O ministro Fernando Haddad (PT) completou três anos e três meses à frente do Ministério da Fazenda. Se no início de 2023 havia uma desconfiança latente do mercado, o ministro pavimentou seu caminho com entregas pesadas e uma articulação política que surpreendeu até os veteranos do Congresso.
A principal delas, sem dúvida, foi a aprovação da Reforma Tributária — uma promessa de décadas que finalmente saiu do papel sob sua batuta.
Além disso, Haddad conseguiu substituir o antigo Teto de Gastos pelo Novo Arcabouço Fiscal, dando uma nova regra para as contas públicas que, embora criticada por setores mais à esquerda, trouxe a previsibilidade que o setor produtivo cobrava.
Sua saída do Ministério da Fazenda foi anunciada nesta quinta-feira (19/3) pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em São Paulo (SP). Ele será substituido por seu “herdeiro técnico”, Dario Durigan.
Números: o que diz o boletim da Fazenda
Neste período de 39 meses, os indicadores econômicos apresentaram um comportamento resiliente. O PIB brasileiro manteve um crescimento médio que superou as expectativas iniciais do mercado em quase todos os anos, enquanto a inflação (IPCA) foi domada, mantendo-se dentro ou muito próximo da meta.
Esse cenário permitiu que o Banco Central iniciasse o ciclo de queda da Selic, embora a passos mais lentos do que o desejado pelo Planalto. No campo social, o desemprego atingiu os menores patamares desde 2014, impulsionado pela retomada do consumo das famílias.
‘Fogo Amigo’ e as críticas da esquerda
Nem tudo, porém, foi céu azul. O maior desafio de Haddad foi a política interna. O ministro enfrentou as críticas internas da ala mais ideológica do PT e de movimentos sociais, que o acusam de ter “comprado” o discurso da austeridade.
Para esse grupo, o Arcabouço Fiscal é apenas um “Teto de Gastos com maquiagem”, que trava investimentos essenciais em infraestrutura.
A obsessão de Haddad pelo Déficit Zero tornou-se sua maior vidraça, gerando embates públicos com a presidente do partido, Gleisi Hoffmann. Para a esquerda defensora da expansão de gastos, os gatilhos de ajuste do Arcabouço — como o gatilhos de contenção de despesas, como limitação de concursos — são uma “faca no pescoço” do funcionalismo e um entrave para o desenvolvimento.
A “era das Taxas” e a reação popular
Se no Congresso Haddad é mestre dos acordos, nas ruas a popularidade sofreu o impacto da busca incessante por arrecadação. O ministro ficou marcado pela tentativa de fechar os “ralos” fiscais, o que atingiu o consumo direto.
O exemplo mais latente foi a “Taxa das Blusinhas” — a taxação de 20% sobre compras internacionais de até US$50 (Shein e Shopee) —, que gerou o apelido irônico de “Taxad” nas redes sociais.
Houve ainda o desgaste com a regulamentação das apostas online (Bets) e a queda de braço para acabar com a desoneração da folha de pagamentos de 17 setores, uma medida que gerou revolta em sindicatos e associações patronais antes de ser pacificada em um acordo gradual.
Camaleão das urnas: vitórias e derrotas
A trajetória de Haddad é marcada por uma resiliência eleitoral rara. Ele traz no currículo o trunfo de ter governado a maior cidade do país, São Paulo (2013-2016), e de ter sido o “soldado” que manteve o PT vivo na eleição presidencial de 2018, quando herdou a candidatura de um Lula preso e alcançou o segundo turno com 47 milhões de votos.
Por outro lado, carrega as cicatrizes da derrota na tentativa de reeleição na capital em 2016, ainda no auge do antipetismo, e o revés para o Governo de São Paulo em 2022 — uma derrota que, ironicamente, pavimentou seu caminho para o Ministério da Fazenda ao mostrar sua lealdade incondicional ao projeto lulista.
Destino Político: o próximo passo de Lula
Agora, o ciclo parece se repetir. Nos bastidores de Brasília, a informação é de que o presidente Lula convenceu seu braço direito a trocar a Fazenda por uma nova empreitada: a disputa pelo Governo de São Paulo em 2026.
Lula entende que, para garantir a sucessão e o controle do maior colégio eleitoral do país, precisa de um nome com envergadura nacional e que já tenha “limpado” sua imagem junto ao PIB.
Haddad, com o selo de aprovação das agências de risco e a Reforma Tributária no braço, seria esse nome. Se confirmado, o ministro pavimenta sua sina de ser o eterno sucessor — seja no partido, seja no comando do estado mais rico da federação.
O fato é que, entre taxas e metas, Fernando Haddad nunca deixou de ser o projeto político mais ambicioso de Luiz Inácio Lula da Silva.



