Como lidar com a dor quando a vida pesa demais

Setembro Amarelo é necessário, mas a dor não consulta calendário e talvez precisemos falar também sobre tudo o que acontece antes de alguém chegar ao limite

Existe um tipo de cansaço que dormir não resolve /Magnific

Nem toda pessoa que continua funcionando está bem. Setembro Amarelo é necessário, mas a dor não consulta calendário e talvez precisemos falar também sobre tudo o que acontece antes de alguém chegar ao limite.

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Existe um tipo de cansaço que dormir não resolve. A gente dorme e acorda cansado da própria vida. Toma banho, veste a roupa, responde mensagens, trabalha, entra em reunião, cuida dos filhos, resolve problemas, sorri quando precisa sorrir e continua cumprindo compromissos como se alguma parte de nós não estivesse implorando para que o mundo parasse por algumas horas. Não necessariamente porque queremos que tudo acabe. Às vezes queremos apenas que a vida pare de exigir tanto. Queremos desligar o telefone, fechar a porta, não decidir nada, não resolver nada e, por algumas horas, não precisar sustentar todas as versões de nós que o mundo espera.

Em 2021, o Brasil registrou 15.507 mortes por suicídio. Uma a cada 34 minutos. Entre 2010 e 2021, a taxa de mortalidade por suicídio no país cresceu 42%, segundo o Ministério da Saúde. No mundo, mais de 720 mil pessoas morrem dessa forma todos os anos. São números brutais, mas talvez exista algo que os números não consigam mostrar: tudo o que acontece muito antes de alguém chegar ao limite.

Porque esta não é exatamente uma coluna sobre morrer. É sobre aqueles períodos em que viver começa a pesar mais do que deveria.

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Há uma crueldade particular na vida adulta: quando a gente desaba, a vida não desaba junto. O boleto vence. O telefone toca. A reunião continua marcada. O filho precisa de atenção. A empresa precisa funcionar. Há pessoas esperando respostas e problemas que não se sensibilizam com a nossa falta de força. Então a gente vai. Às vezes inteiro. Às vezes reunindo força de lugares que nem sabia que ainda existiam. Mas vai.

E talvez estejamos confundindo isso com estar bem.

Existe gente sobrevivendo com uma eficiência impressionante. Gente tão competente em continuar que ninguém percebe quanto está custando continuar. Gente que entrega tudo no prazo e chega em casa exausta. Gente que recebe uma promoção enquanto atravessa uma crise pessoal. Gente que vive uma grande conquista profissional no mesmo período em que precisa reorganizar silenciosamente outras áreas da própria vida.

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Talvez uma das coisas mais difíceis de aceitar seja justamente essa: a vida pode estar dando muito certo e, ainda assim, a gente não estar bem em todas as áreas dela.

Eu aprendi isso de perto.

Este ano me trouxe algumas das maiores conquistas profissionais da minha vida e, ao mesmo tempo, exigiu de mim uma força pessoal que poucas pessoas chegaram a ver. Não digo isso como lamento. Digo porque a vida adulta tem essa estranha capacidade de colocar expansão e dificuldade na mesma semana, vitória e preocupação no mesmo dia, aplauso e silêncio dentro da mesma pessoa.

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Existem fotografias de momentos extraordinários que jamais revelam tudo o que alguém precisou organizar internamente para chegar até ali.

E tudo bem.

Talvez maturidade não seja viver uma vida sem dor. Talvez seja aprender a não entregar à dor o comando de tudo.

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Foi uma das coisas que precisei aprender nos períodos mais difíceis da minha vida. Quando emocionalmente eu não conseguia organizar algumas coisas, fui procurar compreendê-las racionalmente. Estudei. Li. Pesquisei. Tentei entender como a mente reage ao sofrimento, quais comportamentos pioram determinados estados, quais ajudam, como outras pessoas atravessaram crises e o que a ciência já sabia sobre isso.

Conhecimento não substitui tratamento, acompanhamento profissional ou rede de apoio. Mas, para mim, compreender sempre foi uma forma de recuperar alguma capacidade de ação.

Há ciência por trás dessa lógica. A Organização Mundial da Saúde estima que 5,7% dos adultos vivam com depressão e aponta que existem tratamentos eficazes. Entre as abordagens psicológicas utilizadas estão ferramentas que ajudam justamente a desenvolver novas formas de pensar, interpretar e enfrentar situações.

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Talvez por isso estudar tenha me ensinado uma das coisas mais importantes que carrego até hoje: a dor é uma péssima analista do futuro.

Quando alguma coisa dói muito, ela ocupa todo o campo de visão. O presente começa a se projetar sobre o futuro e uma situação temporária passa a parecer uma sentença permanente. Se estou assim hoje, imagino que estarei assim amanhã. Se perdi algo importante, penso que nada equivalente aparecerá. Se uma relação terminou, parece que aquele vazio permanecerá. Se uma oportunidade acabou, a mente começa a agir como se nenhuma outra pudesse surgir.

Mas existe um erro nessa lógica: não conseguir enxergar uma saída e não existir uma saída são duas coisas completamente diferentes.

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É uma diferença pequena na frase e gigantesca na vida.

Nos momentos mais difíceis, tentamos prever um futuro inteiro usando apenas as informações disponíveis no momento em que nossa percepção está mais comprometida pelo sofrimento.

Simplesmente não temos todos os dados.

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Não sabemos quem ainda conheceremos. Não sabemos quais oportunidades aparecerão, em quais lugares estaremos daqui a alguns anos, quais pessoas entrarão na nossa história, quais sairão, que trabalho faremos, quantas vezes ainda mudaremos de ideia, quantas versões nossas ainda existirão depois daquela que naquele momento parece definitiva.

Talvez parte da esperança seja intelectualmente simples: reconhecer que ainda existem variáveis que desconhecemos.

A própria Organização Mundial da Saúde trata o suicídio como um fenômeno multifatorial. Perdas, solidão, conflitos afetivos, problemas financeiros, dor, doença, violência e outras situações podem compor cenários de vulnerabilidade. Isso desmonta uma pergunta simplista que aparece com frequência depois de uma tragédia: “Mas foi por causa disso?”.

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Talvez nunca tenha sido só por causa “disso”.

Pessoas acumulam.

Uma preocupação financeira somada a uma decepção, somada a um problema familiar, somada ao trabalho, somada ao medo, à falta de sono, ao cansaço e à obrigação de continuar parecendo forte. Um copo pode transbordar por causa de uma única gota, mas seria intelectualmente desonesto culpar aquela gota por toda a água que já estava ali.

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Por isso Setembro Amarelo importa. Mas talvez a conversa precise continuar em outubro, janeiro, março e em uma terça-feira qualquer de junho. A dor não consulta calendário. Saúde mental precisa ser assunto antes do limite. Precisamos aprender a pedir ajuda antes de quebrar, descansar antes de colapsar e reconhecer sinais antes que uma situação precise se tornar insuportável para finalmente parecer legítima.

Também precisamos rever algumas definições de força.

Fomos ensinados a admirar quem aguenta. Chamamos de forte quem não reclama, de resiliente quem continua produzindo, de madura a pessoa que suporta tudo sem incomodar ninguém. Mas força não é apenas resistência.

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Às vezes, força é discernimento.

É saber o que precisa ser enfrentado e o que pode esperar. É perceber quando um problema exige ação e quando uma mente exausta precisa primeiro recuperar perspectiva. É procurar ajuda profissional quando necessário. É não transformar um momento ruim numa definição sobre quem somos. É não permitir que um dia difícil tome decisões que pertencem a uma vida inteira.

Nem toda reconstrução começa com uma grande virada. Algumas começam com rotina. Sono. Alimentação. Terapia. Exercício. Conversa. Organização. Decisão. Pequenas ações repetidas até que aquilo que parecia impossível volte a parecer administrável.

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Talvez seja aí que esteja uma ideia que me interessa mais do que romantizar resiliência: não precisamos ser invencíveis para sermos fortes.

Eu não escrevo “Como lidar” porque acredito ter uma fórmula para a vida. Escrevo justamente porque me incomoda a quantidade de coisas que todos nós precisamos atravessar sem que ninguém tenha nos ensinado como atravessá-las.

Também tenho dias difíceis. Também há momentos em que preciso reorganizar pensamentos, prioridades e forças. A diferença é que hoje compreendo algo que, em outros momentos da vida, eu não compreendia: sensação não é sentença.

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O que sentimos merece ser ouvido.

Mas não necessariamente obedecido.

A dor informa que alguma coisa precisa de atenção. Ela pode exigir mudança, cuidado, ajuda, descanso ou decisão.

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O que ela não pode receber é autoridade absoluta sobre o futuro.

Porque já existiram situações que pareciam definitivas e não eram. Problemas que pareciam insolúveis e foram resolvidos. Fases que pareciam intermináveis e terminaram. Versões nossas que acreditávamos perdidas e que, algum tempo depois, percebemos terem apenas dado lugar a outras.

Talvez lidar com a dor quando a vida pesa demais seja justamente isso: não negar o peso, mas também não confundi-lo com o destino.

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Há momentos em que ser forte não significa sorrir, fingir que está tudo bem ou carregar tudo sozinho.

Significa continuar lúcido o suficiente para lembrar:

eu ainda não tenho todos os dados sobre a vida que me espera.