Nigéria Futebol Clube escancara as contradições do mundo em show no Sesc Pompéia

Entre punk, improvisação e performance, o show do Nigéria Futebol Clube transforma uma noite fria em São Paulo em experiência coletiva

Nigéria Futebol Clube movimentou ao vivo no Sesc Pompéia, em São Paulo. Foto: Daniel Agapito

Nigéria Futebol Clube movimentou ao vivo no Sesc Pompéia, em São Paulo. Foto: Daniel Agapito

Caminho em asfalto mórbido. O letreiro digital marca a temperatura de 10°C. Paralisante é caminhar

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Em São Paulo cada um tem seu delírio caminhante

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Uns pensam nas contas, nos investimentos, nos sentimentos e algum ou outro se preocupa apenas com o que tem na frente.

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Nos encontramos, em alguma medida, todos no fundo de um funil, como a borra do mundo, enquanto nossos ricos minerais, líquidos e energia são retirados pela escaldante sociedade que dita até mesmo como caminhamos. 

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Paro. Olho para o céu e vejo a placa com o local: “Sesc Pompéia”. Adentro ao aberto espaço para ver o show do Nigéria Futebol Clube, banda independente de São Paulo. Um não roteiro ambulante tal qual a vida. 

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Vezes um culto punk, às vezes improvisação. Creio que se dependesse do trio, até mesmo as músicas não existiriam. Haveria ali uma espécie de efervescência do presente, que explode em nossos rostos e dissipa apenas em lembrança. 

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As fumaças dos cigarros entram em contato com o ar rarefeito. Espirais gasosas se lançam das bocas, e se chocam com a luz emulando a espera das horas para o começo do show. 

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Pisco e estou na frente do palco. O anúncio é feito e ouço ao longe o baterista PH batendo uma caixa e trombando com a platéia, introdução clássica e teatral da banda. 

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“NÓS SOMOS QUEER”. Grita PH. Respaldado não só pelos dois outros membros da banda, Lengui e Rodrigo, mas por toda uma multidão que escolheu caminhar com suas dores, contra o frio, rumo ao caldo do Sesc Pompéia, na Zona Oeste da capital paulista. 

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Show misto

Shows do trio são um misto entre punk, no-wave, improvisação, performance… e imprevisibilidade. Nigéria é a representação do improvável da arte, da(s) beleza(s) do(s) acaso(s) em resposta a vida contemporânea, marcada por opressões diversas e um jeito de viver lucrativo, performático e plástico.

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Ao longo do show poesia marginal, metais, sopros, ensaios, solilóquio são dispostos em nossos ouvidos. Enquanto o público gira, naquela mesma espiral, mas como se o tempo valesse a pena. O frio já não existe, mas existe gente. 

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Nigéria Futebol Clube se apresenta no mesmo palco que começou o festival “Começo do Fim do Mundo”. No som e mensagem do trio, o fim é um novo começo.

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Nigéria Futebol Clube… é como se esses moleques achassem que podem pegar todas as contradições do nosso tempo e subvertê-las a bel prazer. Eles podem? Senti no show que sim, e eles vão continuar, imparáveis. 

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Os ruídos do tempo contemporâneo viram cama para o discurso da banda;

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A dissonância dos discursos faz parte da manifestação poética que flutua entre o sólido e o abstrato;

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A lotação desvincula-se da claustrofobia e rapidamente vira comunhão com o teu igual desconhecido;

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A distância e os obstáculos, em verdade, são nada.

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PRÓXIMA ESTAÇÃO – NEXT STATION – BELÉM

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Estou longe. Mas a mensagem do show permanece como um dogma. 

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O vento sopra, é quase meia noite. Um ônibus emite os ruídos capitais, os pecados são todos deixados de lado. 

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Caminho 

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diferente de como antes caminhava.