Cansaço, ansiedade e tristeza: quando os hormônios podem estar por trás dos sintomas

Alterações hormonais podem influenciar sono, energia e emoções, mas saúde mental também é afetada por fatores psicológicos, sociais e ambientais; especialistas explicam por que o cuidado precisa olhar para o organismo como um todo

A unidade realiza entre 100 e 120 exames por mês e já utiliza a nova abordagem em cerca de 80% dos procedimentos.

Homens e mulheres estão sujeitos a mudanças hormônais/ Foto: Reprodução/ Tv Brasil

Cansaço constante, alterações no sono, irritabilidade, falta de energia, ansiedade e mudanças de humor podem ter diferentes origens. Embora esses sintomas sejam frequentemente associados à saúde mental, alterações hormonais também podem estar envolvidas em alguns casos.

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De qualquer forma, fatores emocionais e a própria rotina podem interferir sim no funcionamento do organismo, por isso, especialistas defendem uma avaliação que não reduza ansiedade e depressão a uma única causa. Hormônios como cortisol, estrogênio, progesterona e testosterona, além daqueles produzidos pela tireoide, participam de processos relacionados ao humor, sono, energia e resposta ao estresse. Isso não significa, porém, que uma alteração hormonal seja necessariamente a explicação para um transtorno mental.

“Um dos principais elementos dessa relação é o cortisol, conhecido como hormônio do estresse. Em situações de ameaça ou tensão, o organismo aumenta sua produção para preparar o corpo para reagir. Esse mecanismo é natural e importante para a sobrevivência. O problema pode surgir quando a resposta ao estresse permanece ativada por períodos prolongados, contribuindo para alterações no sono, na concentração, na disposição e na regulação das emoções”, explica a cientista Izabelle Gindri, especialista em saúde hormonal, PhD em Engenharia Biomédica pela UTD (University of Texas, Dallas), farmacêutica, cofundadora e CEO da bio meds Brasil.

Como os hormônios podem influenciar a saúde mental?

Tanto homens quanto mulheres podem sentir os efeitos de alterações hormonais. Estresse crônico, privação de sono e determinadas doenças podem interferir na produção hormonal e, simultaneamente, aumentar a vulnerabilidade a sintomas de ansiedade e depressão.

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Nas mulheres, as oscilações de estrogênio e progesterona ao longo do ciclo menstrual podem influenciar o humor e a qualidade do sono. Essas mudanças também acontecem em períodos como gestação, pós-parto e menopausa. Algumas pessoas apresentam maior sensibilidade às variações hormonais e podem desenvolver sintomas emocionais mais significativos em determinadas fases.

Nos homens, a testosterona também pode estar relacionada a algumas manifestações. A redução dos níveis do hormônio pode vir acompanhada de diminuição da libido, cansaço, perda de massa muscular e alterações na energia e no humor. Em homens com deficiência de testosterona, podem aparecer sintomas depressivos, mas isso não significa que toda depressão masculina tenha origem hormonal. A avaliação médica é necessária para diferenciar as situações.

O envelhecimento também provoca mudanças hormonais. Nos homens, os níveis de testosterona tendem a diminuir gradualmente ao longo da vida. Nas mulheres, a transição para a menopausa envolve uma queda mais significativa na produção de estrogênio e progesterona. As manifestações podem ser diferentes entre os sexos, mas os hormônios continuam podendo exercer influência sobre a saúde mental.

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A tireoide é outro ponto importante nessa investigação. Alterações na produção dos hormônios tireoidianos podem provocar sintomas semelhantes aos observados em alguns transtornos psiquiátricos. O hipotireoidismo, por exemplo, pode estar relacionado a cansaço, desânimo, dificuldade de concentração e alterações de humor. Já o hipertireoidismo pode provocar agitação, ansiedade, irritabilidade, insônia e palpitações.

Mas nem tudo é hormônio, da mesma forma que nem tudo é psicológico

As sobreposições entre sintomas tornam o diagnóstico mais complexo. Uma pessoa com tristeza persistente, perda de interesse, ansiedade excessiva, alterações no sono ou falta de energia pode apresentar um transtorno mental, uma condição hormonal ou uma combinação de fatores.

A investigação deve levar em conta o histórico clínico, os sintomas, os medicamentos utilizados e, quando houver indicação, exames laboratoriais. Por isso, a identificação de uma alteração hormonal não deve ser interpretada automaticamente como a causa de um quadro de ansiedade ou depressão.

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A relação, inclusive, funciona nos dois sentidos. Assim como os hormônios podem influenciar o estado emocional, transtornos de ansiedade e depressão podem repercutir sobre processos relacionados ao sono, estresse, apetite e funcionamento do organismo. Cérebro e sistema endócrino mantêm uma comunicação constante.

“Devemos evitar explicações simplistas, como atribuir ansiedade ou depressão exclusivamente a um ‘desequilíbrio hormonal’. O tratamento também não deve ser feito por conta própria, especialmente com hormônios. Dependendo da causa, a abordagem pode envolver psicoterapia, medicamentos, tratamento de doença hormonal, mudanças na rotina ou uma combinação dessas estratégias”, alerta Gindri.

O cuidado emocional antes da crise é essencial

Para Sandro Mota, especialista em desenvolvimento humano e criador do Mota Method, olhar para a saúde emocional também exige atenção antes que os sinais de sofrimento se tornem mais intensos.

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Em uma rotina marcada por excesso de estímulos, responsabilidades e pressão para corresponder às expectativas, muitas pessoas continuam cumprindo suas funções sem perceber o desgaste emocional. Nesse contexto, o especialista defende a criação de espaços de autocuidado e reflexão mesmo quando não existe uma crise instalada.

“Vivemos em um ritmo muito acelerado e, muitas vezes, seguimos cumprindo papéis e responsabilidades sem perceber o quanto podemos nos afastar de nós mesmos. Acredito que o cuidado com a saúde emocional não deveria começar apenas quando algo já não vai bem. É importante criar espaços para olhar para dentro, compreender a forma como sentimos e refletir sobre aquilo que precisamos”, afirma Mota.

A discussão ganha destaque durante o Setembro Amarelo, período dedicado à ampliação do debate sobre saúde mental e prevenção do suicídio. Para o especialista, porém, o cuidado não deve ficar restrito a campanhas ou determinadas épocas do ano, mas fazer parte de uma relação contínua de cada pessoa consigo mesma e com os outros.

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Autoconhecimento também faz parte do cuidado

Criado a partir da atuação de Sandro Mota no desenvolvimento humano, o Mota Method propõe processos de autoconhecimento e transformação voltados à compreensão de padrões emocionais e comportamentais e ao desenvolvimento de novas formas de responder aos desafios cotidianos.

A abordagem é experiencial e trabalha aspectos como fortalecimento dos recursos internos, inteligência emocional e construção de uma relação mais autêntica consigo mesmo e com outras pessoas. O protocolo utiliza consciência corporal, respiração, investigação interna e integração para favorecer mudanças na maneira como a pessoa vive, percebe e responde aos desafios.

Embora o Mota Method seja desenvolvido em um contexto específico de acompanhamento e desenvolvimento humano, alguns dos princípios apresentados pelo especialista podem inspirar momentos de auto-observação no cotidiano. A proposta não é diagnosticar ou tratar transtornos, mas criar espaços para perceber emoções, pensamentos, sensações corporais e comportamentos antes de reagir automaticamente.

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Uma forma simples de colocar essa proposta em prática é criar pequenos momentos de pausa ao longo do dia para perceber como você está. Antes de reagir a uma situação, vale observar o que está acontecendo no corpo, quais emoções estão presentes e quais pensamentos surgiram. Tensão nos ombros, respiração acelerada, aperto no peito ou irritação, por exemplo, podem ser sinais para parar por alguns instantes e entender melhor o que está acontecendo antes de agir.

Outra possibilidade é anotar essas percepções, especialmente depois de situações que provocaram uma reação mais intensa. Registrar o que aconteceu, como você se sentiu e como respondeu pode ajudar a identificar padrões que se repetem na rotina. Com o tempo, essa observação permite perceber não apenas o que desencadeia determinadas emoções, mas também como você costuma reagir a elas.

A proposta, nesse caso, não é julgar os próprios sentimentos ou tentar eliminar emoções desagradáveis, mas criar espaço para reconhecê-las e escolher, quando possível, uma resposta mais consciente. Esse exercício de auto-observação pode fazer parte da rotina, mas não substitui acompanhamento psicológico ou médico quando existe sofrimento persistente ou sintomas que interferem na vida cotidiana.

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Quando procurar ajuda?

O cuidado com a saúde emocional não precisa começar somente diante de uma crise. Observar mudanças persistentes no humor, sono, energia, apetite, concentração ou comportamento pode ser um primeiro passo para buscar avaliação.

Dependendo dos sintomas, a investigação pode envolver diferentes profissionais. O psiquiatra pode avaliar transtornos mentais e indicar tratamento medicamentoso quando necessário. O psicólogo atua no acompanhamento psicoterapêutico. Já o endocrinologista é o especialista responsável por investigar alterações hormonais e doenças das glândulas endócrinas. Ginecologistas, urologistas, clínicos gerais e médicos de família também podem participar da avaliação de acordo com o quadro apresentado.

Mais importante do que tentar descobrir sozinho se determinado sintoma é “psicológico” ou “hormonal” é investigar suas possíveis causas com acompanhamento profissional.

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Cuidar da saúde mental, portanto, envolve olhar para o organismo e para a vida cotidiana de maneira integrada. Hormônios podem influenciar humor e comportamento, mas não atuam isoladamente. Da mesma forma, desenvolver autoconhecimento e recursos para lidar com as próprias emoções não substitui a avaliação médica quando há sintomas persistentes.