O cenário político no Paraguai sofreu uma reviravolta histórica com o anúncio da renúncia do Presidente Santiago Peña nesta quinta-feira (5/11). A decisão ocorreu em meio a uma severa crise financeira deflagrada pela quebra e liquidação do banco digital Ueno, instituição da qual o ex-mandatário foi acionista.
O fechamento repentino da entidade deixou cerca de 3 milhões de correntistas sem acesso aos seus recursos, gerando comoção social, filas nas agências financeiras e fortes protestos na capital Assunção.
Em pronunciamento oficial direcionado à nação, Peña declarou que deixou o cargo pensando na estabilidade institucional e na paz social do país. O economista conservador, que assumiu o comando do Executivo em 2023 com mandato previsto até 2028, pediu desculpas públicas aos cidadãos afetados pelo bloqueio das contas e afirmou que nenhum cargo deve se sobrepor ao bem-estar da população.
Avanço do impeachment e isolamento político
A renúncia de Santiago Peña foi precipitada pelo avanço acelerado de um pedido de impeachment no Congresso Nacional. A oposição e antigos aliados acusavam o ex-presidente de conflito de interesses, uso indevido de fundos previdenciários e omissão, alegando que a autoridade monetária do país teria atuado para encobrir irregularidades financeiras. A derrocada política do governante consolidou-se quando lideranças do seu próprio partido, o Partido Colorado, retiraram o apoio oficial ao seu governo.
Apesar da entrega da carta de renúncia, a Câmara dos Deputados do Paraguai optou por dar prosseguimento ao processo de impeachment contra Peña. O requerimento responsabiliza a gestão pelas falhas na fiscalização do setor bancário, que acumulava valores expressivos de depósitos públicos do Instituto de Previdência Social.
Transição de governo e medidas para conter a crise
Com a vacância no cargo máximo do Executivo, o vice-presidente Pedro Alliana foi indicado para assumir o comando do país. Um pedido de impeachment direcionado a Alliana foi rejeitado pelos parlamentares na mesma sessão, garantindo a continuidade da linha sucessória constitucional.
No âmbito econômico e judicial, o governo paraguaio sancionou medidas de urgência para acelerar a devolução dos valores retidos aos clientes prejudicados. Paralelamente, o Ministério Público emitiu mandados de prisão e ordenou o bloqueio de bens de executivos e pessoas investigadas por envolvimento nas fraudes que culminaram no fechamento da instituição financeira.
Quem é Santiago Peña
Santiago Peña Palacios, de 47 anos, é um economista e político paraguaio de orientação conservadora, filiado ao tradicional Partido Colorado. Ele foi eleito presidente do Paraguai em 2023 aos 44 anos, tornando-se o governante mais jovem a assumir o comando do Executivo no país desde a redemocratização em 1989.
Com formação em Economia pela Universidade Católica de Assunção e mestrado em Administração Pública pela Universidade Columbia, em Nova York, Peña construiu uma sólida trajetória técnica antes de ingressar na política partidária. Atuou no Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington, fez carreira no Banco Central do Paraguai e ocupou o cargo de ministro da Fazenda entre 2015 e 2017, durante a gestão do ex-presidente Horacio Cartes.
No campo ideológico, consolidou uma imagem de perfil técnico aliado a pautas morais e econômicas alinhadas à direita conservadora. Sua trajetória política ficou marcada pelo papel central no Partido Colorado e pela transição do meio acadêmico e financeiro para o mais alto posto do governo paraguaio, culminando em sua renúncia em meio ao colapso do sistema bancário ligado ao banco Ueno.
O que é e qual o papel do banco Ueno na crise
O banco digital Ueno (antigo Financiera Ueno, pertencente ao Grupo Vázquez) era considerado uma das principais fintechs de crescimento rápido no Paraguai, acumulando cerca de 3 milhões de correntistas, em um país de aproximadamente 7,5 milhões de habitantes.
Além do grande volume de clientes individuais, a instituição privada mantinha sob sua custódia cerca de US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo repasses e fundos essenciais do Instituto de Previdência Social (IPS) paraguaio.
A trajetória da instituição e a origem da crise envolvem pontos centrais:
- Conexão política: o ex-presidente Santiago Peña foi acionista direto do grupo controlador da instituição até março de 2023, antes de assumir o comando do Executivo. A oposição e setores da sociedade acusaram seu governo de conflito de interesses, favorecimento e falta de fiscalização sobre as operações do banco.
- Abertura de liquidação: a crise estourou quando o Banco Central do Paraguai (BCP) determinou a liquidação e o encerramento das atividades do Ueno após constatar insuficiência grave de recursos para cobrir as obrigações da instituição. A autoridade monetária apontou a concessão de empréstimos irregulares e sem garantias para empresas vinculadas ao próprio grupo financeiro.
- Ações judiciais e bloqueios: após o anúncio do fechamento, a Procuradoria do Paraguai acusou formalmente dezenas de pessoas ligadas à administração do banco, emitindo mandados de prisão contra executivos e ordenando o congelamento e bloqueio de bens dos envolvidos.
- Impacto no sistema financeiro: o travamento dos fundos do Ueno gerou pânico bancário, filas históricas de correntistas em busca de saques e instabilidade temporária nos aplicativos de outras instituições financeiras do país devido ao alto volume de transferências de urgência.









