Escolha
Não veio do sangue.
Veio do cuidado.
Amor.
Quando eu era criança, em Itaquaquecetuba, lá na década de 80, a maioria das ruas ainda era de terra vermelha e a minha família não tinha telefone em casa.
Por isso, frequentávamos muito o muro da vizinha mais abastada, que repassava os recados para a minha mãe, e o posto local da companhia telefônica.
Lá havia um banco de concreto revestido de carpete amarelo. Enquanto minha mãe fazia suas ligações, eu me ajoelhava sobre ele e ficava observando a atendente: uma mulher vestida com um tailleur azul-marinho, cabelos presos e um lenço de cetim amarrado no pescoço.
Eu a achava linda.
E imaginava que, quando crescesse, queria trabalhar em alguma coisa que me permitisse vestir daquele jeito.
Nunca gostei muito de brincar de casinha ou de mamãe e filhinha. Eu gostava mesmo era de brincar livre com minha bicicleta Caloi vermelha, andar de carrinho de rolimã e me imaginar, um dia, usando roupas elegantes, trabalhando e conquistando o meu lugar no mundo.
O tempo passou.
Filha de um taxista e de uma vendedora, investi muito na minha educação e na minha carreira. Desde cedo, eu sabia que a única forma de mudar a minha realidade seria me dedicar profundamente aos meus sonhos.
Com o tempo, conquistei minha independência financeira, viajei o mundo, construí minha carreira e passei a usar as roupas elegantes que eu tanto admirava quando criança.
Mas, quando me dei conta, eu já estava muito perto dos quarenta anos e diante de uma pergunta importante: serei ou não mãe?
A maternidade, para mim, parecia exigir renúncias para as quais eu não sabia se estava pronta. Talvez significasse deixar de lado a possibilidade de fazer uma travessia no meio de uma montanha no Peru com o celular desligado, ou de percorrer o Caminho de Santiago de Compostela carregando apenas uma mochila e um sonho.
Eu não tinha certeza se estava disposta a abrir mão disso.
Até que, um dia, um lindo moço, pai de duas menininhas ainda muito pequenas, cruzou o meu caminho.
Até então, eu nunca tinha pensado profundamente sobre famílias reconstruídas. Meus pais são casados há mais de 50 anos. Meus avós namoraram desde crianças e somente a morte os separou. Esse não era um modelo familiar que eu conhecia de perto.
Mas as famílias mudaram. Evoluíram. Recomeçaram. Se reorganizaram.
E, com isso, muitas de nós nos tornamos enteadas, mães, madrastas, e às vezes tudo isso ao mesmo tempo, às vezes apenas uma dessas coisas, mas sempre atravessadas por novas formas de amar.
Num piscar de olhos, e quase sem perceber, troquei o salto alto pela sapatilha. Troquei a bolsa pequena por uma maior, porque passei a precisar de espaço para aqueles pedidos recorrentes: “tia, guarda na sua bolsa?”.
Deixei um pouco de lado a gourmetização dos pratos e passei a me preocupar mais com comida colorida, crescimento saudável, rotina, cuidado e presença.
A minha gestação aconteceu apenas no coração.
Foi a gestação afetiva de duas meninas lindas, que têm mãe e pai presentes, mas que também passaram a ocupar um lugar imenso dentro de mim.
O amor que sinto por elas não é igual ao amor dos pais delas. É outro amor. Um amor genuíno, construído no cotidiano, que não espera nada em troca.
A escola nunca ajudou a preparar um presentinho para mim. Não apareci em nenhuma propaganda de Dia das Mães. Nenhuma loja de perfume fez campanha para celebrar esse lugar. Os restaurantes não lotam no Dia da Madrasta.
Aliás, muitos ainda perguntam:
“Dia da Madrasta?”
Sim, ele existe.
A palavra madrasta vem do latim vulgar matrastra, formada a partir de mater, que significa mãe. Em sua origem, estava associada à ideia de “mulher do pai” ou daquela que, de alguma forma, ocupa um lugar ligado ao cuidado materno na vida dos filhos do cônjuge.
Com o tempo, por influência cultural, pelos contos populares e por estruturas familiares antigas, de uma época em que o divórcio sequer era permitido e muitas mulheres chegavam às famílias após a morte da mãe biológica, a palavra ganhou uma carga negativa.
A figura da madrasta passou a ser associada, muitas vezes de forma injusta, à mulher que chega depois, que disputa espaço ou que não teria o mesmo afeto da mãe biológica.
Afinal, quem não se lembra da madrasta da Branca de Neve, que, movida pela inveja, tentou envenenar a enteada com uma maçã?
Também penso que existe uma concorrência alimentada pelo patriarcado: mulheres disputando o amor, a atenção, o reconhecimento e até os recursos financeiros de um homem. A madrasta competindo com a mãe. A enteada competindo com a madrasta. A mãe competindo com a nova mulher.
Sempre uma mulher contra outra mulher.
Mas eu acredito, cada vez mais, em sistemas sinérgicos e colaborativos.
Acredito que o amor não se esgota quando é dividido. Ele se expande. Ele se multiplica. Em vez de pensar no amor como algo finito, prefiro acreditar que ele é infinito.
Ninguém nasce, cresce e sonha em ser madrasta e comigo também foi assim.
Mas, desde o dia em que conheci aquelas meninas, quando a mais velha desceu uma escada correndo e veio com os bracinhos esticados em direção ao meu pescoço, e a mais nova, dirigindo um velotrol, olhou para mim imitando uma capivara, a minha entrega ao amor delas foi um grande mergulho de cabeça no desconhecido.
Desde então, tem sido uma construção diária de confiança, carinho e proteção.
Um caminhar lado a lado, descobrindo, junto com elas e com o meu companheiro de vida, como esse negócio de família estendida e reconstruída funciona na prática.
O amor transforma. Sustenta. Educa. Cura. Ajuda no desenvolvimento pessoal e espiritual.
Tenho certeza de que minhas enteadas são dois grandes presentes de Deus, que me ajudam todos os dias a me tornar uma pessoa melhor.
Engana-se quem pensa que é preciso ter o mesmo sangue para amar alguém como filho de coração ou como irmão de caminhada.
Como disse São Paulo, em sua Carta aos Coríntios:
“O amor é paciente, é bondoso. Não inveja, não se exibe, não se enche de orgulho. Não age com grosseria, não busca o próprio interesse, não se irrita facilmente, não guarda rancor.”
O amor jamais acaba.
E vocês acham que minhas enteadas compreendem o tamanho do amor infinito que sinto por elas?
É claro que não.
Porque nada na vida delas se compara ao que elas significam na minha.
Elas talvez nunca saibam exatamente o tamanho do lugar que ocupam em mim.
Mas talvez seja isso também o amor: amar mesmo sem garantia de reconhecimento, cuidar sem precisar de aplauso, permanecer sem disputar lugar.
Porque ser madrasta, para mim, nunca foi sobre substituir ninguém.
Foi sobre descobrir que o coração sempre pode abrir mais um cômodo.
