Existe uma frase que aparece em quase toda primeira consulta: “eu sempre fui assim”. Dita sobre o café que nunca desceu sem açúcar, a salada que a pessoa jura não suportar, a preferência inegociável por algo específico.
A preferência alimentar costuma ser relatada como traço de personalidade, algo que se descreve, quando na verdade é algo que se examina.
Recém-nascidos demonstram aceitação ao sabor doce e rejeição ao amargo, uma herança evolutiva coerente: doce sinalizava energia disponível, amargo sinalizava risco potencial. Fora disso, praticamente tudo o que você hoje chama de gosto foi construído ao longo do tempo.
O mecanismo mais bem documentado é também o mais simples, a exposição repetida. Provas sucessivas de um mesmo alimento aumentam sua aceitação, e a evidência mais consistente vem de estudos com bebês e crianças pequenas, com revisões sistemáticas apontando que oito a dez exposições já produzem aumento mensurável de aceitação.
Pense na sua relação com o café, o primeiro gole na adolescência provavelmente foi ruim, amargo, algo que se tomava porque os adultos tomavam. Hoje você toma três, quatro por dia e chama isso de preferência. Entre uma coisa e outra houve apenas repetição, em contexto, durante anos.
O mesmo vale para praticamente tudo que hoje parece inegociável no seu paladar, a primeira cerveja não desceu bem, a azeitona, a pimenta, o vinho tinto, todos entraram no seu repertório por exposição, não por afinidade natural.
Agora aplique isso a uma rotina desregrada, comendo o que era mais rápido, salgadinhos, doces, etc.
Nenhum desses momentos foi uma escolha alimentar deliberada, foram soluções tomadas sob pressão de tempo, sob demanda acelerada e repetidas centenas de vezes ao longo de anos. E é exatamente disso que o paladar se alimenta, do que se repete.
O que você chama hoje de gosto pessoal é, em boa medida, o registro dessas condições. Ele documenta a rotina em que você comeu durante uma década inteira, e não uma característica estável da sua personalidade.
Um sistema que aprendeu por exposição segue capaz de aprender, a mesma pessoa que jura detestar determinado alimento passa a tolerá-lo, depois a aceitá-lo, e eventualmente a procurá-lo desde que a exposição aconteça com constância e em condições favoráveis, e não como imposição pontual que dura duas semanas.
É por isso que, na prática clínica, mudança alimentar bem conduzida deixa de exigir vigilância em algum ponto do processo. No começo há esforço, porque tudo é novo, depois de alguns meses, o novo virou familiar, e o familiar dispensa força de vontade para se manter.
Se o que você chama de gosto é o resultado de anos de repetição, quais condições você vem repetindo?
