Em todo período eleitoral, a saúde reaparece no topo das preocupações dos brasileiros. Também reaparecem as mesmas promessas: construir hospitais, abrir leitos, contratar médicos e realizar mutirões. São compromissos de fácil comunicação e, muitas vezes, necessários. Mas não enfrentam a raiz do problema. O Brasil não carece apenas de mais serviços; carece de uma arquitetura nacional capaz de financiar, organizar, integrar e avaliar o cuidado.
O debate eleitoral de 2026 precisa abandonar a lógica de iniciativas isoladas e assumir seis compromissos de Estado: financiamento previsível do SUS; segurança jurídica baseada em evidências; linhas nacionais de cuidado para doenças crônicas; detecção precoce organizada do câncer; integração responsável entre os setores público, filantrópico e privado; e interoperabilidade das filas de regulação.
O primeiro compromisso é financeiro. Não existe sistema universal sem financiamento compatível com a universalidade que se exige dele. O problema, porém, não será resolvido apenas com a defesa genérica de “mais recursos”. É preciso definir uma trajetória plurianual de financiamento, com responsabilidades claras para União, estados e municípios, correção periódica dos valores dos procedimentos e incentivos associados a acesso, qualidade e desfecho clínico.
Hoje, hospitais públicos e filantrópicos frequentemente recebem por procedimentos valores inferiores aos custos reais. Municípios assumem despesas crescentes na atenção básica e estados convivem com redes regionais desiguais. Emendas parlamentares podem aliviar necessidades locais, mas não devem substituir planejamento sanitário. O orçamento precisa seguir critérios epidemiológicos, populacionais e de vulnerabilidade, com transparência sobre quanto se investe, o que se entrega e quais resultados são alcançados.
O segundo compromisso é dar maior segurança jurídica às decisões técnicas. A Conitec foi criada para avaliar tecnologias segundo evidências de eficácia, segurança, efetividade e custo-efetividade e para apoiar a elaboração de protocolos clínicos. Suas decisões devem ter mais força institucional, prazos respeitados e revisão periódica. Quando a tecnologia foi avaliada, o protocolo está atualizado e o acesso é garantido administrativamente, reduz-se o espaço para decisões fragmentadas que beneficiam poucos pacientes, desorganizam políticas públicas e comprometem recursos destinados à coletividade.
Isso não significa impedir o acesso à Justiça nem transformar a Conitec em instância infalível. Significa aperfeiçoar seus processos, ampliar transparência e participação social, incorporar evidências do mundo real e criar uma via administrativa rápida para situações excepcionais. Segurança jurídica não pode ser sinônimo de negar cuidado; deve significar previsibilidade, equidade e decisão técnica qualificada.
O terceiro compromisso é transformar a atenção primária em coordenadora efetiva do cuidado. Hipertensão arterial, diabetes, doença pulmonar obstrutiva crônica, insuficiência cardíaca, obesidade e depressão concentram sofrimento, incapacidade, internações e custos evitáveis. Apesar disso, o acompanhamento ainda varia excessivamente conforme o município, a equipe ou a disponibilidade local.
O país precisa de linhas nacionais de cuidado, rigorosas e gerenciáveis, adaptáveis às realidades regionais, mas não opcionais em seus elementos essenciais. Para cada condição, a unidade básica de saúde deve saber quem cadastrar, quando rastrear, quais exames solicitar, quais metas clínicas perseguir, quando intensificar o tratamento e em que momento encaminhar ao especialista. Também deve existir busca ativa de pacientes que abandonaram o acompanhamento e estratificação de risco para concentrar recursos em quem mais precisa.
Protocolos sem gestão, entretanto, são apenas documentos. Cada linha de cuidado precisa de indicadores simples e auditáveis: percentual de hipertensos com pressão controlada; diabéticos com avaliação renal e oftalmológica em dia; pessoas com DPOC corretamente diagnosticadas e com plano de cessação do tabagismo; pacientes com insuficiência cardíaca em tratamento baseado em evidências; pessoas com obesidade acompanhadas de forma longitudinal; e pacientes com depressão avaliados quanto à resposta terapêutica e ao risco de suicídio. A União deve oferecer padrões, sistemas digitais e financiamento; os municípios, executar; os estados, organizar as referências regionais; e todos, prestar contas dos resultados.
É justamente nesse ponto que a telemedicina deve deixar de ser tratada como experiência periférica e passar a integrar a arquitetura permanente do sistema. Ela não substitui a unidade básica nem o atendimento presencial, mas amplia a capacidade resolutiva das equipes locais. Por meio de teleconsultas, teleinterconsultas, telediagnóstico e telemonitoramento, profissionais da atenção primária podem discutir casos com especialistas, ajustar condutas e acompanhar pacientes sem submetê-los a deslocamentos longos ou a meses de espera por uma avaliação que poderia ser realizada à distância.
Nas linhas de cuidado de maior impacto sobre mortalidade e morbidade, como hipertensão, diabetes, DPOC, insuficiência cardíaca, obesidade, depressão e câncer, a telemedicina pode aproximar o especialista do território. Cardiologistas, endocrinologistas, pneumologistas, psiquiatras e oncologistas podem apoiar as equipes das UBS, definir prioridades, acompanhar pacientes de maior risco e indicar quais casos realmente necessitam de atendimento presencial. Na oncologia, essa integração pode acelerar a avaliação de exames suspeitos, a definição da investigação complementar, o encaminhamento aos serviços de referência e o seguimento após o tratamento.
Mesmo nas regiões em que a ausência de conectividade ainda limita o acesso, já existem alternativas tecnológicas capazes de reduzir esse isolamento. Soluções de internet por satélites de baixa órbita, como a Starlink, permitem levar conexão a unidades rurais, comunidades remotas e áreas sem cobertura terrestre, desde que existam energia, equipamento, instalação adequada e custeio permanente. Garantir conectividade às UBS deve ser tratado como infraestrutura sanitária, assim como energia, água e transporte. Sem conexão, não há telemedicina, interoperabilidade, regulação integrada nem continuidade digital do cuidado.
O quarto compromisso é construir uma política nacional ativa de detecção precoce do câncer. O Brasil precisa abandonar um modelo que depende excessivamente de o cidadão procurar atendimento, de o médico se lembrar de solicitar o exame ou de cada município estabelecer suas próprias prioridades. Para os cânceres de mama, colo do útero, colorretal, pulmão, próstata e estômago, o acesso ao rastreamento e à investigação precoce deve ser automático, simples e organizado nacionalmente.
A promoção de hábitos saudáveis é indispensável, mas não pode ser apresentada como substituta do rastreamento. Mudar a cultura alimentar, reduzir o tabagismo, combater o sedentarismo e controlar a obesidade são projetos geracionais, cujos resultados aparecem progressivamente. Enquanto essa transformação não ocorre , e mesmo depois dela, milhares de pessoas continuarão desenvolvendo câncer. Prevenção primária e detecção precoce devem avançar paralelamente. O Estado tem a obrigação de promover saúde, mas não pode condicionar o acesso ao diagnóstico ao êxito individual na mudança de comportamento.
A partir da faixa etária definida para cada programa, o cidadão deve ser identificado pelos sistemas de saúde, convocado ativamente e ter o exame disponibilizado sem depender de consulta prévia apenas para obter uma solicitação. A regra deve ser a oferta programada, e não a espera passiva. Para a maior parte da população, idade e sexo podem funcionar como porta de entrada objetiva; fatores adicionais de risco devem servir para antecipar ou intensificar o acompanhamento, jamais para criar barreiras burocráticas ao acesso. A escolha final permanece com o indivíduo; a obrigação de identificar, convocar e oferecer o acesso é do Estado.
Isso não significa realizar indiscriminadamente o mesmo exame em toda a população. Significa retirar do percurso etapas administrativas e decisões clínicas desnecessárias quando já existe indicação consolidada de rastreamento. Nos cânceres em que tabagismo, histórico familiar ou incidência regional modificam substancialmente o benefício, como pulmão e estômago, esses dados devem ser obtidos por cadastro simples e usados para convocação automática dos grupos elegíveis. No caso da próstata, o acesso ao PSA deve ser facilitado na faixa etária definida, acompanhado de informação clara sobre benefícios, falso-positivos e risco de sobrediagnóstico, preservando a decisão do cidadão.
O argumento econômico é igualmente relevante. Diagnosticar uma neoplasia em estágio avançado exige tratamentos mais complexos, prolongados e caros, além de produzir maior incapacidade e mortalidade. Mas o rastreamento somente gera valor quando a jornada é completa. Não basta realizar mamografia, teste, PSA, endoscopia ou tomografia se um resultado alterado não levar rapidamente à confirmação diagnóstica e ao tratamento. Cada programa deve ter cadastro nominal, convocação ativa, acesso direto, controle de qualidade, navegação do paciente e prazos monitorados entre o exame, o diagnóstico e o início da terapêutica. A meta nacional deve ser clara: reduzir de forma mensurável a proporção de cânceres diagnosticados em estágios avançados.
O quinto compromisso é ampliar a integração público-privada com governança. O programa Agora Tem Especialistas abriu uma oportunidade ao mobilizar capacidade pública, filantrópica e privada para reduzir esperas por consultas, exames e cirurgias. O próximo passo é superar a lógica episódica dos mutirões. Capacidade ociosa deve ser contratada com planejamento regional, preços tecnicamente fundamentados, metas de produção e qualidade, transparência contratual e pagamento vinculado à entrega comprovada.
Hospitais filantrópicos, Santas Casas e prestadores privados podem ampliar o acesso do SUS, sobretudo onde a rede própria é insuficiente. Mas parceria não significa terceirizar a responsabilidade do Estado nem socializar custos e privatizar escolhas. O poder público deve definir prioridades, regular o acesso, auditar resultados e garantir que nenhum paciente avance na fila por influência, relacionamento ou capacidade de pagamento.
Por fim, nenhuma dessas propostas funcionará plenamente enquanto o Brasil mantiver filas que não conversam entre si. CROSS, SISREG, SIGA e outros sistemas estaduais e municipais formam um mosaico fragmentado. Um paciente pode constar simultaneamente em mais de uma lista; outro pode desaparecer na transição entre municípios; vagas ficam ociosas por falta de informação; e gestores não conseguem enxergar a demanda real.
Não é necessário impor um único software ao país. É necessário estabelecer padrões nacionais obrigatórios de interoperabilidade, identidade inequívoca do paciente, critérios comuns de prioridade clínica e um conjunto mínimo de dados. As filas podem continuar sob gestão local, mas devem ser capazes de trocar informações com uma camada nacional vinculada à Rede Nacional de Dados em Saúde. O cidadão precisa acompanhar sua posição, atualizar seus dados e receber comunicação sobre o agendamento. O gestor deve visualizar demanda, oferta, tempo de espera, absenteísmo e gargalos por região. E os órgãos de controle precisam ter trilhas de auditoria que dificultem manipulações.
A tecnologia, contudo, não corrige sozinha uma fila mal governada. Antes de integrar sistemas, será preciso higienizar cadastros, eliminar duplicidades, revisar prioridades e pactuar regras regionais. Interoperabilidade sem governança apenas digitaliza a desorganização.
O eleitor deve desconfiar de propostas que prometem apenas prédios, equipamentos ou mutirões. A pergunta relevante não é quantos serviços serão inaugurados, mas quantas pessoas terão sua doença controlada, quanto tempo esperarão por diagnóstico e tratamento, quantas internações serão evitadas e qual será o custo por resultado alcançado.
Saúde pública e saúde suplementar não são mundos isolados. Compartilham profissionais, hospitais, laboratórios, tecnologias e, em última instância, os mesmos cidadãos. Cabe ao Estado estabelecer regras que estimulem cooperação sem confundir responsabilidades, defendam a avaliação científica, protejam o interesse público e façam o dinheiro seguir o paciente e o resultado, não a fragmentação burocrática.
O Brasil já possui conhecimento técnico, instituições e capacidade assistencial para avançar. O que falta é transformar boas iniciativas em política de Estado. A eleição deve ser o momento de exigir dos candidatos não mais uma coleção de promessas, mas um plano verificável: com fonte de financiamento, responsáveis, cronograma, indicadores e transparência. Sem isso, o próximo ciclo eleitoral chegará e estaremos, novamente, discutindo as mesmas filas, as mesmas desigualdades e os mesmos improvisos.
