A história sobrenatural de Portugal é incrível.
Comecei essa jornada luso-fantasmagórica através do livro “Histórias de um Portugal Assombrado” da escritora Vanessa Fidalgo e percebi o quanto as lendas e contos assombrados fazem parte do cotidiano do nosso colonizador original.
O curioso é ver que, por lá, além da cultura religiosa católica, também houve uma importante influência moura, exemplo disso são as tantas versões sobre as Mouriscas ou Moiras Encantadas.
Talvez, nesse contexto, é que algumas histórias de nossas fantasmas “imperiais” tenham tanta relevância.
As Mouras Encantadas são interpretadas como almas de guardiãs de dimensões, às vezes sentinelas de segredos e tesouros.
Nesse contexto, começando a nossa jornada, abro nossa sessão espírita imperial com nosso núcleo feminino de assombrações.
-A Bruxa Vampira do Arco do Telles
Bárbara Urpia ou Bárbara dos Prazeres veio para o Brasil no final do século XVIII com seu marido.
Mesmo tendo sua chegada envolta em mistério, já que havia a desconfiança de que o casal veio fugido ao Brasil, sua beleza abriu as portas da sociedade de um Rio de Janeiro, ainda português.
Mas, depois das mortes do marido e de seu amante, caiu em desgraça e usou o corpo como sustento, no mesmo período em que o reino de Portugal transformou o Brasil em sede da coroa.
Sua região de trabalho: O Arco do Telles no centro do Rio de Janeiro
Com a degradação de sua beleza e de sua saúde, dizem que, após se consultar com um feiticeiro, passou a beber sangue de bebês para evitar os efeitos do tempo e das doenças.
Se isso era verdade ou apenas mais um caso de estigmatização feminina, ninguém sabe.
Fato é que depois de ter desaparecido fisicamente, acabou sendo percebida – em espírito – no Arco do Telles, gargalhando e praguejando contra os boêmios.
-Maria I de Portugal
Maria Francisca Isabel Josefa Antónia Gertrudes Rita Joana de Bragança.
O Tamanho do nome de Dona Maria é proporcional à complexidade de seu perfil.
Foi de Maria Piedosa à Maria Louca, após um tremendo abalo psicológico em razão da viuvez decorrente da perda de seu tio Marido, Pedro III de Portugal.
Ficou confinada no Convento do Carmo no Rio de Janeiro, onde, antes de morrer cunhou uma expressão até hoje muito utilizada; Maria Vai Com As Outras, pois não podia sair do convento desacompanhada.
Lá morreu e, segundo relatos, às vezes sua alma aparece por lá, rezando e/ou gritando, reproduzindo suas ações em vida.
-Imperatriz Leopoldina
Para muitos, a grande mentora da independência do Brasil, também é uma fantasma.
Dona Leopoldina, embora esteja sepultada na cripta sob o monumento à independência no bairro do Ipiranga, aparece no museu nacional, antigo palácio são Cristóvão.
Duas aparições da alma da Imperatriz são muito lembradas.
A primeira delas foi para o próprio Dom Pedro I, em uma recepção no palácio, logo após seu desencarne. Dizem que o Imperador ficou abaladíssimo ao ver o espírito de sua esposa, fugindo de seu compromisso social.
Outra aparição foi mais atual, durante uma visita de alunos na UFRJ no museu nacional.
O espírito de Leopoldina circulava em sua antiga residência, com roupas de época.
-Domitila de Castro, a Marquesa de Santos
Dentre as muitas causas das quais a Marquesa foi benemérita, uma das mais lembradas é de sua dedicação financeira ao Cemitério da Consolação, especialmente, para a construção da primeira capela da Necrópole.
Além deste fato, talvez por estar sepultada na Necrópole beneficiada por sua ação de caritas, é que vez ou outra, a marquesa seja vista – até hoje por lá.
Mas, essa protagonista da história do país também já foi vista atualmente no histórico Solar da Marquesa. Por lá ela apareceu com seu último amor, o marido Rafael Tobias de Aguiar, o patrono da Polícia Militar de São Paulo.
Mudando para o núcleo masculino dos assombrados…
– Tiradentes ou Joaquim José da Silva Xavier
Não é exatamente fácil classificar nosso próximo fantasma.
Alferes, médico empírico com ênfase em odontologia intuitiva, inconfidente mineiro, separatista e anti-impostos, esses são alguns predicados de Joaquim José da Silva Xavier, preso em 1789, condenado e levado à forca no dia 21 de abril de 1792, no Campo de São Domingo, hoje praça Tiradentes, na Cidade do Rio de Janeiro.
Sua aparições fantasmagóricas foram registradas na capital fluminense e se dividem entre a antiga Fortaleza de Santiago que hoje deu lugar ao Museu Histórico Nacional e na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, o Palácio Tiradentes.
Justificam-se as aparições nos respectivos locais pelo fato do corpo de Tiradentes ter sido esquartejado na Fortaleza de Santiago, antes de seus pedaços serem distribuído em locais estratégicos e em razão da Assembleia Legislativa do Rio ter sido a antiga prisão do mártir cívico.
-Dom Pedro I
O corpo do homem que bradou a independência do Brasil está na cripta sob o monumento à independência, no bairro do Ipiranga em São Paulo. Mas, seu corpo não está integralmente presente.
O coração do primeiro imperador brasileiro padece do coração, que foi levado para a Cidade do Porto em Portugal.
E, ao que consta, é daí que se evocam as justificativas para suas aparições espectrais.
Quem já teve contato com o espírito de Dom Pedro I diz que ele está procurando o seu coração.
E, diga-se de passagem, é uma ironia do destino um homem com tantas paixões ser seu corpo separado do coração.
-José Bonifácio de Andrada
José Bonifácio, o patriarca da independência, como se intitulava, descansa em seu belíssimo panteão em Santos.
Mas, ao que consta, o espírito do pai da independência de vez em quando é visto circulando pelo panteão dos Andradas, talvez, em busca de novos desafios políticos.
– Mistérios do Museu do Ipiranga
Fechando nossa jornada sobrenatural pelas histórias de fantasmas imperiais, não podemos deixar de fora as misteriosas ocorrências havidas durante as obras de restauro do Museu do Ipiranga.
Além dos vultos e dos fenômenos poltergeist, bastante comuns no local, quando eram feitos os registros fotográficos dos espaços que seriam restaurados, uma foto de uma figura humana, totalmente alheia ao cenário e/ou aos restauradores, foi captada.
Sim, a foto existe! Nela é possível ver o que parece ser um homem que vestia uma roupa branca, atravessando uma dimensão entre mundos.
O outro mistério do Museu do Ipiranga é o encontro de um pé de chinelo, que repousava entre assoalhos, jamais abertos, até o início do restauro. Vale lembrar que o Museu do Ipiranga, que nasce Museu paulista, foi construído entre 1885 e 1890 e a marca do Chinelo encontrado, começou a fabricá-lo nos anos 60 do século XX.
Detalhe, a haste do chinelo estava presa com um preguinho. Seria um fantasma de férias ou viajante do tempo pé de chinelo? Independente da resposta, acho que depois desse passeio pelo tempo, podemos renovar nossa interpretação sobre a frase: Independência ou morte!
