Policiais influenciadores: por que a exposição de operações nas redes sociais preocupa especialistas?

Levantamento do Instituto Sou da Paz aponta fragilidades nas regras para uso das redes por agentes; riscos incluem exposição de operações e suspeitos e transformação do policial em personagem

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Policial não deve ser "influenciador"/ Polícia Militar Rodoviária

Vídeos de operações, abordagens, treinamentos e prisões passaram a fazer parte da rotina das redes sociais. Em perfis pessoais, policiais acumulam seguidores, produzem conteúdo, constroem uma imagem pública e, em alguns casos, transformam a própria atuação profissional em uma espécie de marca pessoal.

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O fenômeno dos chamados policiais influenciadores vem ganhando espaço no Brasil, e é necessário insistir na discussão sobre os limites entre liberdade de expressão, exposição da atividade policial e uso da imagem de uma instituição pública para fins pessoais ou políticos.

Um levantamento do Instituto Sou da Paz analisou as regras existentes em 56 corporações policiais brasileiras, incluindo polícias civis e militares dos estados, além da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal. 

Segundo a pesquisa, 38 instituições, o equivalente a 67,9% do total, possuem algum tipo de regulamentação sobre o uso das redes sociais por seus agentes. Outras 16 não têm regras específicas e duas não responderam à solicitação feita por meio da Lei de Acesso à Informação.

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Para Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, porém, o problema não está somente na existência ou não de normas, mas principalmente na capacidade das corporações de fiscalizá-las. Em entrevista a Gazeta de São Paulo, a especialista explicou que o maior problema não está necessariamente na regulação em si.

“Claro que algumas delas podem ser aprimoradas, ter critérios mais objetivos, mas na fiscalização. A gente ainda não tem muita informação quanto essas polícias fiscalizam a aplicação dessas normas”, reforça.

Exposição de operações pode afetar confiança na polícia

Entre as preocupações apontadas pelo instituto está a publicação de imagens de operações, suspeitos e estratégias policiais. Para Carolina, esse tipo de conteúdo pode contribuir para uma relação mais distante entre as forças de segurança e a população.

“Essa forma de expor as operações policiais, expor suspeitos, expor estratégias de ação policial, ela mina a confiança da população justamente porque há muitas vezes um desrespeito à pessoa que está sendo abordada, à pessoa que está sendo exposta ali”, afirmou.

Segundo ela, o problema se torna ainda mais sensível em comunidades vulneráveis, onde a população já convive com episódios de violência policial.

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“Essas operações muitas vezes ressaltam a violência, e a gente sabe que em comunidades, especialmente as mais vulneráveis, a questão da violência policial é muito presente.”

Na avaliação da diretora-executiva, a exposição também pode reforçar uma narrativa em que o agente aparece como um personagem responsável por combater o crime a qualquer custo.

“Muitas vezes cria, fortalece no imaginário das pessoas essa ideia do policial herói que combate o crime, legitimando a violência. Então, isso é ruim para a segurança pública porque, de alguma forma, para alguns públicos, pode reforçar e legitimar ainda mais a violência na atuação policial.”

O Instituto Sou da Paz aponta que a espetacularização da violência também pode entrar em conflito com o caráter republicano da atividade policial.

“A ação de segurança pública é uma ação pública, republicana, que não deve ser usada para fins pessoais e para uma autopromoção”, disse Carolina.

Policiar vira uma espécie de personagem

A construção dessa imagem pública também pode ultrapassar o campo da segurança pública e chegar à política. O próprio Instituto Sou da Paz identifica a proliferação de perfis policiais nas redes sociais como uma das características do chamado “policialismo”, fenômeno que descreve a crescente politização das forças de segurança.

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A pesquisa “Policialismo: novo fenômeno político brasileiro?”, publicada pelo instituto, mostrou que o número de deputados federais eleitos com origem profissional nas forças de segurança saltou de quatro, em 2010, para 42, em 2018, um de crescimento de 950%.

Nas eleições municipais de 2024, a participação de candidatos oriundos das forças de segurança permaneceu em torno de 1,5% do total de candidaturas, percentual semelhante ao registrado em 2020. Apesar da estabilidade proporcional, houve recorde no número de eleitos: 856 candidatos ligados às forças de segurança chegaram a prefeituras, vice-prefeituras ou câmaras municipais, segundo o levantamento atualizado do Sou da Paz.

Para Carolina, a combinação entre a imagem construída nas redes e a candidatura política pode gerar uma confusão entre a identidade pessoal do agente e a autoridade conferida pelo Estado.

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“Muitas vezes as pessoas acham que estão elegendo aquele policial, aquele herói. Mistura isso, quando na verdade é uma carreira política, não é o trabalho policial que está sendo eleito ali.”

Uso da farda e de símbolos institucionais pode confundir civis

Uma das principais preocupações das regulamentações existentes é justamente evitar que perfis pessoais sejam confundidos com canais oficiais ou que a estrutura pública seja utilizada para promoção individual.

Entre as regras encontradas pelo instituto estão restrições ao uso de brasões, uniformes, equipamentos e outros elementos que possam associar diretamente a conta pessoal à instituição policial. A Polícia Militar de São Paulo está entre as corporações que possuem normas desse tipo.

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Carolina cita ainda uma medida recente da Polícia Civil de São Paulo como exemplo de fiscalização. Segundo ela, a Corregedoria da corporação proibiu expressamente a utilização de símbolos e emblemas institucionais em propaganda de candidatos policiais.

“É muito importante, no momento eleitoral, que a gente mobilize as instituições policiais, os Ministérios Públicos Eleitorais para fiscalizar esse uso das redes sociais para fins políticos eleitorais.”

Na avaliação dela, a preocupação vai além do eventual uso indevido de um uniforme ou brasão. “Além de usar o bem público, a estrutura das polícias, você mobiliza o imaginário.”

Transformar segurança pública em espetáculo é um risco

A discussão sobre policiais influenciadores também envolve o tipo de conteúdo que ganha visibilidade. Para o Sou da Paz, a lógica das redes sociais pode privilegiar justamente as imagens mais espetaculares, operações, confrontos, prisões e demonstrações de força, enquanto estratégias menos visíveis de segurança pública ficam fora do enquadramento.

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Carolina afirma que políticas mais eficientes podem depender de atividades que não têm o mesmo potencial de viralização.

“As evidências mostram que é muito mais eficiente ter um trabalho de inteligência, que é silencioso e secreto, ele não pode estar nas redes sociais, um trabalho de investigação, trabalho de integração entre as polícias, em reuniões de gestão e acompanhamento de metas.”

Para ela, esses mecanismos produzem resultados mais sustentáveis do que a construção de uma narrativa centrada no policial como herói.

“Tudo isso é muito mais eficiente e gera resultados mais sustentáveis do que essa ideia do policial herói combatendo o crime que muitas vezes as redes sociais veiculam.”

Instituto defende regras e fiscalização

O Sou da Paz não defende que policiais sejam impedidos de utilizar redes sociais ou de participar da política. A preocupação está em estabelecer uma separação entre a atuação individual e a função pública exercida pelo agente.

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A organização defende regras mais claras para o comportamento de policiais nas plataformas digitais e mecanismos efetivos de fiscalização, especialmente durante períodos eleitorais.

A discussão também se relaciona à proposta do instituto de estabelecer uma quarentena de dois anos para policiais que pretendam disputar eleições. A ideia é que o agente se afaste da função 24 meses antes da candidatura, com o objetivo de reduzir a partidarização das corporações, preservar a hierarquia e a disciplina e evitar que o poder estatal seja convertido em vantagem eleitoral.

No caso das redes sociais, a questão colocada pelo instituto é semelhante: como garantir que a autoridade e os recursos associados à função policial não sejam utilizados para construir uma imagem pessoal, conquistar seguidores ou obter vantagem política.

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Para Carolina, a resposta passa justamente pela separação entre essas duas identidades.

“Me parece muito importante, sim, regular melhor e separar essa identidade individual do policial das políticas de segurança.”

A discussão, portanto, não se resume ao que um policial pode ou não publicar. Em uma época em que vídeos de operações podem alcançar milhares de pessoas em poucas horas, o debate envolve também quem fala em nome da polícia, quais imagens são produzidas, para qual finalidade e onde termina a atuação profissional e começa a autopromoção.