Um dos principais itens que poderá fazer a diferença na hora do voto da eleição presidencial deste domingo (25/10), a segurança pública é um dos temas mais debatidos e polarizados do Brasil. Mas afinal, o que os dados reais revelam quando afastamos as narrativas políticas de cada governo?
Ao analisar o histórico de homicídios no País desde a gestão Fernando Henrique Cardoso até os dias atuais, de acordo com levantamento realizado pela “Crime Brasil“, exclusivo à Gazeta, que tem como base os dados oficiais do IPEA e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, fica evidente que as quedas e altas nos índices de violência respondem a dinâmicas complexas, que envolvem desde tréguas entre facções criminosas e mudanças demográficas até o papel decisivo dos governos estaduais, frequentemente omitido no debate federal.
Para além das promessas de campanha e dos discursos de “menor violência da história” ou do “armamento como solução”, os números mostram contradições importantes de todos os lados: enquanto a taxa geral de assassinatos caiu nos últimos anos, os crimes contra a mulher e as mortes por intervenção policial atingiram patamares alarmantes.
A régua: homicídios por período presidencial
| Governo | Homicídios no período | Média por ano | Média por dia | Ano anterior → último ano |
| FHC 2 (1999-2002) | 186.228 | 46.557 | 128 | 41.974 → 49.816 (+18,7%) |
| Lula 1 (2003-2006) | 198.283 | 49.571 | 136 | 49.816 → 49.704 (−0,2%) |
| Lula 2 (2007-2010) | 203.937 | 50.984 | 140 | 49.704 → 53.016 (+6,7%) |
| Dilma (2011-2016) | 349.319 | 58.220 | 160 | 53.016 → 62.517 (+17,9%) |
| Temer (2017-2018) | 123.558 | 61.779 | 169 | 62.517 → 57.956 (−7,3%) |
| Bolsonaro (2019-2022) | 189.627 | 47.407 | 130 | 57.956 → 46.409 (−19,9%) |
| Lula 3 (2023-2024)* | 88.337 | 44.168 | 121 | 46.409 → 42.590 (−8,2%) |
Fonte primária: Atlas da Violência (IPEA/FBSP), série nacional de homicídios 1989-2024 reconstruída no banco do Crime Brasil a partir das 27 UFs (bate com o IPEA ano a ano); Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 (FBSP, 23/07/2026); Sinesp VDE (Ministério da Justiça, dado estadual mensal 2020-ago/2026).
* 2024 é o último ano com SIM consolidado (Atlas 2026). 2025 e 2026 aparecem abaixo com dado policial (FBSP/Sinesp), que não é a mesma régua.

Taxa por 100 mil habitantes, mesma base populacional (IBGE, projeções revisão 2024), calculada pelo Crime Brasil sobre os números do Atlas:
| 2002 | 2003 | 2006 | 2010 | 2014 | 2017 | 2018 | 2019 | 2020 | 2022 | 2024 |
| 27,8 | 28,4 | 26,5 | 27,2 | 30,1 | 32,0 | 28,1 | 21,9 | 23,8 | 22,0 | 20,0 |
(O Atlas 2026 publica 30,2 para 2014, 32,1 para 2017, 28,2 para 2018, 22,0 para 2019, 22,1 para 2022 e 20,1 para 2024, usando população da PNADc; diferença de 0,1.)
Leitura fria:
- Lula 1 e 2 (2003-2010): 402.220 brasileiros assassinados em oito anos. O País fechou 2002 com 49.816 homicídios e fechou 2010 com 53.016. Em número absoluto, Lula entregou um Brasil com mais homicídios do que recebeu (+6,4%). A taxa por 100 mil ficou praticamente parada, porque a população cresceu. Não houve queda nacional. Houve uma troca de lugar: São Paulo despencou e o Nordeste subiu.
- Bolsonaro (2019-2022): 189.627 em quatro anos, 130 por dia. É o período presidencial com a maior queda ponta a ponta da série (−19,9%). Mas a queda não é homogênea nem começa com ele: 2018, último ano de Temer, já tinha caído 11,7%; 2019 caiu 21,5%, a maior queda anual da história; 2020 subiu 9,6% (49.868), único ano de alta entre 2018 e 2024; 2021 e 2022 voltaram a cair (−4,1% e −3,0%).
- Lula 3 (2023-2024): 88.337 em dois anos, 121 por dia, a menor média diária desde FHC 1 (1995-1998: 108 por dia). 2024 fechou com 42.590 homicídios, o menor número desde 1998 (41.974), e taxa de 20,1 por 100 mil.

O que cada lado não conta
Contra a narrativa de Lula (“menor violência da história”):
- Parte da queda de 2024 é estatística, não real. O próprio Atlas 2026 mostra que os “homicídios ocultos” (mortes violentas que a saúde não conseguiu classificar e que o IPEA estima serem assassinatos) saltaram de 3.755 em 2023 para 7.083 em 2024 (+88,6%). Quando o IPEA soma esses casos, a taxa estimada vai de 23,5 para 23,4 por 100 mil: estabilidade, não queda histórica. A qualidade do dado piorou em 2024, e isso surpreendeu os próprios pesquisadores.
- A polícia mata mais, não menos. Mortes por intervenção policial em 2025: 6.602 (+5,4%), o maior número da série do Anuário. Uma em cada seis mortes violentas no Brasil é causada por agente do Estado. No Rio, uma em cada cinco (20,5%).
- Feminicídio bate recorde: 1.571 vítimas em 2025 (+4%). No Sinesp, 1.346 (2020) → 1.558 (2025), +15,8% em cinco anos. Estupro de vulnerável: 41.913 (2020) → 59.366 (2025), +41,6%.
- A queda vem desde 2018. Quem olha só o ponto final atribui a Lula um movimento que atravessa Temer e Bolsonaro.
Contra a narrativa bolsonarista (“com Bolsonaro a violência caiu”):
- A maior queda (2019) aconteceu no primeiro ano, antes de qualquer política federal ter tempo de produzir efeito, e em cima de uma queda que já vinha de 2018. Especialistas atribuem o movimento ao fim da guerra PCC x CV no Norte/Nordeste e ao envelhecimento da população, não a decreto.
- 2020, em plena disparada das compras de armas por civis, foi o único ano entre 2018 e 2024 em que os homicídios subiram (+9,6%). Os números da liberação (Anuário FBSP, PF e Exército): armas registradas no Sinarm (civis, PF) foram de 646.127 em 2018 para 1.558.416 em 2022 (+141%); registros de CAC (caçadores, atiradores e colecionadores) saltaram de 117.467 para 783.385 (6,7 vezes); o acervo de armas de CAC foi de 350.683 para 1.261.000; as compras anuais de armas por CAC foram de 59.417 (2018) para 431.137 (2022), 7,3 vezes mais. Foram mais de 40 decretos e portarias sobre armas em quatro anos (Instituto Sou da Paz).
- A tese “mais armas, menos crime” não aparece no dado: o Brasil mais armado da história (2022) tinha taxa de homicídio praticamente igual à de 2019 (22,0 contra 21,9 por 100 mil, cálculo Crime Brasil; Atlas: 22,1 e 22,0).
- Em quatro anos, 189.627 pessoas foram assassinadas. Em dois anos de Lula 3, 88.337. A média diária caiu de 130 para 121.
- O Brasil de 2022 (46.409) ainda era mais violento que o Brasil de 2000 (45.433).
O que Lula não desarmou: os decretos 11.366 (01/01/2023), que suspendeu novos registros, e 11.615 (21/07/2023), que regulamentou a nova política, cortaram as novas concessões de CAC (329.493 em 2022; 272 em 2023; 67.859 em 2024), mas não tirou arma de circulação. Os registros ativos no Sinarm (estoque, que inclui recadastramentos) continuaram subindo: 2.088.048 (2023), 2.154.944 (2024), 2.171.213 (2025). Em dezembro de 2025, a PF contava 1.022.021 CACs ativos com 1.588.677 armas; o Anuário 2026 fala em 1.064.959 pessoas e 1.644.084 armas. O estoque criado em 2019-2022 está intacto, e cerca de 1,5 milhão de registros vencem entre agosto de 2026 e agosto de 2027 (IN PF 330/2026). Quem assumir em janeiro decide o que acontece com eles.

O dado mais recente (2025-2026), régua policial
- Anuário FBSP 2026: 40.775 mortes violentas intencionais em 2025 (19,1 por 100 mil), −7,8% em número e −8,2% na taxa sobre 2024 (44.220; 20,8, valor revisado pelo próprio Anuário 2026). Coincidência: o Atlas também registra −8,2% entre 2022 e 2024, mas é outra série. Primeira vez abaixo de 20 desde que a série começou, em 2012. Homicídio doloso isolado: 15,4 por 100 mil, meta nacional de 16 (prevista para 2027) batida com dois anos de antecedência.
- Sinesp VDE (base Crime Brasil): homicídio doloso 38.575 (2022) → 31.479 (2025), −18,4%. Janeiro-agosto de 2026: 18.449 contra 21.238 no mesmo período de 2025, −13,1%. Latrocínio: 1.241 (2022) → 797 (2025), −35,8%.
- Mesmo período, na contramão: feminicídio +7,0% (1.456 → 1.558), mortes por intervenção policial 6.454 → 6.588 (+2,1%), estupro de vulnerável 55.521 → 59.366 (+6,9%).
Quem manda na segurança pública
Polícia Militar e Polícia Civil são estaduais. O presidente controla PF, PRF, Força Nacional, o Fundo Nacional de Segurança Pública, a política de armas e o sistema penitenciário federal. Ou seja: os dois lados reivindicam ou culpam o Planalto por um número que é, em sua maior parte, produzido por 27 governadores.
O instrumento federal que existe é o Fundo Nacional de Segurança Pública. Valores pagos, em R$ nominais (Portal da Transparência, órgão 30911):
| Ano | Dotação autorizada | Pago | % pago |
| 2019 | 1,87 bi | 0,44 bi | 23% |
| 2020 | 2,24 bi | 1,59 bi | 71% |
| 2021 | 1,51 bi | 1,13 bi | 75% |
| 2022 | 2,01 bi | 1,52 bi | 76% |
| 2023 | 2,34 bi | 1,74 bi | 74% |
| 2024 | 2,64 bi | 1,78 bi | 67% |
| 2025 | 2,44 bi | 1,91 bi | 78% |
Em 2019, primeiro ano de Bolsonaro, o fundo pagou menos de um quarto do que tinha autorizado. Em valores corrigidos (Anuário FBSP 2026, R$ de 2025), o empenho de Lula 3 ficou parado: 2,40 bi em 2023, 2,40 bi em 2024 e 2,22 bi em 2025, queda real de 7,5%, no mesmo ano em que o governo apresentou a PEC da Segurança Pública como prioridade.
São Paulo, para a Gazeta
- SP tem a menor taxa de homicídios do País em 2024: 6,6 por 100 mil (Atlas 2026), estável sobre 2023. Santa Catarina 8,1, DF 10,3. No outro extremo: Amapá 45,7, Bahia 40,9, Pernambuco 37,3.
- No 1º turno de 2026, Flávio Bolsonaro venceu em SP com 51,93%. Lula venceu nos 9 estados do Nordeste, a região com a maior taxa de homicídios do País (Bahia 40,9; Pernambuco 37,3; Alagoas 35,9; Ceará 34,3). O mapa eleitoral e o mapa da violência são quase o mesmo mapa, invertido: o eleitor do estado mais seguro votou no candidato da “segurança”; os estados mais violentos votaram em Lula.
Levantamento da Crime Brasil exclusivo à Gazeta
Os dados analisados fazem parte de um levantamento realizado pela plataforma Crime Brasil exclusivo à Gazeta. O objetivo não é induzir o eleitor a votar em um deles. Ela põe lado a lado, com fonte e data, o que a Justiça, o IBGE, o Ministério da Saúde, o Banco Central, o INPE, o TSE e os institutos de pesquisa registraram sobre os dois candidatos.





