Lula e Flávio Bolsonaro não participaram de nenhum debate televisivo no primeiro turno. Hoje, a uma semana da votação e com menos de dois pontos entre os dois (47,03% a 45,16% dos votos válidos), vão se enfrentar pela primeira vez, às 20h, na Band. Vou estar no estúdio, como em todos os debates desta eleição. E a pergunta que me interessa não é quem vai ganhar. É o que você vai fazer com o que vai ouvir.
Existe um cansaço que não aparece nas perguntas dos jornalistas: o de quem já ouviu tantas promessas que não sabe mais se está sendo prudente ou desistindo quando deixa de acreditar. Penso nessa pessoa quando me perguntam o que espero de um debate presidencial. Naquela que gostaria de se entusiasmar com o futuro, mas tem receio de ser decepcionada outra vez. E, antes de escolher quem dará a melhor resposta, gostaria que pensássemos em quem precisa recebê-la.
Três sinais de que o candidato fugiu da pergunta
Minha trajetória como campeã de debates e oratória me ensinou a prestar atenção ao que acontece depois de uma frase impressionante.
O argumento se sustenta quando é questionado? Hoje, procure três sinais.
- A saída elegante. A pessoa respondeu ao problema ou apenas encontrou uma maneira elegante de sair dele? Há uma diferença entre deixar alguém sem reação e demonstrar que aquilo que se defende faz sentido.
- O problema do outro. Demonstrar o problema do outro não demonstra, por si só, a qualidade da própria solução.
- A promessa sem caminho. Prometer saúde melhor é diferente de esclarecer como o atendimento chegará a quem espera. Defender segurança é diferente de apresentar um caminho que possa ser executado e cobrado.
É justamente por trabalhar com comunicação que não me basta ver um candidato falar bem. Quero saber o que sua habilidade está ajudando a compreender e o que está permitindo deixar sem explicação.
Por que você vai torcer mesmo sem querer
Mas existe uma dificuldade do nosso lado da tela também. Em dois experimentos publicados no American Journal of Political Science, Charles Taber e Milton Lodge observaram que participantes avaliavam mais favoravelmente argumentos compatíveis com suas posições e contestavam com mais intensidade aqueles que as contrariavam. O cuidado com a evidência não era distribuído igualmente: dependia de quanto ela ameaçava aquilo em que já acreditavam.
O resultado mais incômodo é que maior conhecimento político não eliminou esse comportamento. Nos experimentos, os vieses foram especialmente fortes entre participantes com convicções mais firmes e maior sofisticação política. Saber mais não significou, necessariamente, estar mais disposto a reconsiderar.
Esse estudo me faz pensar em uma pergunta que também dirijo a mim: estou usando minha inteligência para examinar uma resposta ou para encontrar uma defesa para ela? É possível reconhecer uma contradição no candidato em quem pretendemos votar sem que isso nos obrigue a gostar do adversário. O voto não deveria exigir que a gente deixasse de perceber o que percebe.
Também não quero tratar o eleitor como alguém que precisa ser corrigido por uma pessoa supostamente mais esclarecida. Consigo imaginar o quanto pode custar reconsiderar uma escolha defendida diante da família, dos amigos, de si mesmo. Há esperanças depositadas ali. Por isso, me interessa um candidato capaz de responder à desconfiança sem humilhar quem desconfia.
É nesse ponto que o debate pode abrir espaço para uma mudança: não apenas quando alguém expõe uma fraqueza do adversário, mas quando oferece uma razão consistente para ser considerado uma alternativa. Essa é uma possibilidade, não uma previsão de resultado.
O que quero ouvir de Lula e de Flávio Bolsonaro
De Lula, quero ouvir o que reconhece como insuficiente e o que faria de diferente. Quem está insatisfeito não deveria receber apenas uma explicação sobre por que deveria estar satisfeito. De Flávio, quero entender o que sustenta sua proposta para além da crítica ao governo.
E quero ouvir ambos explicarem escolhas difíceis. O respeito por quem escuta também aparece na disposição de não esconder a complexidade atrás de uma frase confortável.
O debate da Band pode mudar a eleição?
Não sei se o debate mudará a eleição. Espero, porém, que permita ao eleitor cobrar melhor, inclusive aquele que terminar a noite com o mesmo voto.
Hoje à noite, antes de comemorar a frase do seu candidato, faça a pergunta que eu vou fazer no estúdio: ele respondeu ou só saiu bonito da pergunta?
Eu conheço a importância de ganhar um debate. Mas, neste domingo, mesmo de dentro do estúdio, não vou conseguir esquecer que, depois da última resposta, alguém desligará a televisão e começará a preparar a segunda-feira. É na vida dessa pessoa que uma vitória política precisa fazer sentido.
Debate da Band hoje: horário, participantes e onde assistir
Que horas começa o debate da Band?
Domingo, 18 de outubro de 2026, às 20h, no horário de Brasília, com duração prevista de cerca de duas horas. O pré-debate na TV aberta começa às 19h30; nas plataformas digitais da Band, a programação especial tem início às 18h.
Quem participa do debate?
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), ambos com presença confirmada. É o primeiro debate direto entre os dois na campanha de 2026 e o primeiro do segundo turno, que será decidido em 25 de outubro.
Onde assistir ao debate da Band ao vivo?
Na Band, pela TV aberta; na BandNews TV; no site da emissora; no aplicativo Bandplay; e no canal Band Jornalismo no YouTube. Também pelas rádios BandNews FM e Bandeirantes. O debate é realizado pela Band em parceria com o Estadão, que transmite pelo site e pelo aplicativo do jornal.
Quem são os mediadores do debate?
Os jornalistas Eduardo Oinegue e Adriana Araújo conduzem o debate, realizado nos estúdios da Band, em São Paulo.
Micarla Lins é estrategista de comunicação, posicionamento e influência, fundadora e CEO da Lins and Co. Campeã de oratória e debates, TEDx Speaker e palestrante internacional, é também jornalista, apresentadora e colunista da Gazeta de São Paulo. Nas eleições de 2026, entrevistou candidatos à Presidência no programa De Olho no Poder. Mais análises sobre comunicação e poder no Substack.
