O velho normal

Está certo que após mais de 100 dias seria impossível manter a mesma indignação e pesar, porém o 'novo normal' também provoca estarrecimento

Monumento às Bandeiras, em frente ao Parque Ibirapuera, zona sul da Capital

Monumento às Bandeiras, em frente ao Parque Ibirapuera, zona sul da Capital | Fábio Vieira/FotoRua/Folhapress

Andando pelas ruas da capital paulista o cenário parece estar mais próximo daquele pré-pandemia. O comércio reabriu, restaurantes e bares também, e agora até as academias de ginástica e os parques estão de volta. Estaria tudo normal se não fosse o tal do coronavírus.

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Esta semana, a Prefeitura de São Paulo divulgou uma pesquisa mostrando que ao menos um milhão de pessoas foram ou estão infectadas pela Covid-19 somente na cidade. Isso representa quase 10% da população paulistana. É muita gente. Para chegar à estimativa, profissionais de saúde visitaram 5.772 domicílios e testaram 2.864 pessoas em 96 distritos da Capital.

De longe, a pesquisa parece ser bem mais real do que os números oficiais. No último boletim epidemiológico da prefeitura, São Paulo aparece com 146 mil casos confirmados e ultrapassa 8 mil mortes pela Covid-19. Apesar de triste, o número parece não mais comover os paulistanos, que já se aboletam nas lojas de shopping, promovem festinhas e vão aos bares na maior naturalidade.

Está certo que após mais de 100 dias seria impossível manter a mesma indignação e pesar, porém o “novo normal” também provoca estarrecimento. Com maior circulação de pessoas nas ruas é bem provável que o número de doentes aumente e, consequentemente, o número de internações.

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Todavia, nem as autoridades, nem o pessoal do “novo normal” parece se importar mais com isso. Com a reabertura do comércio, temos trabalhadores com medo de voltar para a casa e contaminar a família. Temos empresários querendo salvar seu negócios e igualmente receosos de levar a doença pra dentro de suas casas. O medo não pode ser normal. E essa resignação que se instala também não deveria ser.

Enquanto trabalhadores e empregados se vêm no dilema entre voltar à rotina e passar fome, políticos continuam com seus salários intactos e o governo continua dificultando o acesso aos benefícios. Fora quem não tem trabalho para voltar. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), no trimestre de março a maio a desocupação chegou a 12,9%, somando cerca de 13 milhões de desempregados.

A pandemia reforçou a desigualdade e a escancarou o quão necessária uma reforma administrativa se faz. Pena que, com a cada dígito de morte, não aumente a responsabilidade do poder público com o dinheiro público. E assim continuamos no velho normal.

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*Nely Rossany é editora da Gazeta