Você ainda fala ‘acidente de trânsito’? Termo não deve ser utilizado desde 2021

ABNT oficializou a troca de palavras para tirar a ideia de acaso e colocar responsabilidade e prevenção no centro da discussão

Troca de palavras revela uma virada de chave na segurança viária e na responsabilidade no trânsito

Troca de palavras revela uma virada de chave na segurança viária e na responsabilidade no trânsito | Marcelo Camargo/Agência Brasil

Você provavelmente já leu, ouviu ou até escreveu “acidente de trânsito” hoje. A expressão parece inofensiva, mas carrega um significado que especialistas tentam deixar no passado.

Desde 2021, a recomendação técnica passou a ser outra. A substituição por “sinistro de trânsito” foi oficializada pela ABNT e busca romper com a ideia de acaso.

Ao trocar a palavra, o foco sai da fatalidade e vai direto para a responsabilidade, prevenção e decisões humanas envolvidas em cada ocorrência.

Mesmo assim, cinco anos depois, a mudança ainda causa estranhamento. Entender o motivo ajuda a enxergar o trânsito brasileiro com menos resignação e mais senso de urgência, num país onde a violência viária segue fazendo vítimas todos os dias.

Por que ‘acidente’ não explica o que acontece nas ruas

A palavra “acidente” sugere algo imprevisível, fora de controle. No trânsito, porém, essa leitura não se sustenta. Estudos apontam que mais de 90% dos casos estão ligados a falhas humanas, como excesso de velocidade, álcool ou distração ao volante.

Ao chamar essas ocorrências de acidentes, a linguagem suaviza o problema. Cria-se a sensação de que nada poderia ter sido feito, quando, na prática, escolhas individuais e coletivas tiveram papel decisivo no desfecho daquela colisão.

“Ao tratarmos essas tragédias como acidentes, passamos a falsa impressão de que não é possível evitá-las. Mas sabemos que há, sim, responsabilidade e previsibilidade na maioria dos casos”, explicou Flavio Adura, diretor científico da Abramet (Associação Brasileira de Medicina do Tráfego), ao Portal do Trânsito.

O que muda quando falamos em sinistro de trânsito

A atualização da norma NBR 10697, publicada em 2021, abandona o entendimento de que o evento seria “não premeditado”. O termo “sinistro” reforça que houve causas identificáveis e, portanto, espaço para prevenção e políticas públicas eficazes.

A mudança acompanha uma visão moderna de segurança viária, que prioriza reduzir mortes e lesões graves. A linguagem passa a dialogar melhor com campanhas educativas, fiscalização e planejamento urbano mais responsável.

“Continuar usando a palavra acidente é ignorar a essência da nossa especialidade médica. O que vemos nas ruas são sinistros evitáveis. A linguagem precisa refletir isso”, afirmou José Montal, diretor da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego.

Por que esse debate ainda importa em 2025

Mesmo com a norma em vigor, o termo antigo segue dominante no cotidiano e na cobertura jornalística. Relembrar essa mudança ajuda a fortalecer a educação para o trânsito e a evitar a naturalização da violência viária no país.

Na prática, a própria gestão pública já vem adotando a lógica do termo ao tratar de redução no número de sinistros fatais no trânsito como prioridade. A escolha das palavras aponta para o mesmo rumo: o que mata pode ser prevenido.

Os números reforçam a urgência. O trânsito brasileiro segue entre os mais letais do mundo, com milhares de mortes todos os anos. A maioria das vítimas são motociclistas, grupo mais exposto e vulnerável nas cidades.

É por isso que ações como uma campanha focada em reduzir mortes de pedestres ganham peso quando a linguagem também faz a sua parte, sem tratar como acaso o que tem causa.

Diante desse cenário, a escolha das palavras deixa de ser detalhe. Chamar de sinistro é reconhecer que há decisões, falhas e responsabilidades envolvidas, e que cada vida perdida poderia ter tido outro destino com mais atenção e empatia.