Entre livros raros, bibliotecas centenárias e sebos históricos: 4 lugares para conhecer em São Paulo e no Rio 

Passeio passa por instituições e comércios tradicionais que preservam parte importante da memória literária e cultural das duas cidades

Vitral do teto da Biblioteca Nacional chama atenção entre os detalhes arquitetônicos da sede histórica no Centro do Rio de Janeiro (Foto: Donatas Dabravolskas/Wikimedia Commons)

Foto: Donatas Dabravolskas/Wikimedia Commons

“Dispenso a verdade, tão fria e tão crua. A vida é linda, mas prefiro ainda literatura”. Ao tornar esse o refrão de uma das canções do seu mais recente álbum, Jão escancarou um sentimento não só dele, mas de boa parte de seu grupo de fãs. Segundo o Instituto Pró-Livro, 18% dos entrevistados entre 14 a 17 anos afirmaram consumir literatura por vontade própria todos ou quase todos os dias, e 24% pelo menos uma vez na semana.

Continua após a publicidade

Além disso, o modelo impresso continua fazendo sucesso entre os jovens, mesmo com a presença cada vez mais imponente das telas e tecnologia no cotidiano, segundo o Panorama de Consumo de Livros 2025, da Câmara Brasileira do Livro e Nielsen BookData.

Pensando nisso, visitar livrarias, sebos e bibliotecas pode ser um ótimo passatempo para aqueles interessados em literatura. Esse costume é chamado de turismo literário, e para a sorte de muitos, não é preciso sair do país para realizá-lo. 

Biblioteca atravessa quatro séculos

No segundo andar do Mosteiro de São Bento, no Centro de São Paulo, está um acervo que começou a ser formado junto à fundação do Mosteiro, em 1598. Mais de quatro séculos depois, a biblioteca reúne mais de 100 mil volumes, com obras de teologia, filosofia, história e literatura, além de livros raros produzidos desde o século XV.

Continua após a publicidade

Entre as peças preservadas estão um exemplar de 1496, um comentário bíblico de 1500, tratados de Aristóteles publicados em 1607, uma Bíblia de Lutero de 1656 e um antifonal de 1715 usado no canto gregoriano. O acervo também guarda obras que já fizeram parte do Index, a antiga lista de livros proibidos pela Igreja Católica.

Quem estiver em São Paulo precisa saber que a biblioteca não é aberta à visitação turística livre. O atendimento é voltado principalmente à comunidade beneditina e acadêmica, enquanto pesquisadores externos podem solicitar acesso mediante agendamento prévio, pelo e-mail [email protected] ou pelo telefone (11) 3328-8799.

Mesmo sem entrar na biblioteca, o visitante pode conhecer o complexo do Mosteiro de São Bento e a basílica, no Largo de São Bento, Centro, em frente à estação São Bento da Linha 1-Azul do Metrô. Antes de ir, vale consultar a programação oficial, já que horários de missas, celebrações e acesso aos espaços podem sofrer alterações.

Continua após a publicidade

Estantes que resistem ao tempo

Uma edição fora de catálogo pode aparecer espremida entre dois romances. Um disco antigo divide espaço com revistas, fotografias e livros que já passaram por várias mãos. Nos sebos mais tradicionais de São Paulo, parte da graça está justamente em não saber o que vai aparecer na próxima estante. 

Alguns desses endereços atravessaram décadas acompanhando as mudanças do Centro e continuam recebendo quem prefere procurar um livro sem depender apenas da barra de busca.

Um dos mais antigos é a Livraria Calil Antiquaria, fundada em 1945. Instalado atualmente no nono andar de um edifício da Rua Barão de Itapetininga, o negócio começou com Líbano Calil e reúne cerca de 450 mil títulos, além de manuscritos, gravuras, fotografias e cartões-postais.

Continua após a publicidade

Outros marcos 

Em 1969, outro nome entrou para a história dos sebos paulistanos. Messias Coelho, que já vendia livros de forma ambulante, começou o Sebo do Messias depois de receber milhares de exemplares deixados por um amigo. O acervo cresceu, ocupou vários pavimentos na Praça Dr. João Mendes e hoje vai muito além dos livros, com revistas, gibis, discos, CDs e outras mídias espalhadas pelo endereço.

Para quem quiser fazer esse garimpo, a Calil fica na Rua Barão de Itapetininga, 88, conjunto 917, com funcionamento informado de segunda a sexta, das 10h às 17h, e sábado, das 10h às 13h

O Sebo do Messias está na Praça Dr. João Mendes, 140, e informa atendimento de segunda a sexta, das 9h às 18h, e aos sábados, das 9h às 17h, exceto feriados. Como os horários podem mudar pontualmente, vale conferir os canais oficiais antes de sair de casa.

Continua após a publicidade

Entre livros e história no Rio

Se você estiver em terras cariocas e quiser um passeio diferente que se encaixe nessa lista, vale reservar algumas horas para conhecer a Biblioteca Nacional, no Centro do Rio de Janeiro. 

Além das estantes, o próprio prédio já faz parte da experiência: a atual sede, na Avenida Rio Branco, foi inaugurada em 1910, com salões monumentais e arquitetura marcada por elementos neoclássicos e art nouveau.

A história da instituição, porém, começou um século antes. O núcleo original veio da Real Biblioteca portuguesa, trazida ao Brasil com a corte de dom João, e 29 de outubro de 1810 é considerado o marco oficial de criação da Biblioteca Nacional. 

Continua após a publicidade

Hoje, o acervo é estimado em cerca de 10 milhões de itens, entre livros, manuscritos, mapas, fotografias, gravuras, periódicos e outros documentos, o que coloca a instituição entre as maiores bibliotecas nacionais do mundo e como a maior da América Latina.

Diferentemente da biblioteca do Mosteiro de São Bento, aqui o turista consegue entrar para conhecer os espaços. A sede funciona de segunda a sexta-feira, das 10h às 17h, com entrada para visitantes até 16h30. Também há visitas orientadas gratuitas às 11h, 12h, 14h, 15h e 16h, mediante agendamento prévio pelo e-mail [email protected]; o roteiro passa pela história do prédio, pelo papel da instituição e por destaques de seu acervo.

A Biblioteca Nacional fica na Avenida Rio Branco, 219, na região da Cinelândia, cercada por outros pontos culturais do Centro carioca, como o Theatro Municipal e o Museu Nacional de Belas Artes. 

Continua após a publicidade

Para quem quer fazer mais do que fotografar a fachada, a visita orientada é a melhor escolha: além de entrar nos ambientes históricos, ela ajuda a entender como uma coleção trazida pela corte portuguesa acabou se transformando em um dos maiores acervos de memória do país.