Capadócia nordestina: cidade de 6,7 mil habitantes guarda cenário de outro mundo e rochas de mais de 380 milhões de anos

No interior do Piauí, formações monumentais esculpidas pela erosão revelam uma paisagem com mais de 380 milhões de anos

Formações avermelhadas criam uma paisagem de torres e paredões em São José do Piauí (Foto: Reprodução/Portal Noticiei)

Formações avermelhadas criam uma paisagem de torres e paredões em São José do Piauí (Foto: Reprodução/Portal Noticiei)

A estrada deixa para trás a área urbana e avança pelo interior do Piauí até que a paisagem começa a mudar. Entre a vegetação da Caatinga, surgem paredões avermelhados, corredores estreitos e enormes blocos de pedra que parecem ter sido esculpidos à mão. Quanto mais se avança, mais o cenário lembra outro continente.

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É dessa semelhança que nasceu o apelido Capadócia Nordestina. O conjunto fica na zona rural de São José do Piauí, no povoado Três Irmãos, e chama atenção não apenas pelas formas incomuns, mas pela história gravada nas próprias rochas.

Ali, cada paredão funciona como uma espécie de registro do tempo. Água, vento e outros processos erosivos modificaram o relevo lentamente durante centenas de milhões de anos, abrindo passagens e criando torres naturais que hoje dominam a paisagem.

Segundo o Governo do Piauí, algumas dessas formações têm mais de 380 milhões de anos. O contraste chama atenção: um município que tinha apenas 6.733 habitantes na estimativa de 2025 guarda um cenário moldado muito antes do surgimento dos dinossauros.

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Um labirinto esculpido pelo tempo

De perto, a dimensão das rochas fica ainda mais evidente. O caminho passa entre paredões altos, blocos irregulares e corredores que mudam de forma conforme o visitante avança pelo complexo.

Também conhecido como Morro dos Três Irmãos e Cidade Encantada, o lugar reúne estruturas que podem alcançar entre 100 e 170 metros de altura, segundo informações da prefeitura. Em alguns trechos, a sequência de rochas cria a sensação de caminhar por um labirinto natural.

A comparação com a Capadócia turca nasceu justamente desse conjunto de torres, paredes e formas esculpidas pela erosão. Apesar da semelhança visual, os dois lugares possuem histórias geológicas diferentes e foram moldados por processos próprios.

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Quando chega o período de chuvas, a paisagem muda novamente. Água acumulada entre as depressões das rochas pode formar piscinas temporárias e pequenas quedas d’água, acrescentando novos elementos ao cenário normalmente marcado pelos tons secos da Caatinga.

Marcas humanas entre as pedras

Nem tudo o que chama atenção, porém, foi criado apenas pela natureza. Entre cavernas e paredões, a região preserva pinturas e inscrições rupestres, além de registros fósseis e olhos d’água.

Esses vestígios ampliam a importância do complexo. Além do valor turístico, a área também desperta interesse arqueológico e paleontológico, enquanto outros pontos de São José do Piauí guardam registros semelhantes de antigas ocupações humanas.

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Aos poucos, o conjunto começou a ganhar espaço entre os destinos de ecoturismo do estado. A chamada Capadócia Nordestina fica a cerca de 296 quilômetros de Teresina e permite atividades como trilhas, escaladas e passeios de bicicleta.

Chegar até lá, porém, exige planejamento. Por estar em uma área que demanda preservação, a visita precisa ser agendada previamente e ocorre com acompanhamento de guia cadastrado no ecoparque.

No fim do percurso, o que permanece não é apenas a comparação com um destino famoso da Turquia. Entre corredores de pedra, paredões monumentais e marcas deixadas ao longo de centenas de milhões de anos, São José do Piauí guarda uma paisagem que parece resumir, em poucos quilômetros, uma parte profunda da história do planeta.