O fanatismo político tem uma habilidade curiosa: fazer gente adulta abandonar qualquer traço de maturidade no instante em que alguém toca no nome do seu candidato. Pessoas que jamais aceitariam idolatria no trabalho, na família ou em qualquer outra relação passam a tratar políticos como figuras sagradas, imunes a perguntas, críticas ou contradições.
Não querem discutir ideias; querem identificar inimigos. Não querem saber se o argumento faz sentido; querem descobrir de que lado você está. E, se você não estiver exatamente do lado delas, pouco importa o que tenha dito. Você já foi condenado.
Talvez por isso tanta gente esteja cansada. Não cansada da política em si, mas da obrigação de escolher uma torcida antes mesmo de abrir a boca. A Ipsos-Ipec perguntou aos brasileiros o que sentiam diante da polarização política. Tristeza, cansaço e medo apareceram entre os sentimentos mais citados.
Em outro levantamento, 72% disseram se sentir incomodados com a polarização e a radicalização, 63% consideraram os debates estressantes e frustrantes e 67% afirmaram já ter vivido alguma experiência ruim em razão desse ambiente.
Estamos falando de relações familiares afetadas, amizades interrompidas, medo de expressar opiniões e pessoas se afastando de espaços de discussão. E o mais perverso é que esse cansaço não produz necessariamente reflexão: muitas vezes produz retirada. Quem poderia qualificar a conversa decide sair dela, enquanto quem transforma política em guerra permanece falando cada vez mais alto.
É importante separar duas coisas que frequentemente são tratadas como sinônimos: ter convicção e ser fanático. Convicção é saber no que se acredita e, ainda assim, admitir a possibilidade de estar errado. Fanatismo é precisar que o outro esteja errado para que a própria identidade continue de pé.
A pessoa convicta consegue ouvir uma crítica ao candidato em quem pretende votar. O fanático escuta a mesma crítica como se fosse uma agressão pessoal. Porque, em algum momento, deixou de apenas apoiar um político e passou a incorporá-lo à própria identidade.
A ciência política usa o conceito de polarização afetiva para descrever parte desse fenômeno: a distância entre grupos deixa de ser apenas programática ou ideológica e passa a envolver sentimentos de hostilidade, rejeição e antipatia em relação ao outro grupo. Na prática, a política deixa de responder apenas à pergunta “o que você pensa?” e começa a responder “quem são os seus?”.
Quando chegamos a esse ponto, argumentos perdem importância. Uma proposta pode ser boa ou ruim dependendo apenas de quem a apresentou. Uma pergunta pode ser legítima ou ofensiva dependendo apenas de quem foi questionado. A própria Ipsos descreveu o Brasil de 2026 como um ambiente em que a disputa já não é apenas programática, mas também afetiva, marcada pela lógica do “nós contra eles”. (Ipsos)
É exatamente aí que o fanatismo começa a produzir um dano muito maior do que as brigas nas redes sociais. Um estudo publicado em 2025, baseado em uma amostra nacional de 1.615 usuários de internet no Brasil, analisou o que acontece quando discussões políticas no WhatsApp e no Facebook se tornam hostis. Ser atacado ou ofendido durante essas conversas apareceu como um forte preditor de comportamento de evitação. Em outras palavras: diante de um ambiente agressivo, muita gente simplesmente decide não conversar mais sobre política. (Taylor & Francis Online)
E quem perde quando as pessoas razoáveis desistem de conversar? A democracia.
Existe uma ironia difícil de ignorar: algumas das pessoas que mais afirmam estar “defendendo o país” são justamente aquelas que tornam o debate público tão insuportável que os demais cidadãos começam a abandoná-lo.
O fanático acredita que está convertendo pessoas quando, muitas vezes, está apenas expulsando-as da conversa. E, quando os moderados se calam, os curiosos se afastam e quem ainda tem dúvidas aprende que perguntar custa caro, sobra espaço para os extremos parecerem maiores do que realmente são.
Talvez seja por isso que tanta gente diga que “não quer se meter em política”.
A frase quase nunca significa falta absoluta de interesse pelo país. Muitas vezes significa: não quero ser xingado, rotulado, atacado ou ter minhas relações pessoais destruídas porque fiz uma pergunta. Criamos um ambiente em que a punição social pela dúvida ficou tão alta que o silêncio começou a parecer mais confortável do que a participação.
Tenho pensado muito sobre isso nos últimos dias enquanto entrevisto candidatos à Presidência pertencentes aos mais diferentes campos políticos. Resolvi dar voz a todos. Não apenas àqueles com quem concordo, nem aos que agradam ao meu público, mas a todos os que disputam o cargo e aceitam sentar para conversar.
O princípio me parece elementar: se alguém pretende governar mais de 200 milhões de pessoas, merece ser questionado; e, se alguém pretende escolher quem governará o país, merece ter acesso às respostas.
O curioso é que, quanto mais apartidária tento ser, mais contraditórios ficam os rótulos. Uma pergunta dura a alguém da direita basta para que eu seja chamada de esquerdista. Uma pergunta dura a alguém da esquerda basta para que eu seja acusada de bolsonarista. Às vezes, as acusações chegam no mesmo dia. Tenho perdido seguidores.
Recebo xingamentos. Vejo pessoas tentando transformar perguntas em declarações de voto. E seria mentira dizer que isso não cansa.
Mas existe alguma coisa maior do que o cansaço.
Se jornalistas, comunicadores, professores, empresários, estudantes e cidadãos comuns começarem a evitar política porque o custo emocional de participar ficou alto demais, teremos cometido um erro coletivo gigantesco.
Política não pertence aos fanáticos. Não pertence aos militantes mais barulhentos. Não pertence aos partidos, aos candidatos ou aos algoritmos. Política diz respeito à maneira como a nossa vida é organizada e, por isso, deveria interessar justamente a quem não pretende idolatrar ninguém.
Talvez uma das maiores perversões do debate contemporâneo seja a ideia de que ouvir alguém significa apoiá-lo. Não significa. Entrevistar não é endossar. Escutar não é concordar. Fazer uma pergunta difícil não é perseguir. E reconhecer uma boa resposta de alguém em quem você jamais votaria não é traição ideológica; é apenas honestidade intelectual.
Uma democracia adulta depende dessa capacidade. De conseguir dizer: “discordo de você, mas quero entender como chegou até aqui”. De conseguir cobrar com a mesma dureza o candidato que amamos e aquele que rejeitamos.
De conseguir mudar de opinião diante de uma evidência melhor. Parece pouco, mas talvez seja uma das coisas mais revolucionárias que alguém pode fazer em um ambiente dominado por certezas performáticas.
Como lidar, então, com o fanatismo político? Recusando a lógica que ele tenta impor. Não aceite que alguém decida seu lado antes de ouvir sua pergunta. Não transforme político em extensão do seu ego. Leia quem discorda de você. Pergunte ao seu candidato aquilo que você gostaria que fosse perguntado ao adversário. E, principalmente, preserve a dúvida.
A dúvida não é fraqueza intelectual; muitas vezes, é justamente o que separa pensamento de obediência.
Vou continuar entrevistando todos que aceitarem conversar comigo, mesmo que isso custe seguidores dos dois lados. Porque uma sociedade em que todo mundo só escuta quem já confirma aquilo em que acredita não está debatendo política; está apenas consumindo validação.
Político não é ídolo. Partido não é religião. Eleitor não deveria ser fã-clube. E talvez a pergunta mais importante para medir o grau de fanatismo de alguém seja muito simples: o que o seu candidato precisaria fazer para perder o seu apoio? Se a resposta for “nada”, então nunca foi sobre política. Foi sobre fé.
E democracia não foi feita para exigir fé em homens públicos. Foi feita, justamente, para que possamos desconfiar deles.
