A beleza tem arestas aguçadas

Descubra a poesia de Val Mello em "À sombra dos carcarás". Uma obra que une infância, memória, força e delicadeza entre a ferida e o repouso

À sombra dos carcarás de Val Mello /Divulgação

Há uma rede de buriti na poesia de Val Mello que “corta a pele, acalma a alma”. A mesma rede, o mesmo corpo. É nessa convivência entre ferida e repouso que encontro uma entrada para “À sombra dos carcarás”; a beleza tem arestas, e quem se deita nela leva consigo o que viveu.

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Piauiense radicada no Rio de Janeiro, Val escreve, desenha e leva a palavra à performance. A capa e as ilustrações deste livro são suas. Antes dele, publicou com Jorge Ventura “A Violeta 19”, Uma transmutação pandêmica, projeto que também ganhou expressão audiovisual. Há, nesse trânsito entre linguagens, uma procura de formas para aquilo que a voz sozinha talvez não consiga dizer.

Vejo nela o peso e a leveza de uma infância áspera e doce. Gerações que se atravessam, fugas, desconhecimentos, parentescos breves e intensos. Memórias difusas que, apesar disso, permanecem muito presentes. Não pretendo converter os poemas numa certidão da vida. Interessa-me reconhecer como essa matéria, ao entrar na linguagem, ganha outra existência.

Em “Gema de rudezas”, a poeta oferece uma imagem precisa desse trabalho: “joia gema das rudezas / miolo a ser lapidado”. O poema começa por se declarar agreste, passa pela fome e pela força e termina numa promessa de flor. Entre uma ponta e outra há trabalho: lapidar, plantar, compor. A delicadeza exige esforço; não chega pronta.

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Penso na generosidade de Val para com os amigos e na sua maneira de construir uma carreira dentro do possível. Vejo uma mulher dividida entre a procura da beleza e as exigências da sua fabricação quotidiana. Essa tensão interessa-me mais do que qualquer retrato luminoso sem sombra. Há grandeza e desamparo, escuridão e esplendor. A poesia permite que caibam juntos.

“Toca das lendas” alarga essa possibilidade. “Crio oceanos em riachos”, escreve. A imaginação muda a escala do que parecia pequeno: o lugar de origem deixa de ser uma fronteira. Já em “O corte”, a palavra “Machado!” interrompe qualquer sossego. Os versos encurtam, o som golpeia, e o silêncio acaba atravessado por um grito.

É entre a flor prometida e esse grito que leio estes poemas. Val Mello não precisa de perder a aspereza para alcançar a beleza. A rede continua a cortar a pele. Talvez seja por isso que o repouso oferecido por ela tenha tanto valor.

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À sombra dos carcarás — Val Mello · Ventura Editora · 104 páginas.