Ninguém me contou que eu teria que escolher um lado

Felca escolheu falar sobre bullying e saúde mental, não sobre política; coluna questiona a cobrança por posicionamento político de figuras públicas

Entre a escolha pessoal e a cobrança pública, até onde vai o direito de alguém decidir se quer ou não se posicionar?. Foto: Pexels

Desde cedo, aprendemos a enxergar o mundo em oposições: certo e errado, vencedor e perdedor, herói e vilão. Dos filmes às competições escolares, quase tudo exige uma escolha. Como na pílula azul ou vermelha de Matrix: permanecer na ilusão ou encarar a realidade, por mais dolorosa que seja. O problema surge quando a escolha se torna uma exigência pública.

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Em que momento o silêncio deixou de ser um direito? Essa pergunta me acompanhou nesta semana. Eu também esperava um posicionamento político do Felca. Acreditava que sua manifestação poderia ser decisiva para o país, como já esperei de outros artistas. Mas quem sou eu para exigir que alguém fale no momento em que considero necessário? Felca escolheu falar sobre bullying.

Enquanto ele falava de saúde mental, parte dos comentários revelava o quanto estávamos dispostos a ignorá-la. A preocupação com o futuro de uma nação parecia não deixar espaço para escutar o sofrimento de uma pessoa. Como alguém que sofreu bullying dos seis aos dezessete anos, baixei a guarda. Percebi que ele não tinha obrigação de corresponder à minha expectativa. A história que precisava contar não era a que eu esperava ouvir.

Em uma sociedade na qual lutamos para não sermos silenciados, quão hipócrita pode ser forçar alguém a falar? Essa contradição revela como temos vivido a política: cobramos declarações de pertencimento e confundimos apoio público com compromisso social.

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Tão atentos aos movimentos dos reis e das rainhas, e a quem os apoia, perdemos de vista o tabuleiro inteiro: os interesses, as alianças e as estruturas que sustentam a disputa e continuam operando depois da eleição. Quem disputa o poder deve responder por suas escolhas e propostas.

Mas cobrar de um artista uma declaração eleitoral não substitui nossa responsabilidade de compreender e fiscalizar esse sistema. Talvez seja mais fácil procurar uma voz que confirme o nosso lado do que encarar a complexidade do país que precisamos transformar.

Não se posicionar pode, sim, ser covardia ou zona de conforto. Mas também pode ser uma decisão corajosa de quem precisa preservar a própria saúde mental. Quem sofreu bullying sabe que a violência não termina necessariamente quando as agressões cessam.

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Eu fiz uma escolha política e escolhi não expor. Quem me conhece sabe o que isso exige de mim. Mas, como um prego levemente exposto, sei que posso receber a martelada pela minha suposta omissão. Imagine uma figura pública.

O silêncio não isenta ninguém da responsabilidade pelas próprias escolhas. Mas uma postagem também não comprova compromisso com o mundo. Precisamos olhar para o que as pessoas sustentam na vida, para além do que anunciam. O amor precisa entrar nesse espaço entre a convicção e a cobrança. Amar exige responsabilidade pelo efeito das nossas palavras.

Exige reconhecer a violência quando ela parte de nós, justificada pela certeza de estarmos do lado certo. Posso questionar um silêncio e cobrar responsabilidade sem humilhar alguém. Minha convicção política não me autoriza a tratar uma pessoa como alvo.

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Precisei reconhecer: minha preocupação com o país não podia tornar irrelevante a dor que ele contava. Se o amor vai orientar nossas escolhas, precisa aparecer na forma como falamos, cobramos e discordamos. Sobretudo quando somos frustrados.

Antes de cobrar o próximo posicionamento, olhe para o seu: você consegue defender aquilo em que acredita sem ferir a dignidade de quem não corresponde às suas expectativas?