Fim das enchentes em SP: soluções pelo mundo podem inspirar a Capital

Metrópoles mundiais conseguem ótimos resultados em ações que combinam grandes obras com soluções da natureza

Carros boiam durante forte tempestade na cidade de São Paulo

Carros boiam durante forte tempestade na cidade de São Paulo | Fotos Públicas

A morte recente de um casal de idosos por conta das enchentes em São Paulo reacendeu o debate sobre a necessidade de mais investimentos para o combate ao drama ambiental e humano causado por tempestades na maior cidade do País. Segundo especialistas, há exemplos a serem seguidos em cidades pelo mundo e também do Brasil, como Tóquio, no Japão, Copenhague, na Dinamarca, e Curitiba, a capital paranaense.

Além dos piscinões (hoje a Capital tem 55 estruturas do tipo, entre prontas e em construção), a Prefeitura de São Paulo anunciou recentemente investimentos mais constantes nos jardins de chuva, considerados uma solução verde contra alagamentos e enchentes.

Segundo a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), tratam-se de áreas verdes projetadas para absorver a água da chuva, prevenindo alagamentos e contribuindo para a permeabilidade do solo. Além disso, ajudam a proteger os recursos hídricos e a melhorar o ambiente urbano.

A absorção da água chega a 30% mais do que jardins convencionais. “A principal vantagem é que o jardim conduz a água da chuva através do solo, recarregando o lençol freático e diminuindo o volume que vai para os córregos por meio da drenagem urbana tradicional”, explicou o secretário municipal das Subprefeituras, Fabricio Cobra. 

A prefeitura iniciou em janeiro a implantação de mais 103 novos jardins de chuva na região da Sé. Neste momento, a cidade conta com 427 jardins de chuva e, com as novas intervenções, chegará a 530. 

Exemplos internacionais

Modelos ao redor do mundo foram bem-sucedidos. Veja:

Tóquio e a ‘catedral subterrânea’

Uma das cidades mais bem-sucedidas no combate às enchentes é Tóquio, a gigantesca capital japonesa, com 37 milhões de habitantes contando a região metropolitana. A cidade está localizada em uma planície cortada por cinco sistemas fluviais turbulentos e dezenas de rios individuais que aumentam naturalmente de volume a cada ano.

Por isso, construiu o Canal de Descarga Subterrânea Externa da Área Metropolitana, conhecido como G-Cans, um projeto de infraestrutura subterrânea de água. É a maior instalação subterrânea de desvio de água de inundação do mundo. Pelo seu tamanho descomunal, é chamado de “catedral subterrânea”.

O modelo consiste em cinco silos de 65 metros de altura conectados por 6,3 quilômetros de túneis. A água é armazenada em um tanque imenso (sustentado por pilares de 500 toneladas) e depois bombeada com segurança para o rio Edo usando motores de turbina de avião.

No fim de janeiro, o senador Sergio Moro (União Brasil-PR) visitou o sistema é aberto ao público quando não está em funcionamento para sugerir que a solução fosse adotada no Brasil.

“Tóquio encontrou a solução definitiva para as enchentes e inundações que atormentavam a cidade. Uma solução possível, guardadas as escalas, para as enchentes no Brasil”, destacou o senador.

Copenhague, a cidade-esponja

Capital da Dinamarca, Copenhague enfrenta historicamente problemas sérios causados pelas fortes chuvas. Uma tempestade catastrófica em 2011 acendeu o alerta definitivo para o governo começar a buscar soluções definitivas.

Para começar, transformou 250 pontos da cidade para reter ou direcionar as águas das chuvas a pontos menos problemáticas. A ideia é usar a capacidade natural de retenção das árvores, dos arbustos e do solo e deixar a água pluvial fluir para locais onde não seja destrutiva. A capital dinamarquesa ganhou o apelido, então, de cidade-esponja.

Os planos incluem túneis de concreto enterrados sob a cidade e parques públicos remodelados para atuar como reservatórios.

Quando a tempestade é forte demais, uma estação de bombeamento no porto entra em ação, levando as águas dos túneis para o mar e, assim, criando espaço para mais água da chuva. Isso evita que ruas sejam inundadas.

Haverá, também, uma ilha artificial conectada ao continente por meio de uma via circular, túneis e uma linha de metrô. Terá o objetivo principal de ser uma barragem contra a elevação do nível do mar.

Curitiba encontra soluções na natureza

A partir de uma lei aprovada no ano passado, Curitiba passou a adotar oficialmente em janeiro uma série de soluções baseadas na natureza para reduzir enchentes e alagamentos. Entre as novidades estão jardins de chuva, valas verdes, canteiros pluviais e parques lineares.

A legislação determina ainda que fundos de vale devem ser utilizados prioritariamente para parques lineares, áreas de lazer e ações de preservação ambiental. A ideia é transformar regiões suscetíveis a alagamentos em espaços que ajudem a conter a água da chuva e, ao mesmo tempo, ampliem áreas verdes e de convivência.

Há, também, grandes obras de drenagem.

“Nosso objetivo é agir hoje com a visão de futuro que a cidade merece”, destacou Eduardo Pimentel (PSD), prefeito da capital paranaense.

Resoluções definitivas não são simples

Para Antônio Giansanti, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), na Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), a questão das enchentes e alagamentos em São Paulo é histórica a e se iniciou com a ocupação descuidada em áreas vulneráveis às inundações durante o processo de crescimento de São Paulo e de municípios do entorno.

“Foram ocupadas áreas como várzeas que naturalmente são inundáveis durante as chuvas intensas. Logo será necessária uma atuação durante um bom período para ter soluções que mitiguem as inundações urbanas”, explicou o especialista à Gazeta.

Para o professor, não existe solução simples para minimizar os danos.

“É possível haver uma cesta de soluções mitigadoras, como as baseadas na natureza e outra obras estruturais que são mais conhecidas, bem como adaptação arquitetônica em áreas consolidadas. Não existe solução mágica, mas baseadas sempre em planejamento e projetos de engenharia”, destacou.

Ainda segundo Giansanti, a mobilidade urbana ficará melhor como consequências de obras estruturais e ações para impedir a ocupação de áreas vulneráveis.