Menopausa: muito além dos calores

Menopausa vai muito além das ondas de calor; entenda as mudanças no corpo e por que informação e cuidados são essenciais nessa fase

Você vai mesmo esperar a menopausa para cuidar de um relógio que já corre há vinte anos?. Fotos: Freepik)

Quando falamos de menopausa, ainda existe uma tendência de reduzir o assunto a uma lista de sintomas: as ondas de calor, a insônia, a irritabilidade. Foto: Freepik

Quando falamos de menopausa, ainda existe uma tendência de reduzir o assunto a uma lista de sintomas: as ondas de calor, a insônia, a irritabilidade. É claro que esses sinais importam.

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São eles que trazem a mulher ao consultório, e ignorá-los seria desatenção. Mas eles são a porta de entrada, não a casa inteira.

Somos, segundo o IBGE, mais da metade da população brasileira. E, de acordo com a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, cerca de 35 milhões de brasileiras vivem hoje entre o climatério e a menopausa um contingente maior que a população de muitos países.

Ainda assim, aproximadamente 20% das mulheres nessa fase fazem terapia hormonal, quando indicada e após avaliação individualizada.

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Esses números revelam algo importante. A menopausa deixou de ser um assunto silencioso, mas ainda existe um caminho relevante a percorrer entre saber que ela existe e compreender o que ela significa para as três décadas seguintes de vida.
Uma transição, não um encerramento

A menopausa não é uma doença. É uma transição fisiológica esperada, tão natural quanto a puberdade, e é assim que precisamos aprender a olhá-la. O que muda é o cenário metabólico em que essa mulher passa a viver.

Com a queda progressiva dos hormônios ovarianos, o corpo redistribui gordura, altera a forma como responde à insulina e começa a perder massa muscular em um ritmo diferente do anterior.

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Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia, publicado em 2019 na revista JCI Insight, acompanhou mais de mil mulheres ao longo da transição e mostrou algo que surpreende: o peso na balança pode permanecer praticamente o mesmo, enquanto a composição do corpo muda por completo.

É por isso que tantas mulheres dizem, com toda a razão, que não mudaram nada e que ainda assim o corpo mudou. Elas não estão erradas. Elas estão sem a informação de que precisariam.

O que está realmente em jogo

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Uma brasileira que entra na menopausa por volta dos 50 anos viverá, com a expectativa de vida atual, cerca de um terço da sua existência depois desse marco. É a década em que muitas de nós estamos no ponto mais alto da carreira, cuidando de filhos adolescentes e, ao mesmo tempo, de pais que envelhecem.

Nesse período se define muita coisa. A densidade dos nossos ossos aos 75 anos. A saúde do nosso coração aos 70. A força que teremos para levantar de uma cadeira aos 80 e essa força, ao contrário do que se imagina, começa a ser construída ou perdida agora.

Falar de menopausa, portanto, não é falar de calores. É falar de autonomia física, de independência e da qualidade dos anos que ainda temos pela frente.

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As perguntas que costumam ser adiadas

Na prática, isso significa olhar para questões que muitas vezes não entram nas rodas de conversa femininas e raramente entram na consulta de rotina.

Minha alimentação conversa com o corpo que eu tenho hoje, ou com o corpo que eu tinha aos 35? Estou preservando massa muscular ou apenas tentando perder peso? Conheço meus números de pressão arterial, glicemia e colesterol, e sei como eles se comportaram nos últimos cinco anos? Meu sono está restaurando ou apenas passando? Tenho acompanhamento de mais de um profissional, ou estou tentando resolver sozinha uma transição que é multidisciplinar por natureza? Se eu precisar tomar uma decisão sobre tratamento, tenho informação suficiente para decidir ou vou decidir com base no que ouvi de uma amiga, de um vídeo, de um medo herdado?

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Essas perguntas não são apenas clínicas. Elas são profundamente humanas. Envolvem como queremos viver, quanto tempo queremos ser independentes e o que estamos dispostas a fazer hoje pela mulher que seremos daqui a vinte anos.
Informação é o primeiro cuidado

Trabalho há anos com educação em saúde da mulher e com a formação de profissionais de diferentes áreas, e aprendi que quase todo o desamparo dessa fase tem a mesma raiz. Não é a falta de tratamento. É a falta de linguagem.

Quando a mulher entende as mudanças do próprio corpo e encontra profissionais preparados para acompanhá-la, ela reconhece os sinais, busca ajuda no tempo certo e atravessa a transição com autonomia. Quando não entende, ela normaliza. Adia. Atribui ao estresse. E chega ao outro lado com uma década de oportunidade perdida.

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A boa notícia é que esse desconhecimento é o problema mais fácil de resolver entre todos os que descrevi aqui. Ele não depende de tecnologia nova nem de descoberta científica. Depende de conversa em casa, no consultório, no trabalho e, sim, nas páginas de um jornal.

A menopausa chega para todas nós. O que não chega sozinho é o preparo. E esse, felizmente, é uma escolha.