Políticos da sua cidade e emendas parlamentares podem ser investigados por você; entenda como

Em anos de eleição a liberação de recursos dispara; saiba como usar a transparência pública para verificar promessas

Políticos podem ser rastreados para saber para onde está indo o seu dinheiro / Jefferson Rudy/Agência Senado

Políticos podem ser rastreados para saber para onde está indo o seu dinheiro / Jefferson Rudy/Agência Senado

Em anos eleitorais, o fluxo de emendas parlamentares atinge seu ápice. Políticos frequentemente alegam que a fiscalização da imprensa e da sociedade civil “criminaliza a emenda”, mas o uso inadequado desse dinheiro público exige atenção constante.

Continua após a publicidade

No 21º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji, especialistas discutiram como as “Emendas Pix” geram crises de transparência e fortalecem o poder político em ano eleitoral, debatendo métodos para rastrear e fiscalizar esses recursos.

Palestrantes como os jornalistas investigativos Patrik Camporez e Flávio Ferreira e pesquisadora Bianca Casais destacaram a necessidade de ferramentas de controle social e a análise de dados para investigar o uso político dessas verbas.

Políticos alegam estar usando as emendas propriamente, mas como conferir?

Enquanto postagens nas redes sociais pensadas em viralizar afirmam que o dinheiro “está na conta” ou que a obra “já foi entregue”, a realidade nas ruas muitas vezes revela outra história: recursos direcionados para finalidades sem relação com a demanda local, supercomputação de entregas ou obras que sequer saíram do papel.

Continua após a publicidade

Como pontuado no painel por Patrick Camporez, o grande desafio de rastrear desvios de emendas é que o método se adapta constantemente. “Sempre que revelam uma emenda, criam outras formas de seguir inventando”, reforça.

O caminho para não cair em armadilhas envolve, primeiro, separar a promessa do fato. O empenho do dinheiro é apenas a promessa de pagamento. A confirmação de uso vem na liquidação, no pagamento e, principalmente, na prestação de contas.

Seguir o dinheiro também não é bicho de sete cabeças. Diferente do que parece, checar a destinação inicial exige apenas consultar os documentos de prestação de contas disponíveis nas plataformas oficiais.

Continua após a publicidade

A “Trilha do CNPJ”: como checar na prática se a obra existiu

A frase que resume a investigação de campo segundo os especialistas é simples: “A quantidade de emendas que essa cidade recebeu não corresponde com a realidade, nada foi feito”.

Para checar a veracidade de uma emenda na sua cidade, o primeiro passo é identificar o CNPJ do favorecido. Se a emenda foi para pavimentação, a chamada “emenda do asfalto”, é preciso identificar a empresa ou prefeitura executora.

Depois, vem a checagem in loco. Se o pagamento consta como realizado no sistema, vá até a rua contemplada. A via foi realmente asfaltada ou a poeira continua lá?

Continua após a publicidade

Também é preciso prestar atenção especial aos casos de “autodestinações”, em que recursos vultosos são repassados para estruturas ou fundos ligados ao próprio parlamentar ou a seus aliados diretos para prestação de contas futura.

Emendas no Meio Ambiente e entidades: atenção aos alertas vermelhos

Conforme ressaltado por Flávio, há modalidades de emendas que demandam atenção redobrada. Um dos sinais é a incompatibilidade geográfica ou temática. Fique atento a emendas destinadas a empresas ou órgãos distantes da realidade local, como destinações da CODEVASF direcionadas para locais sem relação com a bacia hidrográfica do São Francisco.

Outro ponto são as entregas que não são 100% gratuitas. Muitas vezes, o parlamentar anuncia a doação de bens para um município como se fosse a custo zero. No entanto, o município precisa pagar contrapartidas, como custos de frete, manutenção ou 1% da taxa do contrato.

Continua após a publicidade

Também vale ficar de olho em possíveis favorecimentos eleitorais por meio de bens, como doações de equipamentos, a exemplo de lotes de máquinas de costura, tratores ou veículos, direcionadas a redutos eleitorais específicos em período pré-eleitoral.

O método da “Triangulação do Instagram”: onde o discurso encontra o dado

Uma das ferramentas mais eficientes de checagem é confrontar o perfil do candidato nas redes sociais com a base de dados pública.

Quando o parlamentar postar “Tá pago!”, “Tá entregue!” ou “Já tá no caixa!”, faça o cruzamento de três dados no sistema: quanto o parlamentar diz ter enviado, quanto a obra realmente custou e quanto efetivamente sobrou ou sumiu no processo.

Continua após a publicidade

Em anos de eleição, acompanhe não apenas onde os candidatos situacionistas colocaram emendas, mas examine também para onde os opositores direcionaram recursos e como foi feita a execução nesses locais.

Onde encontrar os dados? As ferramentas essenciais

O maior gargalo atual não é a falta de dados, mas sim a transparência opaca e a dispersão das informações. Para consultar a destinação real das emendas, utilize as ferramentas públicas adequadas.

O Transferegov.br é o principal sistema para consultar convênios, transferências discricionárias e emendas parlamentares. Já o Portal da Transparência do Governo Federal permite pesquisar diretamente no menu de Emendas Parlamentares por autor, deputado ou senador, por localidade ou por favorecido.

Continua após a publicidade

Também são essenciais os Portais de Transparência Estaduais e Municipais, especialmente para checar as chamadas “Emendas Pix”, ou transferências especiais, que caem direto nos cofres da prefeitura e exigem acompanhamento do executivo local.