O que sai debaixo das geleiras da Groenlândia está alimentando o oceano de um jeito que poucos conhecem 

A água de degelo sobe centenas de metros e transporta nutrientes que estimulam o crescimento do fitoplâncton

Icebergs ocupam as águas da Baía de Disko, no oeste da Groenlândia, região diretamente influenciada pelas geleiras que desembocam no mar (Foto: Wikimedia Commons/Buiobuione)

Icebergs ocupam as águas da Baía de Disko, no oeste da Groenlândia, região diretamente influenciada pelas geleiras que desembocam no mar (Foto: Wikimedia Commons/Buiobuione)

No verão da Groenlândia, parte da água formada sobre a camada de gelo some por fendas e canais antes de alcançar diretamente o mar. O fluxo atravessa caminhos sob a geleira e reaparece centenas de metros abaixo da superfície de um fiorde.

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Na Sermeq Kujalleq, uma das geleiras mais ativas da ilha, essa descarga pode alcançar o oceano a cerca de 850 metros de profundidade. Ali, a água doce encontra uma massa muito mais salgada e densa e, por ser mais leve, começa a subir.

Durante a ascensão, grandes volumes de água profunda são incorporados à pluma. Nessas camadas inferiores ainda existem nutrientes que já se tornaram escassos perto da superfície. Ao serem levados novamente para regiões iluminadas, eles ficam disponíveis para o fitoplâncton.

Simulações publicadas na revista Communications Earth & Environment indicam que esse mecanismo pode elevar a produtividade primária durante o verão entre 15% e 40% na região da Baía de Disko, no oeste da Groenlândia.

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Água percorre o gelo

Riachos e pequenos lagos aparecem sobre a camada de gelo durante os meses mais quentes. Parte dessa água entra em rachaduras, alcança a base da geleira e segue por canais subglaciais em direção ao fiorde.

O percurso termina próximo da chamada linha de aterramento da Sermeq Kujalleq, também conhecida como Jakobshavn Isbræ. É nessa região que o gelo deixa de permanecer apoiado no fundo e começa a flutuar.

Nos períodos de maior derretimento, a descarga pode ultrapassar 1.200 metros cúbicos de água doce por segundo.

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Ao deixar a base da geleira, o fluxo encontra a água salgada do oceano profundo. A diferença de densidade modifica imediatamente seu comportamento e dá origem à pluma ascendente.

Pluma aumenta de volume

Os primeiros metros de subida já mudam bastante a quantidade de água movimentada.

Em contato com o ambiente ao redor, a pluma incorpora água salgada das profundezas e aumenta progressivamente de volume. O processo provoca uma ressurgência capaz de transportar muito mais água do que aquela liberada inicialmente pela geleira.

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Segundo as simulações, o movimento pode superar 45 mil metros cúbicos por segundo, quase 40 vezes o volume da descarga subglacial.

Junto com essa água chegam nutrientes necessários ao crescimento de organismos microscópicos. Entre eles está o nitrato, além de compostos de fósforo e sílica que também participam da produtividade marinha.

A contribuição da geleira, portanto, não acontece porque a água de degelo seja especialmente rica nesses elementos. Seu papel principal é colocar a coluna d’água em movimento e trazer para cima os nutrientes armazenados em profundidade.

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Primavera esgota reservas

Meses antes do pico de derretimento, a disponibilidade de nutrientes na superfície passa por uma mudança importante.

Com o avanço da primavera e o aumento da luz solar, o fitoplâncton se multiplica rapidamente. Essa primeira floração utiliza boa parte do nitrato presente nas camadas superiores.

Quando o verão chega, a luz continua abundante, mas os nutrientes disponíveis perto da superfície já podem estar bastante reduzidos.

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É justamente nesse período que a ressurgência associada à descarga glacial passa a ter maior importância para a produtividade local.

Dados de clorofila analisados pelos pesquisadores mostram um primeiro pico por volta de abril e outro em agosto, época em que a quantidade de água proveniente do derretimento também aumenta.

Baía foi reproduzida

A equipe concentrou o estudo na Baía de Disko, chamada localmente de Qeqertarsuup Tunua, no oeste da Groenlândia.

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Essa região recebe forte influência da Sermeq Kujalleq, geleira conhecida pela velocidade de deslocamento e pelo grande volume de gelo que entrega ao oceano.

Medições contínuas no local são difíceis por causa da profundidade dos fiordes, da presença de icebergs e das condições ambientais. Para acompanhar o processo ao longo de períodos maiores, os cientistas recorreram a modelos computacionais.

A representação da região chegou a uma resolução aproximada de 500 metros e incluiu temperatura, salinidade, circulação, nutrientes, carbono e diferentes grupos de plâncton.

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Observações feitas no oceano e dados de clorofila obtidos por satélites serviram para comparar o comportamento produzido pelas simulações com o que ocorre na área real.

Verão mostrou diferença

Cenários com e sem descarga subglacial foram colocados lado a lado para medir o efeito da pluma.

Quando o fluxo vindo debaixo da geleira era incluído, a produtividade primária durante o verão aumentava entre 15% e 40%.

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A intensidade não se repetia de maneira uniforme. Os maiores valores apareciam principalmente nas regiões próximas aos fiordes diretamente influenciados pelas geleiras, além de variarem entre os anos analisados.

Diatomáceas e outros grupos de fitoplâncton responderam ao aumento de nutrientes disponíveis nas camadas iluminadas.

Por ocuparem a base de grande parte das cadeias alimentares marinhas, esses organismos sustentam zooplâncton, peixes e espécies maiores. O estudo, porém, não concluiu que todos esses níveis aumentem na mesma proporção.

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Carbono respondeu menos

Outro efeito analisado foi a absorção de dióxido de carbono durante a fotossíntese.

Mesmo com o aumento considerável da produtividade no verão, o ganho anual estimado na absorção de CO₂ ficou em aproximadamente 3%.

Parte dessa diferença está nas próprias águas trazidas das profundezas. Elas apresentam características químicas que podem reduzir a capacidade local de absorver carbono da atmosfera.

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Assim, mais fitoplâncton não significa automaticamente um aumento equivalente na retirada de CO₂.

Degelo segue preocupante

Os resultados tratam de um efeito localizado e não mudam o impacto mais amplo da perda de gelo na Groenlândia.

Entre 2002 e 2025, medições dos satélites GRACE e GRACE-FO indicaram uma perda média próxima de 264 bilhões de toneladas de gelo por ano.

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Esse volume contribui para a elevação do nível global do mar. Ao mesmo tempo, a entrada crescente de água doce pode alterar salinidade, circulação e outras características dos ecossistemas costeiros.

O estudo, portanto, não apresenta o derretimento como um processo benéfico. A pesquisa identifica uma consequência específica da descarga subglacial durante o verão.

Profundidade muda resultado

A posição em que a água chega ao oceano interfere diretamente na intensidade da ressurgência.

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Na Sermeq Kujalleq, a descarga ocorre em grande profundidade. Isso oferece à pluma um trajeto vertical longo, durante o qual volumes cada vez maiores de água salgada são incorporados.

Em fiordes mais rasos, o percurso até a superfície é menor e a quantidade de água profunda transportada pode cair.

Esse ponto também importa para o futuro. Conforme uma geleira recua, sua frente pode alcançar partes menos profundas do fiorde e modificar o funcionamento da ressurgência.

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Efeito varia pela costa

Mais de 250 geleiras terminam diretamente no mar ao redor da Groenlândia.

Cada uma está ligada a fiordes com profundidades, formatos, temperaturas e padrões de circulação diferentes. Por esse motivo, os números encontrados na Baía de Disko não podem ser aplicados automaticamente a toda a ilha.

Novos modelos deverão avaliar quais regiões apresentam condições semelhantes e onde a descarga subglacial exerce maior influência sobre a produtividade marinha.

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Na área estudada, a combinação entre luz abundante no verão e nutrientes disponíveis nas profundezas cria condições para que a circulação provocada pelo degelo faça diferença. A pluma transporta parte desses nutrientes até as camadas onde o fitoplâncton consegue utilizá-los.

As simulações estimaram um aumento de 15% a 40% na produtividade durante o verão, resultado restrito à região e dependente das características do fiorde, da profundidade da descarga e do volume de água liberado pela geleira.