De pai para filho: a virada que Jair quase aplicou que pode derrubar Flávio

A eleição presidencial entra na reta final com uma disputa apertada, em que votos que não apareceram no primeiro turno podem ser decisivos para o resultado.

A disputa entre Flávio Bolsonaro e Lula pode ser decidida por quem vai às urnas no segundo turno. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Por: Ramon Neves – Analista Político

Continua após a publicidade

Assim como o pai entrou para a história como o primeiro presidente não reeleito, o filho pode entrar como o primeiro candidato a tomar uma virada no segundo turno de uma eleição presidencial. Sei que a afirmação parece ousada, às vésperas de uma eleição em que todas as pesquisas mostram Flávio Bolsonaro à frente. Mas peço ao leitor um pouco de paciência, porque a conta que quase ninguém está fazendo diz outra coisa.

Antes, uma lembrança. Há algumas semanas, quando boa parte dos analistas cravava a vitória de Eduardo Paes no Rio, muitos em primeiro turno, apontei aqui, junto com o amigo e ex pré candidato Armando Paes, o derretimento da candidatura do favorito.

O clima de “já ganhou”, a fuga dos debates, as pontes queimadas, o plano de governo de oito páginas. O resultado veio nas urnas: Douglas Ruas terminou o primeiro turno eleito, e Paes ficou em segundo. Não acertei por adivinhação. Acertei porque olhei para o eleitor, e não só para os números das pesquisas. É o mesmo olhar que proponho agora para a eleição presidencial.

Continua após a publicidade

Lula cometeu erro parecido ao de Paes, tratando a eleição como vencida, cogitando até a vitória em primeiro turno. Escolheu Flávio como o adversário ideal, por achar que Tarcísio seria mais perigoso, e subestimou duas forças que são estruturais no país: o bolsonarismo e o antipetismo. Também esqueceu que venceu em 2022 graças a uma frente ampla. Sem disposição para se expor, perdeu justamente o eleitor de centro esquerda, centro e de centro-direita que tinha decidido a eleição anterior.

No primeiro turno, nem Lula nem Flávio participaram de qualquer debate na televisão. A ausência, porém, beneficiou Flávio. Sem debate, ele ficou protegido dentro da bolha bolsonarista e escapou do ataque concentrado que os outros candidatos fariam contra ele, já que Lula era o nome certo no segundo turno e Flávio era a vaga em disputa.

Mesmo à distância, Caiado e Renan usaram os escândalos do Banco Master, de Daniel Vorcaro e do filme Dark Horse para criticar Flávio. Com Flávio no palco, o estrago poderia ter sido muito maior. Lula pagou caro por ter facilitado esse caminho.

Continua após a publicidade

Passando essa primeira análise mais geral do primeiro turno e analisando o segundo turno em si, muito se tem falado sobre como as pesquisas mostram Flávio à frente e sobre como ele vai herdar os votos dos candidatos que ficaram pelo caminho. Falam sobre como é difícil e quase impossível diminuir as abstenções.

Tudo é discutido em percentual. Entretanto, pouco se fala em votos absolutos, e são eles que decidem a eleição. Mais do que isso: quase ninguém se pergunta se quem votou no primeiro turno é a mesma pessoa que vai votar no segundo. Talvez não seja. E foi justamente esse detalhe que pode explicar a eleição de 2022.

Vamos aos números. Em 2022, Lula terminou o primeiro turno com 57,2 milhões de votos e Bolsonaro com 51 milhões. Uma diferença de mais de 6 milhões. A terceira via, com Simone Tebet, Ciro Gomes e outros, somou quase 10 milhões de votos. Era uma terceira via de centro e centro-esquerda. Tebet declarou apoio a Lula, e o PDT de Ciro também. Pela lógica da transferência, que é a mesma que os analistas usam hoje, Lula deveria crescer muito mais que Bolsonaro no segundo turno.

Continua após a publicidade

Aconteceu exatamente o contrário. Lula ganhou pouco mais de 3 milhões de votos e chegou a 60,3 milhões. Bolsonaro ganhou mais de 7 milhões e chegou a 58,2 milhões. Pasmem: o candidato que, em tese, não tinha de onde tirar votos cresceu mais que o dobro do adversário.

E o mais curioso: o total de votos válidos praticamente não se alterou, e a abstenção caiu apenas meio milhão. Então de onde Bolsonaro tirou 7 milhões de votos? Se tivessem vindo só da terceira via, cerca de 70% dos eleitores de Tebet e Ciro teriam votado nele, contrariando os apoios declarados e o perfil desse eleitorado. Não faz sentido.

Não só não faz sentido, como se olharmos uma pouco mais para trás, veremos que Bolsonaro recuperou os votos dele, pois em 2018 ele fez 57,8 milhões de votos. Esses votos perdidos de Bolsonaro entre o segundo turno de 2018 e o primeiro turno de 2022, dificilmente teriam migrado para candidaturas como de Tebet e Ciro na eleição seguinte.

Continua após a publicidade

A explicação mais coerente para 2022 é outra, e é a que proponho. Houve uma troca de eleitores. Boa parte do eleitor de centro-esquerda da terceira via, sem vontade de votar em nenhum dos dois, simplesmente ficou em casa. No lugar dele, apareceu um antipetismo adormecido que não tinha ido às urnas no primeiro turno e acordou para o confronto direto. Os números gerais ficaram quase iguais, mas quem votou foi outra pessoa.

Uma troca de cerca de 7 milhões de eleitores, com 70% dos que voltaram votando em Bolsonaro, responde pela maior parte do salto dele. Foi assim que ele chegou perto da virada. E foi por isso que ninguém a viu chegando.

Agora vamos a 2026. Flávio terminou o primeiro turno com 56,1 milhões de votos, contra 53,9 milhões de Lula. Uma diferença de 2,2 milhões, bem menor do que a de 2022. A terceira via, com Cury, Renan Santos, Caiado e Zema, somou cerca de 9 milhões de votos. A abstenção ficou em 33,4 milhões.

Continua após a publicidade

O cenário é o espelho exato de 2022, só que invertido. Se 7 milhões de eleitores da terceira via ficarem em casa, os cerca de 2 milhões que restam podem votar na proporção 60% em Flávio e 40% em Lula. Se, ao mesmo tempo, 7 milhões de pessoas que não votaram no primeiro turno voltarem às urnas e 70% delas escolherem Lula, o resultado final será de cerca de 59,6 milhões de votos para Lula e 59,4 milhões para Flávio. Uma virada por cerca de 165 mil votos. Apertadíssima, como têm sido todas as eleições desde 2014, mas uma virada.

Lula não precisa fazer nada além do que Bolsonaro fez em 2022. Basta repetir o mesmo movimento: uma troca de 7 milhões de eleitores e 70% dos votos novos. É exigente, mas tem precedente.

E há razões concretas para acreditar que essa troca pode acontecer. A primeira é que o eleitor da terceira via de 2026 tem ainda menos motivos para votar do que o de 2022. Flávio já absorveu o voto útil da direita no primeiro turno. Quem permaneceu com Cury, Caiado e Renan até o fim fez isso justamente para não votar em Flávio.

Continua após a publicidade

Muitos desses eleitores, da direita não bolsonarista, vivem um dilema real: votar em Flávio e consolidar a família Bolsonaro como dona da direita até 2040, ou anular, ficar em casa e manter aberta a chance de outra liderança em 2030. Renan tem indicado indiretamente isso e Cury, apesar de declarar apoio, não se engajou de fato na campanha.

A segunda é a reserva de votos de Lula. Em 2022 ele fez 60 milhões no segundo turno e neste ano fez menos de 54 no primeiro. Esses mais de 6 milhões de eleitores não sumiram. Já votaram nele antes e podem votar de novo, como já falado, em um movimento que também aconteceu com Bolsonaro em 2022.

A terceira é o clima de oba-oba que tomou conta da campanha de Flávio depois da apuração. Enquanto ele já discutia composição de ministério, Lula parecia lamber as feridas, com muitos aliados dando a eleição como perdida, entretanto faltou combinar com a militância. Se Lula ignorou a resiliência do bolsonarismo e do antipetismo no primeiro turno, Flávio ignorou a do eleitor lulista e sua disposição de ir para a rua disputar voto. Em algumas pesquisas, depois das manifestações pró-Lula, já mostram Flávio caindo, enquanto Lula ficou estável ou subiu. Nos votos válidos, a diferença média entre as pesquisas está em 51% a 49%.

Continua após a publicidade

A quarta é que o sucesso da direita nos estados pode se voltar contra ela. O PL resolveu no primeiro turno as disputas mais importantes do Sul e do Sudeste. Sem segundo turno para governador, não há financiamento, equipes pagas nem cabos eleitorais locais levando o eleitor às urnas. Quem mais perdeu estrutura para combater a abstenção foi justamente a direita e em estados chaves.

Por fim, o debate da Band, no domingo dia 18. No placar, deu o empate que Flávio buscava. Mas o eleitor viu um candidato agressivo, interrompendo, ocupando espaço e fugindo das perguntas diante de um adversário de 80 anos. O rótulo de alguém que foge das perguntas é perigoso numa eleição decidida pela rejeição. Para o eleitor de centro-direita que já hesitava, pode ser mais um motivo para ficar em casa no domingo.

A repercussão nas redes reforça esse quadro. Os números de engajamento que circularam nas doze horas seguintes ao debate mostraram a campanha de Lula com muito mais visualizações e interações do que a de Flávio. Engajamento não é voto, mas indica qual lado ganhou a disputa pelo pós-debate.

Continua após a publicidade

Na reta final, a campanha de Flávio se defende mais do que propõe. Ele repete que não vai cortar benefícios sociais, contradizendo o que já disse em outros momentos. Lula, por outro lado, colocou suas entregas na vitrine.

A classe C está frustrada com o governo, e a lembrança da picanha prometida que não veio é real. Mas, na hora de votar, o eleitor pesa expectativa futura mais do que gratidão pelo passado. Nesse ponto, quem pode mostrar o que já entregou tem vantagem sobre quem precisa jurar que não vai tirar nada.

A eleição será decidida entre o voto que desaparece e o voto que volta. Em 2022, Jair Bolsonaro mostrou o caminho: a terceira via ficou em casa, o eleitor adormecido apareceu, e quem estava atrás quase virou.

Continua após a publicidade

Em 2026, o caminho é o mesmo, só que agora, com os erros do desafiante, joga a favor de Lula. Esta eleição não será decidida por quem convence mais, e sim por quem mobiliza melhor. Se o eleitor da terceira via ficar em casa e o lulista ausente voltar às urnas, o filho pode sofrer a virada que o pai quase conseguiu aplicar.

Se a tendência das últimas duas semanas se mantiver até domingo, o Brasil pode assistir a algo inédito: a primeira virada de um segundo turno presidencial. Seria uma ironia histórica se ela acontecesse com o filho do primeiro presidente que não conseguiu se reeleger

O mundo gira, alguns diriam. E, às vezes, gira duas rápido demais.