A menopausa provoca mudanças no organismo que vão além das ondas de calor, das alterações de humor e dos distúrbios do sono. A queda dos níveis hormonais também pode afetar a saúde ocular e favorecer o desenvolvimento da doença do olho seco, condição que compromete a lubrificação da superfície dos olhos e pode prejudicar a qualidade de vida das mulheres.
Segundo a oftalmologista Dra. Myrna Serapião, especialista em cirurgias de catarata e córnea e em doenças da superfície ocular, a perimenopausa e a menopausa são marcadas pela redução dos níveis de estrogênio e andrógenos, como a testosterona. Esses hormônios participam do funcionamento das glândulas responsáveis pela produção da lágrima e pela manutenção de sua qualidade.
“Os andrógenos, por exemplo, estimulam a produção do meibum, a camada oleosa que impede a evaporação da água da lágrima”, explica a médica. Com a queda hormonal, essa camada pode ser comprometida, fazendo com que a lágrima perca qualidade e evapore mais rapidamente. O processo também pode favorecer inflamações na superfície ocular e na margem das pálpebras.
Quais são os sintomas do olho seco na menopausa?
A doença pode provocar ardência, vermelhidão, coceira, sensação de areia ou de corpo estranho nos olhos e sensibilidade à luz. Outro sinal é a visão embaçada ou flutuante, que pode melhorar temporariamente depois de piscar.
O lacrimejamento excessivo também pode indicar o problema. De acordo com Myrna, isso acontece porque os olhos tentam compensar a falta de lubrificação adequada produzindo mais lágrimas, que nem sempre apresentam a qualidade necessária para proteger a superfície ocular.
A persistência dos sintomas é um dos aspectos que merecem atenção. Diferentemente do cansaço ocular pontual, que costuma melhorar com o descanso e as pausas durante o uso de telas, o olho seco pode se tornar uma condição crônica, com desconfortos frequentes e piora ao longo do dia.
Ambientes com ar-condicionado e poeira também podem intensificar as manifestações.
Por que o problema pode passar despercebido?
Apesar da relação entre as alterações hormonais e a saúde ocular, nem todas as mulheres associam o desconforto nos olhos à menopausa.
Segundo a oftalmologista, durante muito tempo, os sintomas foram tratados como manifestações isoladas ou consequências naturais do envelhecimento. Como as ondas de calor e as alterações do sono costumam receber mais atenção, os efeitos hormonais sobre os olhos podem acabar negligenciados.
“Há uma falta de informação sobre o fato de que os olhos também possuem receptores hormonais”, afirma a especialista. Por isso, algumas mulheres atribuem a irritação ao uso de maquiagem, lentes de contato ou às horas diante do computador, sem considerar que as mudanças hormonais podem contribuir para o quadro.
Telas, poluição e medicamentos podem agravar a secura ocular
Além da transição hormonal e do avanço da idade, outros fatores podem aumentar o risco ou a intensidade dos sintomas.
O uso prolongado de computadores e celulares, por exemplo, reduz a frequência do piscar, o que favorece a evaporação da lágrima. Já o ar-condicionado, os ambientes secos e a poluição urbana podem agredir a superfície dos olhos.
O uso contínuo de determinados medicamentos também merece atenção. Entre os citados pela médica estão anti-histamínicos, antidepressivos e anti-hipertensivos.
Procedimentos cirúrgicos anteriores, diabetes e doenças autoimunes ou sistêmicas também podem agravar a condição.
Como é feito o tratamento do olho seco?
O diagnóstico deve ser realizado por um oftalmologista, em consultório, com exames clínicos que avaliam a quantidade e a qualidade do filme lacrimal, além das condições da superfície ocular.
O tratamento pode incluir colírios lubrificantes, conhecidos como lágrimas artificiais. A escolha depende das características e da gravidade de cada caso.
De acordo com Myrna, existem formulações com tecnologias específicas, como nanoemulsões lipídicas associadas ao HP-Guar, que buscam atuar nas diferentes camadas da lágrima. A médica cita produtos desse tipo como uma das alternativas disponíveis para o controle dos sintomas.
Em quadros mais graves, podem ser necessárias outras abordagens, como medicamentos anti-inflamatórios, tratamentos direcionados às pálpebras e suplementação de ômega-3, conforme avaliação profissional.
A terapia de reposição hormonal também pode ter efeitos sobre a superfície ocular quando indicada pelo ginecologista. Entretanto, a especialista ressalta que a resposta depende da composição da terapia e que, em determinadas situações, ela também pode agravar o olho seco.
Por isso, o tratamento deve ser individualizado, com acompanhamento médico. A mulher não deve iniciar, interromper ou modificar medicamentos ou terapias hormonais por conta própria.
Quando procurar um oftalmologista?
A recomendação é buscar avaliação profissional assim que o desconforto ocular se tornar frequente ou começar a interferir em atividades cotidianas, como ler, dirigir e trabalhar.
A falta de tratamento não representa apenas um incômodo. Conforme explica Myrna, a lubrificação insuficiente provoca atrito constante entre as pálpebras e a córnea, podendo causar microlesões, ceratite, inflamações crônicas e até infecções oculares mais graves.
Em longo prazo, o problema pode comprometer a nitidez da visão e afetar a produtividade e a qualidade de vida.
Reconhecer os sintomas e investigar sua possível relação com as mudanças hormonais é, portanto, uma etapa importante para que as mulheres recebam o diagnóstico e o tratamento adequados durante a menopausa.






