Quem teve catapora na infância costuma lembrar apenas das bolinhas vermelhas que coçavam e dos dias longe da escola. Mas o que pouca gente sabe é que o fim das feridas na pele não significa a eliminação do vírus do corpo.
Do ponto de vista biológico, ninguém se cura totalmente da catapora: o vírus permanece no organismo pelo resto da vida.
O “hóspede silencioso” no sistema nervoso
O causador desse processo é o vírus Varicella-Zoster. Segundo o Ministério da Saúde, após a fase aguda da catapora (também chamada de varicela), o sistema imunológico combate os sintomas e cicatriza a pele. Porém, o vírus não é eliminado.
Ele migra pelas fibras nervosas até se alojar nos gânglios sensitivos, próximos à coluna vertebral, onde entra em estado de latência (como se estivesse dormindo). Nessa fase, ele não causa sintomas, não se multiplica e não é transmitido para outras pessoas.
A reativação pode causar o surgimento do Herpes-Zóster
Esse estado dormente pode durar a vida toda. No entanto, em cerca de uma a cada três pessoas, o vírus reativa e faz o caminho inverso: viaja pelo nervo de volta até a pele, provocando o herpes-zóster.
Vale destacar que existe uma confusão frequente entre sarampo e catapora, mas são doenças totalmente diferentes, principalmente com o recente retorno dos surtos de sarampo. O vírus do sarampo não fica adormecido nos nervos e não causa herpes-zóster.
A reativação do vírus da catapora acontece principalmente quando há uma queda na imunidade, algo comum com o envelhecimento natural, em períodos de estresse intenso ou em pessoas com o sistema imunológico enfraquecido. Quando o vírus acorda, ele causa lesões dolorosas na pele que costumam seguir a linha de um nervo, afetando apenas um lado do corpo (como uma faixa no tórax, na barriga ou no rosto).
Catapora vs. Sarampo: entenda as diferenças
Apesar de serem frequentemente confundidas por causarem manchas vermelhas na pele e febre em crianças, catapora e sarampo são infecções provocadas por famílias de vírus completamente distintas, com comportamentos no corpo muito diferentes.
A catapora é causada pelo vírus Varicella-Zoster. Sua marca registrada são as bolhas com líquido (vesículas) que coçam muito, secam e criam cascas. A transmissão ocorre tanto pelo ar quanto pelo contato direto com o fluido dessas feridas. Como mencionado, é uma doença que pode reativar na vida adulta na forma de herpes-zóster.
Já o sarampo é causado pelo vírus Morbillivirus. Diferente da catapora, o sarampo não forma bolhas com líquido; ele provoca manchas vermelhas planas e secas na pele, acompanhadas de febre alta, tosse seca, coriza e conjuntivite (olhos vermelhos e sensíveis à luz).
Ele se propaga pelo ar através de gotículas respiratórias. Embora seja classificado como uma infecção sistêmica, ele afeta diretamente o trato respiratório superior e inferior na sua fase inicial.
É considerado um dos vírus mais contagiosos do mundo, já que uma única pessoa infectada pode transmitir a doença para até 18 pessoas não imunizadas. O sarampo não fica latente nos nervos e não causa herpes no futuro.
Por que o sarampo voltou a preocupar?
O Brasil havia recebido em 2016 o certificado de erradicação do sarampo pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). No entanto, a doença voltou a circular e a registrar surtos.
Isso ocorre principalmente porque, nos últimos anos, a taxa de imunização contra o sarampo (feita pela vacina Tríplice Viral) caiu abaixo da meta de 95% estipulada pelas autoridades de saúde. A hesitação vacinal, a desinformação e o esquecimento do calendário infantil criaram uma grande “população desprotegida” de crianças e jovens.
Como o sarampo continua em circulação em diversos países das Américas e da Europa, viajantes infectados acabam reintroduzindo o vírus no território nacional. Ao encontrar um ambiente com baixas taxas de vacinação, o vírus se espalha rapidamente, gerando novas cadeias de transmissão e surtos locais.
Como se proteger de catapora e sarampo?
De acordo com os protocolos de vigilância do Ministério da Saúde, para se proteger das doenças é preciso se atentar a:
- Proteção contra o Sarampo: A vacina Tríplice Viral (que protege contra sarampo, caxumba e rubéola) e a Tetraviral estão disponíveis gratuitamente no SUS. A vacinação infantil adequada é a única forma de evitar surtos da doença. Adultos de até 59 anos que não têm certeza do histórico vacinal também devem atualizar a carteirinha no posto de saúde.
- Vacinação contra a Catapora: O SUS disponibiliza a vacina contra a varicela no calendário infantil de rotina (integrada na dose da Tetraviral ou como dose isolada da varicela), garantindo a imunização antes do primeiro contato com o vírus.
- Prevenção do Herpes-Zóster em adultos: Para quem já teve catapora na infância, existe na rede privada uma vacina específica contra o herpes-zóster indicada para adultos a partir dos 50 anos ou imunossuprimidos, reduzindo drasticamente o risco de o vírus adormecido reativar.
- Tratamento rápido: Caso os primeiros sinais do herpes-zóster apareçam na vida adulta (dor localizada seguida de vermelhidão/bolhas), o uso de medicamentos antivirais deve ser iniciado em até 72 horas para diminuir a gravidade do quadro e evitar a neuralgia pós-herpética (dor crônica nos nervos).







