Uma pergunta simples, mas que mulheres respondem com justificativa. Entenda o que isso custa e como começar a responder sem bula.
A moderadora fez a pergunta sem rodeio: vocês querem poder? Silêncio de dois segundos. E em painel, dois segundos duram uma semana. Vieram as respostas. Poder para decidir. Poder para transformar. Poder para empoderar quem merece. Todas respostas lindas. Todas respostas verdadeiras. Todas com justificativa. Sentada na plateia, respondi mentalmente: “claro que quero poder. Poder até para poder.”
Na minha cabeça, a resposta saiu limpa, sem nota de rodapé. Mas logo em seguida veio outro pensamento: “eu deveria querer poder?” Porque é assim na vida real: a resposta nasce limpa e sai com bula.
Os números ajudam a enxergar a hesitação. No Brasil, segundo o relatório 2026 State of Women in Leadership, do LinkedIn, as mulheres são 47,8% dos cargos de entrada. Caem para 37% entre profissionais experientes, 37,1% na gerência inicial, 22,3% nas vice-presidências e 29,1% no C-suite.
Na liderança como um todo, são 32,2%, praticamente o mesmo número desde 2022. Cada degrau dessa escada guarda uma pergunta escondida: você realmente quer subir? A gente sabe como é difícil enxergar, no degrau de cima, um espaço para nós. A cada nível, menos mulheres para abrir caminho, menos exemplos de que é possível.
Mas, quando o caminho se abre, o querer precisa chegar inteiro. Sem ressalva e sem bula.
De onde vem a bula
Uma das painelistas contou que cresceu ouvindo que mulher poderosa é perigosa, enquanto no homem poderoso a palavra soa como elogio. E concluiu, com humor, que talvez a gente precise ser um pouco perigosa para fazer o que acredita.
A gente se acostumou a querer agradar e manter o ambiente agradável. Quando pedimos, do outro ou de nós mesmas, uma resposta curta, uma decisão rápida, vem o olhar torto.
E imediatamente emendamos uma justificativa. Só que quem gasta tempo demais explicando para que quer poder corre o risco de perder o momento de pedir.
Poder para quê
A bula também mora na imagem que fazemos de quem pode. Em testes com ferramentas de IA, a imagem de um CEO volta quase sempre como um homem de terno e gravata. Numa análise de 2023, pesquisadores da Hugging Face e da Universidade de Leipzig pediram ao DALL-E 2 imagens de dezenas de profissões.
Para cargos de autoridade, como “CEO” e “diretor”, mais de 97% das imagens geradas caíram no grupo majoritariamente associado a homens brancos. A imagem do poder é limitada. Mesmo dentro das nossas cabeças.
E ela cobra. Em experimentos publicados em 2007 por Bowles, Babcock e Lai, avaliadores leram relatos e assistiram a vídeos de candidatos num processo seletivo. As mulheres que pediam para negociar o salário sofreram uma penalização social maior do que os homens que faziam o mesmo pedido.
O efeito variava conforme quem avaliava o pedido. Pedir, para as mulheres, pode ter um custo social real. E muitas aprenderam a calcular esse preço muito antes de entrar na sala. Por isso a gente se justifica. Quer mudar a imagem do poder, mas quase pede desculpas por ousar mexer nela.
Só que é o próprio poder que precisa ser redefinido. E, se pedir custa mais para as mulheres, vale aproveitar este fim de ano: é quando normalmente se decidem promoções e orçamentos, e pode ser que alguém te olhe e pergunte o que você quer para a sua carreira. A tarefa da liderança é diminuir o custo de quem responde.
A tarefa de quem responde é, mesmo sabendo o preço, responder: eu quero. Quero ser promovida. Quero essa vaga. Quero mais escopo. Ponto final. Sem “se fizer sentido”, sem “só se a equipe topar”.
Vai soar estranho nas primeiras vezes. Soa estranho porque a gente treinou a vida inteira o contrário.
Qual foi a última bula que você anexou ao seu querer?
