A sensação de insegurança no Brasil deixou de ser pontual para se consolidar como parte do cotidiano da população. Pesquisa inédita do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), em parceria com o Instituto Datafolha, mostra que 96,2% dos brasileiros com 16 anos ou mais têm medo de sofrer ao menos um tipo de violência investigada pelo estudo.
O levantamento “Medo do Crime e Eleições 2026” aponta que o receio está diretamente ligado à alta vitimização registrada no país.
Nos últimos 12 meses, cerca de 66,8 milhões de brasileiros foram vítimas diretas ou indiretas de algum crime, entre golpes virtuais, roubos e homicídios envolvendo pessoas próximas.
O avanço do crime digital
A principal preocupação do brasileiro atualmente não está apenas nas ruas. O medo de cair em golpes pela internet ou pelo celular lidera o ranking da pesquisa, citado por 83,2% dos entrevistados.
O índice supera o temor de roubos à mão armada e até de homicídios durante assaltos. Os dados acompanham o crescimento da criminalidade digital no país, que se tornou a forma de vitimização mais frequente do último ano.
Segundo o estudo, 26,3 milhões de pessoas afirmaram ter sofrido golpes virtuais nos últimos 12 meses. O celular aparece como principal ferramenta utilizada nas fraudes, especialmente em crimes financeiros.
Facções e a reorganização da vida nos bairros
A pesquisa também revela o avanço da presença do crime organizado no cotidiano das cidades brasileiras. Cerca de 41,2% dos entrevistados afirmam reconhecer a atuação de facções criminosas ou milícias nos bairros onde vivem.
Em áreas dominadas por esses grupos, o estudo identifica uma espécie de “governança criminal”, marcada pela imposição de regras informais e pelo controle social exercido por organizações armadas.
Entre os moradores dessas regiões, 61,4% dizem que facções influenciam diretamente decisões do bairro. O impacto também aparece na rotina: 59,5% evitam falar sobre política por medo de represálias, enquanto 81% afirmam temer confrontos armados.
O levantamento ainda aponta que viver em bairros com presença do crime organizado aumenta em 11 pontos percentuais a probabilidade de sofrer algum tipo de violência em relação à média nacional. O assunto era um dos temas aguardados para discussão entre Lula e Trump no encontro entre os líderes de estado, mas ficou de fora da pauta.
Mulheres e negros concentram maior percepção de risco
A percepção da insegurança varia de acordo com gênero e raça. As mulheres apresentam níveis mais altos de medo em todas as categorias analisadas pela pesquisa.
O maior contraste aparece na violência sexual: 82,6% das mulheres afirmam ter medo de sofrer agressão sexual, contra 48,6% dos homens.
Especialistas ouvidos pelo estudo associam o fenômeno ao que chamam de “hipótese da sombra”, em que o receio da violência sexual amplia a sensação geral de vulnerabilidade.
Entre a população negra, a percepção de risco também é mais intensa, especialmente em crimes letais. O medo de ser atingido por bala perdida alcança 80,3% dos entrevistados negros, enquanto entre brancos o índice é de 71,9%.
Dados da pesquisa apontam aumento da insegurança no País em ano eleitoal. Foto: Fernando Frazão/Agência BrasilViolência avança para o interior
Os dados também desmontam a ideia de que cidades menores permanecem isoladas da violência urbana. Municípios com até 50 mil habitantes registraram o maior percentual de pessoas que conhecem alguém assassinado.
Nessas cidades, 14,5% dos entrevistados relataram convivência próxima com vítimas de homicídio, percentual superior ao registrado nas capitais. O estudo relaciona esse cenário ao avanço das facções para o interior do país.
Segurança deve dominar debate eleitoral
Com a insegurança influenciando diretamente hábitos, deslocamentos e relações sociais, o tema tende a ocupar espaço central nas eleições presidenciais de 2026.
O estudo alerta ainda para o impacto das redes sociais na amplificação do medo. Segundo o FBSP, conteúdos relacionados a crimes violentos geram engajamento significativamente maior do que debates sobre políticas públicas de segurança.
Para os pesquisadores, o desafio dos próximos candidatos será apresentar propostas que ultrapassem o discurso exclusivamente repressivo, incluindo estratégias voltadas ao combate da criminalidade digital e à proteção de territórios vulneráveis.
Metodologia da pesquisa
O levantamento “Medo do Crime e Eleições 2026” foi realizado pelo Instituto Datafolha, sob encomenda do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), por meio de metodologia quantitativa com entrevistas presenciais.
Ao todo, foram ouvidas 2.004 pessoas com 16 anos ou mais em 137 municípios brasileiros, incluindo capitais, regiões metropolitanas e cidades do interior de diferentes portes.
A coleta de dados ocorreu entre os dias 9 e 10 de março de 2026. Segundo os organizadores, a pesquisa possui margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.
