Noel sempre foi um menino inteligente e estudioso. Na adolescência contudo, ao se envolver com amigos sem rumo acabou sendo preso, mas mesmo durante a detenção fez cursos de barbearia, corte de cabelo e computação.
Ao sair da prisão foi tentar a vida em outro Estado, mas não se deu bem e retornou à cidade, e nesse meio de tempo ainda acabou fazendo uns 3 meninos, com diferentes namoradas.
Como era muito inteligente, fez a prova do Enem, e estava pronto, mais uma vez para dar rumo à sua vida em outra localidade. Ao desistir e retornar para casa foi morto, mas até hoje a sua família tenta encontrar seu corpo para lhe dar um descanso digno e ter onde prantear a dor de sua partida.
Sua avó é que se mantém incansável na busca pelo neto, mas onde mora os bairros são dominados por facções criminosas, e até sair de um para entrar em outro é preciso permissão, e não pode dizer que está indo atrás de pistas sobre o neto.
Esta não é uma história de ficção. É real, e justamente pelo risco aos envolvidos os nomes foram alterados, e os locais não foram mencionados. Infelizmente, esse relato talvez não leve a nenhuma informação concreta sobre o paradeiro do neto querido por quem a avó busca de forma insistente, ainda que sob perigo à própria segurança.
O desaparecimento possui muitas nuances. O medo é uma delas. O risco à vida de quem busca também. Os familiares de desaparecidos políticos conhecem bem esse contexto, pois viveram de forma intensa e por décadas.
No entanto, ainda hoje inúmeras famílias passam pelo mesmo sofrimento: de desconhecer o paradeiro de seu ente desaparecido e de correrem risco ao tentar saber o que aconteceu.
Situações como essas não se restringem a pessoas pobres, desconhecidas e sem acesso aos meios de divulgação, ninguém está isento de passar por essa dor.
Casos como o de Priscila Belfort, que já supera duas décadas, é um exemplo claro de que o desaparecimento muitas vezes serve de ferramenta para o acobertamento de possíveis crimes, não raro, perpetrados por agentes do Estado que deveriam proteger o cidadão.
Assim como a avó mencionada, a mãe de Priscila, Jovita Belfort, teve a saúde comprometida e sentiu o medo de pisar em terreno hostil, mas nenhuma delas desiste de encontrar seus neto e filha.
Ao final, a responsabilidade primária é do Estado, que tem a obrigação constitucional de garantir a segurança e a integridade de seus cidadãos, sob quaisquer circunstâncias, em todo o território nacional; e ainda prover os meios e ferramentas necessárias para obter as respostas e por fim a histórias como essas.
O desaparecimento é uma ferida aberta, profunda e duradoura que somente uma coisa é capaz de curar: o (re)encontro da pessoa que se busca.
