, os números mostram contradições importantes de todos os lados: enquanto a taxa geral de assassinatos caiu nos últimos anos, os crimes contra a mulher e as mortes por intervenção policial atingiram patamares alarmantes.

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A régua: homicídios por período presidencial

GovernoHomicídios no períodoMédia por anoMédia por diaAno anterior → último ano
FHC 2 (1999-2002)186.22846.55712841.974 → 49.816 (+18,7%)
Lula 1 (2003-2006)198.28349.57113649.816 → 49.704 (−0,2%)
Lula 2 (2007-2010)203.93750.98414049.704 → 53.016 (+6,7%)
Dilma (2011-2016)349.31958.22016053.016 → 62.517 (+17,9%)
Temer (2017-2018)123.55861.77916962.517 → 57.956 (−7,3%)
Bolsonaro (2019-2022)189.62747.40713057.956 → 46.409 (−19,9%)
Lula 3 (2023-2024)*88.33744.16812146.409 → 42.590 (−8,2%)

Fonte primária: Atlas da Violência (IPEA/FBSP), série nacional de homicídios 1989-2024 reconstruída no banco do Crime Brasil a partir das 27 UFs (bate com o IPEA ano a ano); Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 (FBSP, 23/07/2026); Sinesp VDE (Ministério da Justiça, dado estadual mensal 2020-ago/2026).

* 2024 é o último ano com SIM consolidado (Atlas 2026). 2025 e 2026 aparecem abaixo com dado policial (FBSP/Sinesp), que não é a mesma régua.

Taxa por 100 mil habitantes, mesma base populacional (IBGE, projeções revisão 2024), calculada pelo Crime Brasil sobre os números do Atlas:

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20022003200620102014201720182019202020222024
27,828,426,527,230,132,028,121,923,822,020,0

(O Atlas 2026 publica 30,2 para 2014, 32,1 para 2017, 28,2 para 2018, 22,0 para 2019, 22,1 para 2022 e 20,1 para 2024, usando população da PNADc; diferença de 0,1.)

Leitura fria:

  • Lula 1 e 2 (2003-2010): 402.220 brasileiros assassinados em oito anos. O País fechou 2002 com 49.816 homicídios e fechou 2010 com 53.016. Em número absoluto, Lula entregou um Brasil com mais homicídios do que recebeu (+6,4%). A taxa por 100 mil ficou praticamente parada, porque a população cresceu. Não houve queda nacional. Houve uma troca de lugar: São Paulo despencou e o Nordeste subiu.
  • Bolsonaro (2019-2022): 189.627 em quatro anos, 130 por dia. É o período presidencial com a maior queda ponta a ponta da série (−19,9%). Mas a queda não é homogênea nem começa com ele: 2018, último ano de Temer, já tinha caído 11,7%; 2019 caiu 21,5%, a maior queda anual da história; 2020 subiu 9,6% (49.868), único ano de alta entre 2018 e 2024; 2021 e 2022 voltaram a cair (−4,1% e −3,0%).
  • Lula 3 (2023-2024): 88.337 em dois anos, 121 por dia, a menor média diária desde FHC 1 (1995-1998: 108 por dia). 2024 fechou com 42.590 homicídios, o menor número desde 1998 (41.974), e taxa de 20,1 por 100 mil.

O que cada lado não conta

Contra a narrativa de Lula (“menor violência da história”):

  1. Parte da queda de 2024 é estatística, não real. O próprio Atlas 2026 mostra que os “homicídios ocultos” (mortes violentas que a saúde não conseguiu classificar e que o IPEA estima serem assassinatos) saltaram de 3.755 em 2023 para 7.083 em 2024 (+88,6%). Quando o IPEA soma esses casos, a taxa estimada vai de 23,5 para 23,4 por 100 mil: estabilidade, não queda histórica. A qualidade do dado piorou em 2024, e isso surpreendeu os próprios pesquisadores.
  2. A polícia mata mais, não menos. Mortes por intervenção policial em 2025: 6.602 (+5,4%), o maior número da série do Anuário. Uma em cada seis mortes violentas no Brasil é causada por agente do Estado. No Rio, uma em cada cinco (20,5%).
  3. Feminicídio bate recorde: 1.571 vítimas em 2025 (+4%). No Sinesp, 1.346 (2020) → 1.558 (2025), +15,8% em cinco anos. Estupro de vulnerável: 41.913 (2020) → 59.366 (2025), +41,6%.
  4. A queda vem desde 2018. Quem olha só o ponto final atribui a Lula um movimento que atravessa Temer e Bolsonaro.

Contra a narrativa bolsonarista (“com Bolsonaro a violência caiu”):

  1. A maior queda (2019) aconteceu no primeiro ano, antes de qualquer política federal ter tempo de produzir efeito, e em cima de uma queda que já vinha de 2018. Especialistas atribuem o movimento ao fim da guerra PCC x CV no Norte/Nordeste e ao envelhecimento da população, não a decreto.
  2. 2020, em plena disparada das compras de armas por civis, foi o único ano entre 2018 e 2024 em que os homicídios subiram (+9,6%). Os números da liberação (Anuário FBSP, PF e Exército): armas registradas no Sinarm (civis, PF) foram de 646.127 em 2018 para 1.558.416 em 2022 (+141%); registros de CAC (caçadores, atiradores e colecionadores) saltaram de 117.467 para 783.385 (6,7 vezes); o acervo de armas de CAC foi de 350.683 para 1.261.000; as compras anuais de armas por CAC foram de 59.417 (2018) para 431.137 (2022), 7,3 vezes mais. Foram mais de 40 decretos e portarias sobre armas em quatro anos (Instituto Sou da Paz).
  3. A tese “mais armas, menos crime” não aparece no dado: o Brasil mais armado da história (2022) tinha taxa de homicídio praticamente igual à de 2019 (22,0 contra 21,9 por 100 mil, cálculo Crime Brasil; Atlas: 22,1 e 22,0).
  4. Em quatro anos, 189.627 pessoas foram assassinadas. Em dois anos de Lula 3, 88.337. A média diária caiu de 130 para 121.
  5. O Brasil de 2022 (46.409) ainda era mais violento que o Brasil de 2000 (45.433).

O que Lula não desarmou: os decretos 11.366 (01/01/2023), que suspendeu novos registros, e 11.615 (21/07/2023), que regulamentou a nova política, cortaram as novas concessões de CAC (329.493 em 2022; 272 em 2023; 67.859 em 2024), mas não tirou arma de circulação. Os registros ativos no Sinarm (estoque, que inclui recadastramentos) continuaram subindo: 2.088.048 (2023), 2.154.944 (2024), 2.171.213 (2025). Em dezembro de 2025, a PF contava 1.022.021 CACs ativos com 1.588.677 armas; o Anuário 2026 fala em 1.064.959 pessoas e 1.644.084 armas. O estoque criado em 2019-2022 está intacto, e cerca de 1,5 milhão de registros vencem entre agosto de 2026 e agosto de 2027 (IN PF 330/2026). Quem assumir em janeiro decide o que acontece com eles.

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O dado mais recente (2025-2026), régua policial

  • Anuário FBSP 2026: 40.775 mortes violentas intencionais em 2025 (19,1 por 100 mil), −7,8% em número e −8,2% na taxa sobre 2024 (44.220; 20,8, valor revisado pelo próprio Anuário 2026). Coincidência: o Atlas também registra −8,2% entre 2022 e 2024, mas é outra série. Primeira vez abaixo de 20 desde que a série começou, em 2012. Homicídio doloso isolado: 15,4 por 100 mil, meta nacional de 16 (prevista para 2027) batida com dois anos de antecedência.
  • Sinesp VDE (base Crime Brasil): homicídio doloso 38.575 (2022) → 31.479 (2025), −18,4%. Janeiro-agosto de 2026: 18.449 contra 21.238 no mesmo período de 2025, −13,1%. Latrocínio: 1.241 (2022) → 797 (2025), −35,8%.
  • Mesmo período, na contramão: feminicídio +7,0% (1.456 → 1.558), mortes por intervenção policial 6.454 → 6.588 (+2,1%), estupro de vulnerável 55.521 → 59.366 (+6,9%).

Quem manda na segurança pública

Polícia Militar e Polícia Civil são estaduais. O presidente controla PF, PRF, Força Nacional, o Fundo Nacional de Segurança Pública, a política de armas e o sistema penitenciário federal. Ou seja: os dois lados reivindicam ou culpam o Planalto por um número que é, em sua maior parte, produzido por 27 governadores.

O instrumento federal que existe é o Fundo Nacional de Segurança Pública. Valores pagos, em R$ nominais (Portal da Transparência, órgão 30911):

AnoDotação autorizadaPago% pago
20191,87 bi0,44 bi23%
20202,24 bi1,59 bi71%
20211,51 bi1,13 bi75%
20222,01 bi1,52 bi76%
20232,34 bi1,74 bi74%
20242,64 bi1,78 bi67%
20252,44 bi1,91 bi78%

Em 2019, primeiro ano de Bolsonaro, o fundo pagou menos de um quarto do que tinha autorizado. Em valores corrigidos (Anuário FBSP 2026, R$ de 2025), o empenho de Lula 3 ficou parado: 2,40 bi em 2023, 2,40 bi em 2024 e 2,22 bi em 2025, queda real de 7,5%, no mesmo ano em que o governo apresentou a PEC da Segurança Pública como prioridade.

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São Paulo, para a Gazeta

  • SP tem a menor taxa de homicídios do País em 2024: 6,6 por 100 mil (Atlas 2026), estável sobre 2023. Santa Catarina 8,1, DF 10,3. No outro extremo: Amapá 45,7, Bahia 40,9, Pernambuco 37,3.
  • No 1º turno de 2026, Flávio Bolsonaro venceu em SP com 51,93%. Lula venceu nos 9 estados do Nordeste, a região com a maior taxa de homicídios do País (Bahia 40,9; Pernambuco 37,3; Alagoas 35,9; Ceará 34,3). O mapa eleitoral e o mapa da violência são quase o mesmo mapa, invertido: o eleitor do estado mais seguro votou no candidato da “segurança”; os estados mais violentos votaram em Lula.

Levantamento da Crime Brasil exclusivo à Gazeta

Os dados analisados fazem parte de um levantamento realizado pela plataforma Crime Brasil exclusivo à Gazeta. O objetivo não é induzir o eleitor a votar em um deles. Ela põe lado a lado, com fonte e data, o que a Justiça, o IBGE, o Ministério da Saúde, o Banco Central, o INPE, o TSE e os institutos de pesquisa registraram sobre os dois candidatos.