Dias desses, conversando com uma amiga, ela me contou que o filho de 6 anos queria ser piloto de avião. Aquela fala simples me fez voltar no tempo. Quando eu era criança, sonhava em ser médico. Não havia ninguém na minha família nessa profissão, mas aquela era a minha inspiração. Fui desacreditado, não recebi estímulo e, embora eu não acredite que isso, sozinho, tenha sido o motivo de eu não ter seguido esse caminho, tenho convicção de que toda criança tem um sonho, e esse sonho precisa ser incentivado.
Quando os filhos não se inspiram nas profissões dos pais, a referência ainda assim existe. Dudu, meu filho caçula, aos 6 anos de idade, dizia que queria trabalhar comigo. Ele certamente não sabia exatamente o que eu fazia, mas tinha no pai uma referência, um espelho possível. Isso mostra o quanto o ambiente e as experiências influenciam as escolhas desde cedo.
Toda essa conversa me levou a uma reflexão inevitável: que país estamos construindo para as nossas crianças e adolescentes? E, mais do que isso, que ferramentas estamos oferecendo para que eles possam sonhar, escolher e construir seus próprios caminhos?
Se você cresceu em uma família minimamente preocupada com o futuro, provavelmente já ouviu a pergunta clássica: “O que você vai ser quando crescer?” Desde cedo, toda criança sonha em ser alguma coisa. Médico – esse era o meu sonho – professora, engenheiro, artista, jornalista, jogador de futebol, cantora.
O problema é que, com o passar do tempo, esses sonhos vão sendo limitados. Limitados pelo território, pela falta de acesso, pela ausência de referências, pelas condições sociais e econômicas. Em muitos casos, o sonho não acaba porque a criança desistiu, mas porque o ambiente ensinou, direta ou indiretamente, que “isso não é para você”.
Hoje, a sociedade fala muito sobre proteger a infância, e isso é fundamental. Mas, em algum momento, confundimos proteção com afastamento da realidade. Superprotegemos as crianças de experiências que poderiam, na verdade, contribuir profundamente para sua formação humana, social e profissional.
Uma dessas experiências é o contato com o mundo do trabalho, não no sentido da exploração, mas da vivência, do aprendizado, da descoberta. De conhecer profissionais da área com a qual a criança sonha, de observar, experimentar e ampliar possibilidades.
Organizações como o UNICEF apontam que uma grande parte dos jovens ainda não desenvolveu as habilidades necessárias para entrar no mercado de trabalho atual, e que um dos principais desafios está justamente na falta de experiências concretas que conectem educação e oportunidades reais de desenvolvimento de competências.
Segundo relatórios internacionais, cerca de três em cada quatro jovens entre 15 e 24 anos não estão preparados com as habilidades necessárias para o mercado de trabalho – um alerta claro de que precisamos repensar os ciclos de aprendizagem e de desenvolvimento de capacidades desde a infância.
Além disso, o UNICEF destaca a urgência de políticas integradas que promovam não apenas acesso à educação formal, mas também a transição dos jovens ao mundo do trabalho com apoio, orientação e experiências formativas que dialoguem com suas realidades e aspirações, especialmente em contextos de vulnerabilidade social.
O modelo do jovem aprendiz é um avanço importante, mas ele chega tarde para muitos.
Quando falamos da adolescência, falamos de uma fase em que boa parte dos sonhos já foi reduzida e as escolhas começam a ser feitas sem repertório suficiente. Por que não pensar em experiências formativas ainda mais cedo? Por que não permitir que crianças e pré-adolescentes, a partir dos 12 anos, por exemplo, possam experimentar profissões, aprender ofícios e conhecer possibilidades, mesmo que de forma lúdica, educativa, acompanhada e protegida?
A UNESCO, por sua vez, reforça em suas iniciativas e relatórios que a aprendizagem ao longo da vida, incluindo a educação infantil, é fundamental para promover não apenas o desempenho escolar, mas também competências essenciais para a vida, para a integração social e para o desenvolvimento profissional futuro.
Programas de educação infantil de qualidade contribuem para reduzir desigualdades e preparar as crianças para caminhos diversos de aprendizagem e atuação profissional ao longo da vida.
Organismos internacionais também têm chamado atenção para a importância de sistemas educacionais flexíveis que facilitam a transição entre a escola, a formação técnica e a integração produtiva dos jovens. O fortalecimento dessas conexões aumenta as oportunidades de emprego digno e de participação ativa na sociedade, especialmente em contextos de vulnerabilidade socioeconômica.
O resultado da desarticulação entre educação e prática profissional é uma geração que cresce sem perspectiva. Sem acesso a uma educação que dialogue com a realidade. Sem oportunidades concretas de experimentar caminhos possíveis.
Não é por acaso que muitos jovens passam a acreditar que o único futuro viável é “ficar famoso” ou “virar jogador de futebol”. Não porque esses sonhos sejam errados, mas porque, muitas vezes, foram os únicos que lhes foram apresentados.
Defender que crianças e adolescentes possam aprender uma profissão desde cedo é defender dignidade, autonomia e futuro. É defender políticas públicas, programas e projetos de lei que criem oportunidades de formação prática, vivências profissionais e experiências orientadas para o mundo do trabalho, tudo isso com regras claras, acompanhamento responsável, proteção e foco no desenvolvimento integral.
Aprender uma profissão não significa perder a infância. Significa ampliar horizontes. Significa brincar de ser arquiteto, cozinheiro, programador, comunicador, mecânico, agricultor ou artista – e, nesse brincar, descobrir talentos, paixões e caminhos possíveis.
Se queremos um país mais justo, precisamos começar cedo. Cedo no acesso, cedo nas oportunidades, cedo na valorização do potencial das nossas crianças e adolescentes.
Já não é hora de nós, enquanto sociedade, fazermos esta reflexão?
