Existem lugares que a gente conhece numa viagem. E existem pessoas que fazem aquele lugar ficar para sempre dentro da gente.
Foi exatamente isso que aconteceu comigo e com o Ro quando entramos no Museu Rodin, na Filadélfia.
O museu já impressiona antes mesmo de você entrar. Um prédio lindo, cercado por jardins, no Benjamin Franklin Parkway, e com uma das mais importantes coleções de Auguste Rodin fora de Paris. E tem um detalhe que adoro: a entrada funciona no sistema “pague quanto quiser”. Você contribui com o valor que puder.
Mas naquele dia nosso maior presente não estava exposto numa sala.
Logo que entramos, fomos abordados por uma senhora belga, de aproximadamente 70 anos. Ela se ofereceu para nos acompanhar pelo museu e contar um pouco sobre as obras. E que mulher!
Era daquelas pessoas que têm tanto conhecimento, mas falam de um jeito tão apaixonado e simples, que você quer ficar horas ouvindo.
E tem um detalhe que torna essa lembrança ainda mais especial para mim: eu não falo nada de inglês. E aquela senhora se esforçava de todas as maneiras para me fazer entender o que ela queria passar. Falava devagar, fazia gestos, apontava para as obras, olhava para mim para ter certeza de que eu estava acompanhando. Não existia uma língua em comum, mas existia uma vontade enorme de ensinar de um lado e de aprender do outro. E funcionou.
Foi ela, por exemplo, que nos contou algo que eu não sabia sobre O Pensador. Rodin não criou aquela figura inicialmente para ficar sozinha. Ela fazia parte de uma obra gigantesca chamada Os Portões do Inferno, inspirada na Divina Comédia, de Dante. Aquele homem inclinado, com o queixo apoiado sobre a mão, estava ligado à ideia de alguém contemplando todo aquele drama humano diante dele. Só depois O Pensador ganhou vida própria e se transformou numa das esculturas mais reconhecidas do mundo.
Depois da explicação dela, eu nunca mais olhei para aquela obra da mesma maneira.
E a própria história desse museu parece roteiro de cinema. Em 1924, o empresário de cinemas Jules Mastbaum visitou o Musée Rodin, em Paris, e ficou tão fascinado que começou a adquirir obras. Em apenas dois anos reuniu mais de 150 esculturas e decidiu construir um museu para dividi-las com a população da Filadélfia. Mastbaum morreu antes de vê-lo pronto, mas sua esposa Etta e as três filhas realizaram seu desejo. O Museu Rodin abriu em 1929.
No final da nossa visita aconteceu uma cena que nunca esqueci.
Perguntamos àquela senhora quanto deveríamos pagar pelo passeio que ela havia feito conosco.
Ela abriu um sorriso enorme e respondeu mais ou menos assim:
“Não é nada. Vocês terem vindo e me deixado contar tudo o que sei me faz tão feliz que isso já me basta.”
Aquilo me desmontou.
Anos depois voltamos ao museu e perguntamos por ela. Descobrimos que já havia falecido.
E aí eu entendi uma coisa que carrego comigo: algumas pessoas passam poucos minutos pela nossa vida e conseguem permanecer nela para sempre. Não lembro apenas do que aquela senhora sabia sobre Rodin. Lembro de como ela nos fez sentir.
Naquele dia também trouxemos para casa uma reprodução de O Pensador. Existem reproduções autorizadas em resina, feitas a partir de moldes oficiais e trabalhadas para reproduzir o acabamento da obra. Até hoje, quando olho para o nosso Pensador, não vejo somente Rodin.
Vejo aquela senhora.
E penso que talvez uma das maiores obras que alguém possa deixar neste mundo seja justamente essa: ser inesquecível na vida de quem cruzou o seu caminho.
