Planta ‘extinta’ reaparece no litoral de SP depois de 100 anos

Espécie rara de begônia surpreende cientistas ao ressurgir após um século sem registros

Redescoberta em área isolada reforça urgência de conservação no litoral paulista

Redescoberta em área isolada reforça urgência de conservação no litoral paulista | Reprodução/Gabriel Sabino/Cambridge University

Uma planta considerada extinta voltou a ser vista após mais de cem anos na Ilha de Alcatrazes, no litoral norte de São Paulo. A descoberta inesperada surpreendeu pesquisadores e reacendeu o interesse científico por uma espécie que parecia perdida.

O achado envolve a Begonia larorum, espécie endêmica da ilha e ausente dos registros desde a década de 1920. Cientistas encontraram primeiro um único exemplar e, meses depois, uma pequena população escondida em área de difícil acesso.

Além de revelar que a planta sobreviveu ao tempo e às mudanças ambientais, o reencontro pode ajudar a entender como espécies raras resistem ao isolamento e às pressões humanas. O local onde ela estava guarda pistas valiosas.

Sobrevivente improvável

A redescoberta foi feita por pesquisadores da Unicamp e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro durante um levantamento da flora da Ilha de Alcatrazes. A espécie só era conhecida por exemplares coletados nos anos 1920 pelo zoólogo alemão Hermann Luederwaldt.

O estudo, publicado na revista Oryx The International Journal of Conservation, descreve características da planta e alerta para seu estado crítico de conservação. Por ser extremamente rara, os cientistas acreditavam que ela já não existia mais na ilha.

O projeto de pesquisa, financiado pela Fapesp, começou em 2022 com o objetivo de atualizar a lista de espécies locais. Segundo o professor Fábio Pinheiro, em entrevista à Folha de S. Paulo, não havia inventários recentes da vegetação, o que aumentava a chance de surpresas.

Encontro por acaso

Em fevereiro de 2024, o botânico Gabriel Sabino encontrou um único indivíduo escondido no sub-bosque da face sul da ilha. Sem flores, a identificação exigiu experiência e memória visual após anos revisando descrições antigas da espécie.

“Eu fiquei surpreso. Encontramos um indivíduo só, sem flor, e conseguimos fazer cinco clones”, contou o pesquisador à Folha de S. Paulo. As mudas foram cultivadas em laboratório, garantindo que a espécie não se perdesse novamente.

Meses depois, novas expedições revelaram uma população com 19 plantas, a maioria em fase reprodutiva. O momento foi celebrado pela equipe, que coletou amostras para herbários e conseguiu dados inéditos sobre a biologia da begônia.

Isolamento pode ter salvado a espécie

A ilha integra uma área protegida administrada pelo ICMBio, dentro da Estação Ecológica Tupinambás. Apesar disso, o local sofreu impactos no passado, incluindo exercícios militares e incêndios que alteraram a vegetação.

Espécies invasoras também se espalharam após essas perturbações, possivelmente empurrando a begônia para áreas mais isoladas. A população encontrada fica em um trecho pouco visitado, o que pode ter permitido sua sobrevivência silenciosa por décadas.

Os pesquisadores agora pedem que a planta seja incluída na lista de espécies ameaçadas da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza). Além da importância ecológica, ela pode revelar como organismos insulares respondem às mudanças climáticas, funcionando como um “laboratório natural” do futuro do planeta.

O próximo passo inclui estudar polinizadores, genética e adaptação ao ambiente rochoso e seco. Para os cientistas, cada nova informação ajuda não só a proteger a Begonia larorum, mas também a compreender como a vida insiste em persistir mesmo quando parece ter desaparecido.