Imagine morar em uma das maiores cidades do país e não ter acesso à coleta ou ao tratamento de esgoto. Parece um cenário medieval, mas essa ainda é a realidade de milhões de brasileiros — e um dos grandes paradoxos da nossa história recente.
De um lado, o Brasil avançou no papel. O Novo Marco Legal do Saneamento (Lei nº 14.026/2020) estabeleceu um compromisso ambicioso: a universalização dos serviços até 2033. Na prática, a lei fixa a meta de garantir 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de resíduos.
Do outro lado, a realidade das ruas caminha a passos lentos. Mesmo entre os 100 maiores municípios do país, o abismo é profundo: apenas oito tratavam a totalidade de seu esgoto em 2025.
O cenário mais crítico se concentra justamente em capitais importantes da Região Norte, como Manaus, Belém, Rio Branco, Macapá e Porto Velho. Isso prova que o déficit não é uma exclusividade de vilarejos isolados; ele também pulsa dentro dos nossos grandes centros urbanos.
E por que isso importa? Porque saneamento básico nunca foi uma mera questão de engenharia. A ausência dele sobrecarrega hospitais, contamina mananciais e sufoca o desenvolvimento. É, antes de tudo, uma crise humanitária e de saúde pública.
O País já entendeu a urgência da mudança. O Marco Legal trouxe segurança jurídica e abriu as portas para o capital privado. Bilhões de reais começam a ser direcionados ao setor em leilões históricos. Contudo, o tamanho do desafio é monumental. Segundo dados do Instituto Trata Brasil, o país ainda precisa garantir água potável para 30 milhões de pessoas e coleta de esgoto para mais de 90 milhões. Para fechar essa conta, faltam cerca de R$ 431 bilhões em investimentos.
O grande paradoxo atual é que já temos o diagnóstico, a tecnologia, as empresas qualificadas e o capital interessado. O que nos falta é velocidade. Precisamos acelerar o passo para transformar contratos em canteiros de obras. Obras em tubulações. Redes em tratamento efetivo. E tratamento em dignidade.
No fim das contas, saneamento não se mede em quilômetros de canos, mas em vidas salvas. É sobre garantir que uma criança cresça sem adoecer por causas evitáveis e que os rios voltem a respirar.
O Marco Legal nos deu a direção. Agora, precisamos correr, porque 2033 já bate à nossa porta.
