Quando o vento passa, o que fica?

A tempestade em Guariba mostra a força da solidariedade e a urgência de investir em cidades resilientes frente aos eventos climáticos extremos

Eventos climáticos extremos estão impondo uma nova realidade às cidades/Yuri Villaça/Gazeta de S. Paulo

Guariba não é apenas uma cidade do interior de São Paulo para mim. É a cidade onde nasci. Onde estão algumas das minhas primeiras memórias, minhas raízes e uma parte importante de quem sou.

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Por isso, foi especialmente doloroso ver as imagens da minha cidade depois da forte tempestade que a atingiu no final de julho.

Em poucas horas, ventos de enorme intensidade derrubaram árvores, destelharam imóveis, interromperam serviços e provocaram danos por toda parte. Segundo informações divulgadas após o evento, mais de 70% da cidade foi atingida. Guariba decretou situação de emergência e iniciou uma corrida para limpar, reparar e reconstruir.

Mas, em meio às imagens de destruição, outras imagens me chamaram ainda mais a atenção. As de pessoas ajudando pessoas.

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Moradores se unindo, voluntários trabalhando, doações chegando, equipes da Defesa Civil de outros municípios se deslocando para Guariba, amigos de São Paulo se preocupando e prestando apoio. Vieram alimentos, agasalhos, telhas, máquinas, braços e, sobretudo, solidariedade. Cidades vizinhas também se mobilizaram para ajudar na limpeza e na desobstrução das vias.

Talvez seja justamente nos momentos em que uma cidade parece mais vulnerável que percebemos a força de uma comunidade. Guariba mostrou isso.

Quem nasce no interior conhece bem esse sentimento. A cidade pode crescer, as pessoas podem seguir caminhos diferentes, mudar de endereço ou construir a vida longe dali, mas existe um vínculo que permanece. E foi emocionante ver a minha cidade sendo reconstruída não apenas pelo poder público, mas pelas mãos de tanta gente disposta a ajudar.

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Só que, depois da emergência, precisamos também olhar para o futuro.

Eventos climáticos extremos estão impondo uma nova realidade às cidades. Chuvas concentradas, enchentes, ondas de calor, secas e ventos de grande intensidade desafiam estruturas que, muitas vezes, foram projetadas para um cenário climático diferente daquele que começamos a enfrentar.

E isso muda a maneira como precisamos pensar infraestrutura.

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Durante muito tempo, falamos em infraestrutura principalmente como instrumento de desenvolvimento: estradas, saneamento, energia, mobilidade, habitação. Tudo isso continua essencial. Mas precisamos acrescentar definitivamente uma nova palavra a essa equação: resiliência.

Uma cidade preparada para o futuro não é aquela capaz de impedir que um evento extremo aconteça — porque isso evidentemente não está sob nosso controle. É aquela capaz de reduzir seus impactos, proteger vidas, manter serviços essenciais funcionando e recuperar-se mais rapidamente quando ele acontecer.

Isso significa pensar em redes elétricas mais resilientes, drenagem urbana, arborização planejada, estruturas públicas preparadas, sistemas eficientes de alerta, comunicação de emergência, planos de contingência, equipes de Defesa Civil capacitadas e protocolos de resposta integrados entre municípios e diferentes esferas de governo.

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Significa também incorporar o risco climático ao planejamento dos investimentos públicos e privados.

Talvez a grande mudança seja entender que infraestrutura resiliente não é gasto para um desastre que talvez aconteça. É investimento para uma realidade que já começou.

Guariba vai se reconstruir. Na verdade, já está se reconstruindo. E tenho muito orgulho da força com que minha cidade reagiu e da enorme corrente de solidariedade que se formou ao seu redor.

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Mas gostaria que o que aconteceu ali também servisse como reflexão para tantas outras cidades brasileiras. Depois que o vento passa, reconstruímos telhados, retiramos árvores e recuperamos ruas.

O verdadeiro desafio é reconstruir também a nossa maneira de pensar o futuro. Porque talvez não possamos prever a próxima tempestade. Mas podemos decidir o quanto estaremos preparados para quando ela chegar.