Novo dinossauro de 20 metros é identificado por fósseis descobertos na Argentina

Achado casual levou à identificação do Bicharracosaurus dionidei, um herbívoro de pescoço longo que viveu há cerca de 155 milhões de anos

A montagem de um esqueleto exige comparação anatômica, estudo de proporções e muita cautela para não reconstruir o animal de forma errada (Foto: Pixabay)

Um pastor caminhava por uma fazenda na Patagônia argentina quando encontrou algo que parecia grande demais para ser apenas uma pedra. Eram ossos fossilizados de um animal que havia vivido ali muito antes de qualquer pessoa imaginar aquele território como conhecemos hoje.

A descoberta feita por Dionide Mesa acabou revelando uma nova espécie de dinossauro de pescoço longo, batizada de Bicharracosaurus dionidei. O animal viveu há cerca de 155 milhões de anos e podia chegar a aproximadamente 20 metros de comprimento.

O achado chama atenção não apenas pelo tamanho. O fóssil mistura características de grupos diferentes de saurópodes, os gigantes herbívoros que marcaram o imaginário popular com corpo enorme, cauda longa, cabeça pequena e pescoço esticado.

Um gigante na fazenda

Os primeiros restos apareceram em uma propriedade rural na província de Chubut, no sul da Argentina. A partir dali, pesquisadores recuperaram partes importantes do esqueleto, incluindo mais de 30 vértebras do pescoço, das costas e da cauda, além de costelas e um fragmento da pelve.

Esse conjunto permitiu aos cientistas identificar que se tratava de um animal adulto. Mesmo sem o esqueleto completo, os ossos preservados carregavam pistas suficientes para separar o fóssil de outras espécies já conhecidas.

O nome também guarda parte dessa história. Bicharracosaurus vem de “bicharraco”, palavra informal em espanhol usada para se referir a um animal grande. Já Dionidei homenageia Dionide Mesa, o pastor que encontrou os primeiros vestígios.

Por que o fóssil intriga

À primeira vista, o Bicharracosaurus lembra outros grandes saurópodes do Jurássico. Algumas partes do esqueleto se aproximam de animais como o Giraffatitan, encontrado na Tanzânia, enquanto outras características lembram o Diplodocus e seus parentes conhecidos por fósseis da América do Norte.

Essa combinação transformou o animal em uma peça importante para os paleontólogos. Ele pode ajudar a entender como esses gigantes se espalharam e evoluíram quando os continentes ainda tinham uma configuração muito diferente da atual.

“Nossas análises filogenéticas do esqueleto indicam que Bicharracosaurus dionidei era relacionado aos Brachiosauridae, o que faria dele o primeiro Brachiosauridae do Jurássico da América do Sul”, afirmou Alexandra Reutter, autora principal do estudo.

A importância da Patagônia

Durante muito tempo, boa parte do conhecimento sobre saurópodes do fim do Jurássico veio de fósseis encontrados no Hemisfério Norte. Por isso, cada novo achado no sul do planeta pode mudar a forma como os cientistas montam essa árvore evolutiva.

A Patagônia aparece nesse cenário como uma região estratégica. Suas formações rochosas preservam registros antigos da vida em Gondwana, o supercontinente que reunia terras do Hemisfério Sul milhões de anos antes da configuração atual dos continentes.

Com o Bicharracosaurus, a região ganha mais uma peça nesse quebra-cabeça. O fóssil não apenas revela um animal gigantesco, mas também mostra como descobertas feitas longe dos grandes centros podem alterar perguntas importantes da ciência.

Um achado improvável

Existe algo quase cinematográfico nessa história: um pastor encontra ossos gigantes no meio da fazenda, e aqueles fragmentos acabam levando ao reconhecimento de uma espécie desconhecida.

Na prática, a paleontologia também depende desses encontros improváveis. Um fóssil pode passar milhões de anos escondido na rocha até que alguém perceba, ali no chão, uma pista de um mundo que desapareceu muito antes dos seres humanos.