O sertão que leio em Lisboa

Cancioneiro sertanês, de José Manoel Ribeiro, percorre os muitos sertões entre poesia, memória, fé, violência e histórias do povo

Cancioneiro sertanês — José Manoel Ribeiro. Ilustrações de Alan Ribeiro Caldas. Edições Eita Gota!, 2026.

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Recebi em Cabo Verde o Cancioneiro sertanês, do meu homónimo brasileiro José Manoel Ribeiro, por intermédio do poeta e curador José Inácio Vieira de Melo. Leio-o agora em Lisboa. Este percurso parece-me adequado a um livro onde o sertão se abre em muitos sertões, cada um com a sua dor e a sua maneira de procurar o mundo.

Encontro nestes versos ecos do meu próprio entendimento desse lugar. O sertão é também um estado de espírito. Cabem nele os arranhões da caatinga, o medo, a violência, mas cabem igualmente as extraordinárias rimas com que José Manoel procura dar forma a tudo isso. Há uma experiência humana que reconhecemos mesmo quando desconhecemos a paisagem.

Nos «Pré-cantos», uma anciã recebe «Um sertão real e outro imaginário». A sua casa cheira a hortelã-brava, canela e bagaço de cana. Vive numa choupana, mas possui um castelo em segredo: a memória ancestral. Gosto de ver «choupana» rimar com «soberana». A proximidade sonora dá àquela mulher uma autoridade que a pobreza da casa poderia esconder.

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José Manoel escolheu o Canto Real para esta narrativa em versos. Sente-se o trabalho na construção das estrofes e no regresso dos refrões. A forma exige disciplina, enquanto as personagens e as suas histórias parecem querer escapar-lhe. O poeta chega a dizê-lo: «Os decassílabos são como as grades / Que guardam meu louvor das potestades.»

Dentro dessa medida, há espaço para Caronte, para um «vaqueiro-quixote», para o narrador que lê Castro Alves enquanto pai-preto lhe acena do quintal. Em «As metades», aparece um barco a vapor a fazer «Salvador-Luanda-Luanda-Salvador». Lido em Lisboa, depois de recebido em Cabo Verde, esse verso aproxima a viagem do livro da viagem que ele próprio imagina.

Em «O sertão dos beatos», a fé acompanha quem procura amparo numa vida de maus-tratos. Canudos traz a violência para o centro do poema. E o refrão volta: «Meu Deus, por que tamanha judiação?» A pergunta vai acumulando as dores de quem a pronuncia. A rima deixa-nos ouvi-la outra vez.

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É esse sertão que reconheço no livro do meu homónimo: um lugar que cada pessoa leva consigo e onde continuam a viver os seus mortos, os seus desejos e as histórias que ouviu. Estou em Lisboa. Por momentos, leio como quem escuta alguém contar a vida à porta de casa.

Cancioneiro sertanês — José Manoel Ribeiro. Ilustrações de Alan Ribeiro Caldas. Edições Eita Gota!, 2026.