Enfermeira enfrenta 16 sessões de quimioterapia e 15 de radioterapia após diagnóstico de câncer de mama e escreve livro com a irmã psicóloga

Kelryrraine Calixte encontrou na família apoio durante o tratamento e levou a experiência para a escrita; hoje, mantém acompanhamento e usa medicação hormonal.

Kelryrraine Calixte sentada ao ar livre, com camisa rosa e calça clara.

A enfermeira compartilhou sua trajetória de tratamento em relato publicado pela Prefeitura de Canaã dos Carajás. Crédito: Carol de Andrade / Prefeitura de Canaã dos Carajás

Tocar o sino depois de uma etapa do tratamento ganhou um significado particular para Kelryrraine Calixte: reconhecer o caminho percorrido. A enfermeira de Canaã dos Carajás, no Pará, enfrentou câncer de mama e escreveu com a irmã psicóloga o livro Força por dentro, leve por fora.

Continua após a publicidade

Segundo relato publicado pela prefeitura em 30 de outubro de 2026, ela percebeu um nódulo em dezembro de 2025 e recebeu o diagnóstico no mês seguinte. Em Belém, passou por 16 sessões de quimioterapia, mastectomia e 15 sessões de radioterapia. O marido esteve presente, e sua mãe se mudou para acompanhá-la.

A enfermeira continua em acompanhamento e usa medicação hormonal. A escrita passou a integrar essa trajetória, sem substituir o tratamento ou encerrar a necessidade de cuidados. Seu relato reúne duas experiências que podem caminhar juntas: reconhecer uma conquista e continuar precisando de assistência.

O diagnóstico muda a rotina, mas não resume a pessoa

Receber um diagnóstico de câncer envolve aprender palavras novas, compreender exames e participar de decisões em um momento de forte impacto emocional. Há ainda questões práticas: organizar deslocamentos, conciliar compromissos e identificar quem poderá oferecer ajuda. O tratamento acontece dentro de uma vida que já existia, com responsabilidades, relações e necessidades próprias.

Continua após a publicidade

O Instituto Nacional de Câncer, o INCA, explica que o câncer de mama reúne diferentes tipos de tumores. Alguns apresentam crescimento mais rápido, enquanto outros evoluem lentamente. Essa diversidade ajuda a entender por que duas pessoas com o mesmo nome de diagnóstico podem receber propostas de tratamento diferentes e atravessar percursos distintos.

A comparação entre pacientes, portanto, tem limites. A quantidade de sessões realizada por uma mulher não permite antecipar o que outra precisará fazer. Também não funciona como medida de gravidade isolada. Conhecer uma história pode reduzir a sensação de solidão; definir a conduta exige avaliação individual, informações clínicas e diálogo com os profissionais responsáveis.

Cirurgia, quimioterapia e radioterapia têm funções diferentes

De acordo com o Ministério da Saúde, o tratamento depende das características do tumor, da extensão da doença e das condições da paciente. A investigação pode incluir biópsia, que fornece material para confirmar o diagnóstico e orientar decisões. A descoberta de uma alteração merece avaliação, mas não autoriza concluir, sem investigação, que se trata de câncer.

Continua após a publicidade

O INCA distingue tratamentos locais e sistêmicos. Cirurgia e radioterapia atuam localmente; quimioterapia, hormonioterapia e outras terapias alcançam o organismo por mecanismos diferentes. A combinação entre modalidades não é uma sequência única para todas as mulheres. A equipe organiza o plano conforme as necessidades identificadas em cada caso.

A quimioterapia pode ser utilizada antes da cirurgia para reduzir o tumor, depois dela para diminuir riscos relacionados à doença ou em outras situações de controle. Já a radioterapia utiliza radiações com finalidade terapêutica. Entender essas diferenças permite acompanhar as explicações da equipe e reconhecer que procedimentos com nomes conhecidos podem ter objetivos específicos.

Nenhuma dessas informações revela, por si só, os detalhes clínicos de uma pessoa retratada em uma reportagem. Para a leitora que está em tratamento, o caminho mais útil é perguntar qual a finalidade de cada etapa no próprio caso, quais efeitos devem ser comunicados e com quem falar quando surgir uma dificuldade.

Continua após a publicidade

A família pode ajudar também nas tarefas pequenas

Apoiar alguém não exige encontrar uma frase perfeita. Em muitos momentos, a ajuda pode começar por ouvir o que a pessoa quer compartilhar e respeitar o que prefere guardar. Oferecer companhia, combinar um deslocamento ou ajudar a organizar informações são possibilidades, desde que correspondam às necessidades e escolhas de quem recebe o cuidado.

A cartilha do Ministério da Saúde sobre cuidado integral da pessoa com câncer de mama destaca a importância de orientações claras sobre diagnóstico, tratamento e próximos passos. O documento também inclui o suporte emocional entre os componentes da assistência. Informar e acolher não são tarefas concorrentes: compreender o que acontece ajuda a participar do próprio cuidado.

O familiar não precisa assumir o lugar da equipe, interpretar sozinho resultados ou decidir o que a paciente deve sentir. Pode, quando autorizado, ajudar a registrar dúvidas e acompanhar explicações. Também vale perguntar diretamente qual ajuda seria bem-vinda, evitando transformar toda conversa em cobrança por ânimo, coragem ou pensamentos positivos.

Continua após a publicidade

O cuidado continua depois das etapas mais intensas

Terminar um ciclo de procedimentos não significa que todas as necessidades desaparecem naquele dia. A linha de cuidado do Ministério da Saúde orienta que o acompanhamento considere sintomas físicos e psicológicos, efeitos do tratamento e vigilância de possíveis recorrências. O seguimento deve ser individualizado, com responsabilidades definidas entre os serviços envolvidos.

A Atenção Primária permanece relevante mesmo quando o tratamento é realizado em uma unidade especializada. Ela pode acompanhar outras condições de saúde e ajudar na continuidade da assistência. O encaminhamento para outro serviço, conforme a orientação ministerial, não deve romper o vínculo construído com a equipe que acompanha a pessoa no território.

A hormonioterapia também ajuda a compreender por que o cuidado pode continuar por uma etapa prolongada. Segundo o Ministério da Saúde, ela é indicada em determinados tumores com receptores hormonais e atua sobre mecanismos relacionados aos hormônios. A indicação, o esquema e a duração dependem da avaliação médica; não são escolhas intercambiáveis entre pacientes.

Continua após a publicidade

Levar dúvidas por escrito pode facilitar a conversa na consulta. É possível perguntar sobre a próxima etapa, o retorno programado e os contatos disponíveis entre atendimentos. Se uma orientação não ficou clara, pedir outra explicação também faz parte da participação nas decisões sobre o cuidado.

Contar a experiência não exige esconder as dificuldades

Uma história de enfrentamento de doença pode abrir espaço para conversas que antes pareciam difíceis. Livros, depoimentos e encontros oferecem formas de compartilhar experiências, mas ninguém precisa transformar o próprio tratamento em exemplo público. A escolha de contar ou preservar essa vivência pertence à pessoa que a atravessa.

O Ministério da Saúde inclui na assistência integral a participação nas decisões, o apoio psicológico e o trabalho de diferentes profissionais. Essa abordagem permite olhar além do procedimento: a paciente precisa de informação compreensível, escuta e acompanhamento. O valor de uma conquista não diminui quando ainda existem dúvidas, cansaço ou necessidade de ajuda.

Continua após a publicidade

Nesse contexto, reconhecer uma etapa concluída e manter o seguimento não são atitudes contraditórias. Há espaço para comemorar, reorganizar planos e continuar fazendo perguntas. Uma narrativa responsável de superação preserva justamente essa possibilidade: enxergar a pessoa inteira, com seus projetos e relações, enquanto o cuidado de saúde segue seu curso.