Por: Andre Gildin, RKKG Consulting & Palestras Transformadoras
A inteligência artificial já entrou na rotina de muita gente. Está no celular, no trabalho, nos estudos, no atendimento das empresas, nas ferramentas de produtividade e, cada vez mais, nas conversas do dia a dia. Mesmo assim, muita gente ainda usa o ChatGPT, o Gemini, o Copilot, o Claude e outras plataformas de IA generativa como se fossem apenas uma versão mais sofisticada do Google.
É compreensível. Durante muitos anos, fomos treinados a digitar poucas palavras em um buscador, escolher um link e garimpar a resposta. A lógica era: procurar, clicar, comparar e decidir.
Com a IA generativa, a lógica muda. Ela não apenas encontra informações.
Ela pode organizar ideias, comparar cenários, resumir documentos, analisar planilhas, revisar textos, criar alternativas, simular decisões e atuar como uma espécie de copiloto para pensar melhor.
O tal do prompt
Mas aqui está o ponto central: a qualidade da resposta depende muito da qualidade da pergunta.
Costumo dizer que, na era da inteligência artificial, perguntar bem virou uma competência essencial. A frase atribuída aos antigos sábios continua atual: compreender a pergunta já é metade da resposta. No caso da IA, a pergunta é a chave que abre o caminho para uma resposta mais útil, mais contextualizada e mais aplicável.
É aí que entra o famoso “prompt”. Apesar do nome técnico, prompt nada mais é do que a forma como você conversa com a IA. É o comando, a pergunta, o pedido ou a instrução que você escreve para orientar a resposta. Quanto mais claro for o pedido, melhor tende a ser o resultado.
A IA generativa não deve ser tratada como uma caixa mágica. Ela também não deve ser tratada como um oráculo.
O melhor jeito de usá-la é como um interlocutor inteligente, rápido e versátil, mas que precisa de contexto. Imagine alguém muito competente entrando em uma reunião sem saber quem é você, qual é o problema, qual é o objetivo, quem é o público e qual decisão precisa ser tomada.
Essa pessoa até pode ajudar, mas ajudará muito mais se receber boas informações.
Com a IA é parecido.
Em vez de escrever apenas “faça um texto sobre vendas”, experimente dizer: “Atue como um especialista em vendas B2B. Preciso de um texto curto para apresentar uma nova solução de tecnologia a diretores financeiros. O tom deve ser profissional, objetivo e persuasivo. Destaque ganhos de eficiência, redução de custos e segurança. Entregue em até cinco parágrafos”.
A diferença é enorme. No primeiro caso, a IA precisa adivinhar quase tudo. No segundo, ela recebe papel, contexto, público, objetivo, tom e formato.
Como escrever bons prompts e extrair o máximo da IA.
Um bom prompt costuma ter cinco elementos principais:
O primeiro é o papel. Diga à IA como ela deve atuar: especialista, professor, consultor, advogado, analista financeiro, editor, recrutador, vendedor ou planejador.
O segundo é o contexto. Explique a situação. Para quem é? Qual é o problema? Qual é o objetivo? Quais dados precisam ser considerados?
O terceiro é o tom de voz. A resposta deve ser formal, didática, técnica, leve, jornalística, executiva, inspiradora ou direta?
O quarto é a ação. Diga exatamente o que você quer que a IA faça: resumir, comparar, revisar, criar, analisar, transformar, sugerir, criticar ou estruturar.
O quinto é o formato. Peça a entrega em tópicos, tabela, roteiro, e-mail, texto corrido, apresentação, checklist ou plano de ação.
Veja um exemplo simples.
Pedido fraco: “Crie tópicos para uma apresentação de vendas”.
Pedido melhor: “Atue como líder de vendas de uma empresa de tecnologia. Preciso de ideias para uma apresentação a potenciais investidores. Quero mostrar nosso crescimento nos últimos três anos, as inovações recentes e as projeções de vendas. O objetivo é destacar nossos diferenciais e gerar confiança. Organize a resposta em uma lista de slides, com título e breve descrição de cada um”.
A IA não ficou mais inteligente de uma frase para outra. Você é que deu a ela melhores condições para trabalhar.
Dialogar é melhor do que dar ordens!
Outro ponto importante: conversar com a IA é melhor do que apenas dar ordens. Muita gente espera a primeira resposta e para por aí. O ideal é dialogar. Peça uma segunda versão, solicite exemplos e premissas.
Peça que a IA explique o raciocínio, por exemplo, ou diga o que gostou e o que não gostou. Quanto mais você refina a conversa, melhor fica o resultado. Também vale pedir múltiplas opções. Em vez de solicitar “me dê uma ideia”, peça “me dê cinco alternativas, com prós e contras”. Em vez de pedir “escreva um e-mail”, peça “faça três versões: uma mais formal, uma mais objetiva e uma mais persuasiva”. A IA é muito útil para ampliar repertório antes de tomar uma decisão.
Se o ser humano tem vieses, a IA poderá ter.
Mas existe um cuidado indispensável. A IA pode errar, inventar informações ou apresentar respostas com segurança excessiva.
Nunca podemos esquecer que na essência destas plataformas “inteligentes”, pode conter desvio de condutas ou comportamentos, uma vez que foram aprendendo com dados e informações produzidas por nós mesmos, ou em última instância pela própria sociedade.
Por isso, quando o assunto envolver dados recentes, legislação, saúde, finanças, decisões jurídicas ou informações críticas, peça fontes, confira referências e use o bom senso. A inteligência artificial ajuda muito, mas a responsabilidade pela decisão continua sendo humana.
Use a IA com cautela, mas use!
No dia a dia, a IA pode ser usada para muito mais do que buscar respostas rápidas. Ela pode ajudar a revisar um contrato, organizar uma reunião, preparar uma apresentação, criar um roteiro de viagem, estudar para uma prova, analisar uma planilha, melhorar um currículo, escrever uma proposta, estruturar uma ideia de negócio ou simplesmente explicar um assunto difícil em linguagem simples.
A pergunta que fica é: você está usando a IA apenas para encontrar respostas ou para pensar melhor?
Essa talvez seja a grande mudança. A IA generativa não substitui a nossa inteligência. Ela amplia a nossa capacidade de perguntar, organizar, criar e decidir. Quem aprender a conversar melhor com essas ferramentas terá uma vantagem importante, não porque terá todas as respostas, mas porque saberá fazer perguntas melhores.
E, no mundo em que vivemos, isso já faz muita diferença.
Para começar hoje
Experimente estes comandos simples
Para organizar ideias:
“Atue como um consultor estratégico. Me ajude a organizar minhas ideias sobre [tema]. Vou usar estas ideias para [contexto]. Faça perguntas antes de sugerir uma solução. Utilize um tom de voz mais profissional”
Para revisar um texto:
“Atue como um gestor [ou jornalista]. Reescreva o texto abaixo de forma mais clara, objetiva e profissional, mantendo meu estilo de comunicação. Vou usar este novo texto para [contexto].”
Para preparar uma reunião:
“Aja como um líder, gestor de uma equipe da [empresa]. Crie um roteiro de reunião de 30 minutos sobre [tema], com pauta, perguntas-chave e resultados esperados.”
Para aprender algo novo:
“Explique [assunto] como se eu fosse iniciante. Depois, dê um exemplo prático e três perguntas para testar meu entendimento.”
Minibio
Andre Gildin é executivo, consultor, palestrante e professor nas áreas de inteligência artificial, inovação, transformação digital e estratégia de negócios.
Atua como Vice-presidente de Estratégia da Abria, Associação Brasileira de Inteligência Artificial, e é fundador da RKKG Consulting, consultoria dedicada a projetos de inovação e transformação digital para empresas e agronegócio.
Com trajetória executiva em empresas globais de tecnologia, foi diretor da Nokia e da Ericsson na América Latina. Foi fundador de startup de tecnologia de IoT no agronegócio.
Também é coordenador e professor de MBAs do IPOG nas áreas de Inteligência Artificial, Gestão do Agronegócio, Marketing, Estratégia e IA, além de atuar como professor convidado em instituições como FGV, Fritz Müller/FDC, Board Academy e StartSe.
Palestrante em eventos nacionais e internacionais, participou do World Marketing Summit, iniciativa da Kotler Impact e do Front-End Innovation nos Estados Unidos. Mestre em Administração e engenheiro eletrônico, com cursos de extensão no exterior, em instituições dos Estados Unidos, Israel e Portugal.
