Motos que fizeram História: Yamaha RD 350

Modelo que ficou marcado pela alcunha "Viúva Negra" foi um dos principais do universo de duas rodas do Brasil

Yamaha RD 350

Yamaha RD 350 | Divulgação

A Yamaha lançou, em 1973, um modelo que marcaria definitivamente a história do motociclismo mundial: a RD 350.

A sigla RD vem de Road Developed, ou “desenvolvida para as pistas”, uma clara referência à vocação esportiva da motocicleta.

Inicialmente importada do Japão, a RD 350 passou a ser produzida no Brasil após a inauguração da fábrica da Yamaha em Manaus (AM), nos anos 80.

O modelo sempre apostou no sucesso e na experiência da marca japonesa com motores de dois tempos na Motovelocidade, em contraposição à estratégia de sua principal rival, a Honda, que seguia outro caminho tecnológico.

O lançamento da RD 350 representou um marco para os apaixonados por velocidade que não dispunham de recursos financeiros para adquirir uma motocicleta de grande cilindrada, como as 750 cc.

Era, portanto, uma esportiva de alto desempenho relativamente acessível.

As primeiras versões da RD 350 utilizavam um motor de 347 cm³, capaz de gerar 39 cavalos de potência a 7.500 rpm e 3,8 kgfm de torque a 7 mil rpm. Com peso em torno de 143 quilos, a motocicleta atingia velocidade máxima de 166 km/h – número que, posteriormente, chegaria à casa dos 200 km/h.

Foi nesse contexto que surgiu o apelido do qual a RD 350 jamais se desvencilhou: “Viúva Negra”, em referência à aranha venenosa cuja fêmea devora o macho após a cópula.

No caso da motocicleta, a analogia vinha de sua combinação perigosa: potência avassaladora, entrega abrupta típica dos motores de dois tempos e um sistema de freios que não acompanhava o desempenho.

O resultado foi uma reputação de moto difícil de domar, responsável por vários acidentes, sobretudo entre pilotos inexperientes.

A fama da “Viúva Negra” foi forjada “a ferro e fogo” por suas características técnicas. O motor de dois tempos entregava potência de forma explosiva, exigindo atenção constante e elevada habilidade do piloto.

Nos primeiros modelos, o conjunto de freios – disco simples na dianteira e tambor na traseira – mostrava-se insuficiente diante da performance. Em curvas, a combinação tornava a moto traiçoeira, agravada pelo fato de que, à época, o uso de equipamentos de segurança adequados, como capacete, ainda não era comum.

A produção nacional da RD 350 teve início em 1986. O processo de nacionalização progressiva de componentes, imposto pela política industrial brasileira, havia limitado o mercado a motos de menor cilindrada durante boa parte dos anos 70.

Nesse período, a Yamaha fabricava modelos como a RD 50 – a popular “Cinquentinha” — e as 125 RS, RX e TT.

Enquanto isso, no Japão, a marca desenvolvia a RD 350 LC YPVS, evolução da RD 350 LC, que pouco tinha a ver com o modelo destinado ao Brasil.

Essa versão utilizava refrigeração líquida e não a ar, além de adotar o sistema de válvula YPVS (Yamaha Power Valve System), projetado para melhorar o torque em baixas rotações e tornar a pilotagem mais amigável, especialmente no uso urbano.

A RD 350 nacional de 1987 incorporou as atualizações aplicadas em 1986 em outros mercados, passando a contar com uma carenagem frontal com farol retangular, rabeta e lanterna no mesmo formato do farol.

O resultado foi um curioso híbrido entre naked e carenada, em uma época em que essas classificações ainda não estavam bem definidas.

O desenho seguia a inspiração da esportiva RD 500 LC. Com melhor aerodinâmica, a RD 350 passou a alcançar cerca de 200 km/h de velocidade máxima e acelerava de zero a 100 km/h em aproximadamente cinco segundos. A aptidão esportiva estava em sua essência.

A produção da RD 350 no Brasil se estendeu até 1993, já como RD 350R, quando a abertura do mercado permitiu a entrada de motocicletas importadas mais modernas, marcando o fim da era das esportivas de dois tempos fabricadas no País.

Ao longo dos anos em Manaus, o modelo teve poucas alterações, sendo a principal a carenagem que passou a cobrir o motor, em 1988. Nesse mesmo ano, recebeu discos de freio ventilados e suspensão Showa.

Dois anos antes do fim da produção, o farol retangular foi substituído por dois circulares.

Assim como a Honda CBX 750, a RD 350 consolidou-se como um ícone nacional, encarando desafios frente a motos maiores e de quatro tempos.

Fora de linha há mais de três décadas, a eterna “Viúva Negra” segue despertando paixão entre colecionadores e entusiastas. Estimar o valor de uma RD 350 em bom estado – uma raridade – é tarefa difícil. Segundo a Tabela Fipe, o último modelo, de 1993, tem valor estimado em torno de R$ 7,5 mil.

A ficha técnica da última versão nacional registra motor de dois cilindros em linha, dois tempos, refrigerado a água, com 347 cm³, potência de 55 cavalos a 9 mil rpm e 4,74 kgfm de torque a 8.500 rpm.

O câmbio é de 6 marchas, com transmissão por corrente, dois carburadores e partida a pedal. Os freios são a disco duplo ventilado na dianteira e disco simples na traseira.

O quadro é tubular em aço, do tipo berço duplo, com suspensão dianteira telescópica hidropneumática e traseira monoamortecida.

Os pneus medem 90/90-18 na frente e 110/80-18 atrás. Com 2,12 metros de comprimento, 1,69 metro de entre-eixos, 78 centímetros de altura do assento, tanque de 18 litros e peso de 167 quilos, a RD 350 permanece como uma das motos mais emblemáticas já produzidas no Brasil.