Semana de fechamento da empresa, o café da manhã completo virou só café, o almoço aconteceu às quinze horas, em minutos, a primeira refeição de verdade do dia foi tarde da noite. E, apesar disso tudo, você entregou.
As reuniões conduzidas, decisões tomadas, resultado no lugar, e é exatamente por isso que a situação não parece um problema, pois a operação seguiu rodando.
Como uma empresa corta custo
Quando o caixa aperta, nenhuma empresa bem administrada corta o que compromete a entrega de amanhã, ela corta treinamento, corta manutenção preventiva, adia pesquisa e desenvolvimento, congela investimento em marca, posterga a troca de equipamento que ainda funciona.
O faturamento do trimestre não se move, e por um tempo a decisão parece acertada, porém a conta aparece algum tempo depois, quando o equipamento quebra e a carteira de novos negócios está vazia. O organismo humano opera com a mesma lógica e sequencia de priorização.
A ordem dos cortes
Existe um conceito em fisiologia chamado disponibilidade energética, a energia que sobra para as funções do organismo depois de descontado o que foi gasto em atividade. Quando essa disponibilidade cai de forma sustentada, o corpo não desliga tudo proporcionalmente, ele hierarquiza.
Protocolos controlados mostram que, em poucos dias de baixa disponibilidade energética, a conversão de hormônio tireoidiano se reduz, IGF-1 e leptina caem, a taxa metabólica de repouso diminui e a remodelação óssea se desloca no sentido da reabsorção, com queda dos marcadores de formação. Em mulheres, a pulsatilidade dos hormônios que comandam o ciclo se altera; em homens, há redução de testosterona.
Repare no que foi cortado, crescimento, reparo tecidual, eixo reprodutivo, construção de osso, ou seja, tudo o que dá retorno no longo prazo. O que foi preservado é a operação imediata, a capacidade de acordar, raciocinar e entregar hoje.
E um dado interessante, essas alterações aparecem sem mudança de peso corporal, então o balancete continua igual, o investimento é que parou.
A virada
Essa sequência de cortes tem uma característica, ela é reversível.
Quando a disponibilidade energética é restaurada, boa parte dos marcadores volta a se mover na direção original em questão de dias a semanas, hormônio tireoidiano, leptina, sinalização de reparo.
O organismo lê a nova condição e retoma o que havia suspendido, ocorre que o que não volta no mesmo prazo é o que ficou de fora enquanto o investimento estava congelado, a retomada é possível; a reposição do que se deixou de construir tem outro custo.
Osso não construído em três anos não se recupera em três semanas, massa muscular perdida em um período longo de subalimentação exige meses de trabalho para retornar.
É a diferença entre uma empresa que passou seis meses em contenção e outra que passou seis anos, as duas conseguem voltar a investir, só que a segunda descobre que voltar a investir e recuperar o terreno perdido demanda tempo e disciplina.
Na vida real, esse padrão chega como o sono que não recupera, o treino que rende menos do que rendia, resfriado que se repete três vezes no semestre, libido que sumiu e foi creditada ao estresse, lesão antiga que insiste em não melhorar.
Isolado, cada item tem explicação própria e razoável, talvez por isso que nenhum deles chamou sua atenção quando apareceu. O padrão só fica visível quando coloca os cinco lado a lado, junto com exames, horários de refeição, carga de treino e o desenho real da sua semana e enxerga que não são cinco problemas, mas um só, aparecendo em cinco lugares.
É esse o tipo de leitura que merece atenção e providencias, porque exige comparar sinais que a rotina apresenta separados, com meses de distância entre eles.
Nenhuma operação que corta investimento quebra no mês seguinte, ela vai bem até o dia em que precisa do que deixou de construir. E a sua operação (corpo), hoje, está construindo o quê?
