Uma semana depois do primeiro turno, e com o segundo já no horizonte, muita gente ainda carrega no corpo o que viveu nas últimas semanas, celular na mão até tarde, grupos de família em clima tenso, a mesma notícia lida dez vezes em versões diferentes.
Junto com isso, costumam aparecer sinais que parecem não ter ligação entre si, estômago pesado, intestino fora do ritmo, fome que some ou aparece fora de hora. Pouca gente associa uma coisa à outra.
Em 2016, pesquisadores americanos acompanharam 286 jovens adultos durante a semana da eleição presidencial dos Estados Unidos. Todos os dias, os participantes contavam como estavam se sentindo e coletavam saliva para medir o cortisol, o principal hormônio do estresse.
Nos dias antes da votação, o mal-estar emocional subiu para todos. Depois do resultado, o humor em geral melhorou. Em alguns grupos, porém, o cortisol subiu depois da eleição, a pessoa sentia que tinha passado, mas o corpo ainda não tinha saído do estado de alerta.
Um detalhe desse estudo ajuda a entender o que muita gente sente, o aumento apareceu no cortisol medido na hora de dormir. Em condições normais, esse hormônio segue um ritmo, alto pela manhã, para ajudar a despertar, e baixo à noite, para permitir o descanso. Quando ele continua elevado no fim do dia, o corpo deita, mas não desliga.
Não dá para afirmar que o mesmo acontece com todo mundo aqui. O que o estudo mostra é que um acontecimento coletivo é capaz de mexer com os hormônios, e horas de notícia na tela ajudam a manter esse alerta ligado.
O intestino tem uma rede própria de neurônios, tão extensa que ganhou o apelido de segundo cérebro. Os dois conversam o tempo todo, principalmente pelo nervo vago, que funciona como um cabo de comunicação de mão dupla.
Quando o corpo entra em modo de defesa, a digestão fica em segundo plano, os hormônios do estresse deixam o estômago mais lento e o intestino mais agitado. Na prática, isso aparece como estômago cheio por horas, azia, estufamento e intestino que solta ou prende sem motivo aparente.
Vale lembrar que essa resposta existe para proteger, diante de uma ameaça pontual, ela é útil e passa. O problema começa quando o alerta não desliga, e semanas de tensão, com um segundo turno pela frente, são exatamente esse cenário.
O apetite também reage, e não da mesma forma para todos, algumas pessoas perdem a fome sob tensão, outras comem mais, com vontade maior de doces e gorduras. Sob estresse, o cérebro busca alívio rápido, e esses alimentos ativam o sistema de recompensa, trazendo uma sensação momentânea de conforto. Só que esse conforto é menor do que parece.
O sono entra nessa conta, dormir mal mexe com os hormônios que controlam a fome. Duas noites de sono curto bastam para reduzir a leptina, que sinaliza saciedade, e aumentar a grelina, que estimula a fome, junto com mais vontade de alimentos ricos em carboidratos.
Depois de uma noite mal dormida, o cérebro reage com mais intensidade a alimentos calóricos e com menos controle sobre a escolha.
E há um detalhe importante, comer distraído faz a pessoa comer mais nas refeições seguintes, provavelmente porque o cérebro guarda uma lembrança mais fraca do que foi comido.
O almoço feito rolando a tela junta dois problemas, um corpo em alerta e uma refeição que quase não ficou registrada.
No último dia 4, o país conheceu o resultado do primeiro turno, o seu corpo ainda espera o dele. Sono que não descansa, fome desregulada, intestino fora do ritmo são o organismo avisando que, para ele, a apuração não terminou. E ainda há um segundo turno pela frente.
A eleição vai definir quem governa o país, o que você deixa entrar todos os dias, pelo prato e pela tela, já está definindo quem governa o seu corpo. Preste atenção!
