Duas cidades erguidas do zero no meio do nada, desenhadas em forma de ave e com lagos artificiais: a história da capital milenar que inspirou o projeto da nossa capital 

Separadas por mais de 3 mil anos, Brasília e Akhetaton dividem traçados geométricos, lagos planejados e marcos cronológicos que cruzam a história e a arquitetura

Com formato de pirâmide de sete faces e referências à mística egípcia, o Templo da Boa Vontade ergue-se na capital como um dos monumentos mais visitados do País / Reprodução/Fecomercio-DF

Erguidas do zero no coração de regiões áridas e desenhadas com a silhueta de uma ave voltada para o leste, a moderna Brasília e a milenar Akhetaton guardam uma rede de semelhanças que atravessa os séculos.

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Separadas por mais de três mil anos, a capital federal e a antiga sede do poder egípcio compartilham soluções de engenharia, formas visuais e até marcos cronológicos idênticos. Ambas foram construídas em quatro anos, e seus idealizadores morreram 16 anos após a fundação.

A geometria das capitais e a presença das águas

A orientação espacial do Plano Piloto aponta para o leste em uma linha curva que remete à planta de Akhetaton, projetada originalmente no formato do Íbis, ave sagrada da mitologia egípcia.

No Brasil, o desenho de Lúcio Costa é associado a um pássaro em voo, estabelecendo a base da estrutura urbana em que hoje se localiza o Distrito Federal.

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Para garantir o abastecimento e regular a umidade nas estações de seca, os dois projetos dependeram da engenharia hídrica. No Egito antigo, a obra foi viabilizada pelo Lago Moeris, alimentado pelas cheias do Nilo.

Já no Planalto Central, o barramento de rios formou o Lago Paranoá, processo comum em grandes intervenções pelo país, onde obras desse tipo chegam a deixar estruturas escondidas sob as águas.

Elementos egípcios na arquitetura do Eixo Monumental

Pesquisadores e egiptólogos identificam traços da volumetria egípcia nos principais monumentos do centro político brasileiro:

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  • Memorial JK: Erguido no ponto mais alto da avenida para abrigar a cripta do ex-presidente, o edifício segue o formato das mastabas, túmulos do Egito Antigo com bases largas e topos planos.
  • Catedral Metropolitana: O trajeto começa em uma galeria escura e termina em uma nave banhada por luz natural, conceito similar ao dos templos solares de Akhenaton, com evangelistas que lembram sentinelas dos portais egípcios.
  • Teatro Nacional e Templo da Boa Vontade: O teatro adota a volumetria de uma pirâmide sem ápice, enquanto o templo vizinho ergueu uma pirâmide de sete faces com salas decoradas por símbolos da cultura egípcia.

O relato autobiográfico e a visita a Tell el-Amarna

O elo histórico entre os dois lugares consta nos registros deixados por Juscelino Kubitschek. No livro Meu Caminho para Brasília, ele conta que seu interesse por Akhenaton nasceu na juventude, em Diamantina.

Mais tarde, quando estudante de medicina, JK viajou ao Egito e caminhou pelas ruínas de Tell el-Amarna, sítio arqueológico onde ficava a antiga capital do faraó.

Anos mais tarde, já na presidência da República, JK registrou em sua autobiografia o impacto definitivo daquela visita:

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“Levado pela admiração que tinha por esse autocrata visionário, Akhenaton, cuja existência quase lendária eu me surpreendera através das minhas leituras em Diamantina, aproveitei minha estada no Egito para fazer uma excursão até o local, onde existira Tell El-Amarna/Akhetaton… Vi os alicerces da que havia sido a capital do Médio Império do Egito.”

No texto, o ex-presidente documentou que a passagem pelo deserto serviu como uma referência pessoal direta para o plano de transferir a capital federal para o interior do Brasil.

A posição dos órgãos técnicos e da historiografia

Apesar dos relatos autobiográficos e das semelhanças estéticas, as instituições de patrimônio tratam as relações como coincidências formais de projeto.

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A Fundação Oscar Niemeyer ressalta que o arquiteto não esteve no Egito antes de conceber os prédios da cidade e que seus projetos foram fundamentados no modernismo europeu e em Le Corbusier.

Da mesma forma, documentos do Iphan e anotações de Lúcio Costa atestam que o Plano Piloto seguiu os princípios da Carta de Atenas, adaptando o formato de cruz à topografia local.

Para a historiografia oficial, os paralelos permanecem restritos ao campo da memória pessoal do fundador e do imaginário cultural em torno da capital.