Debate Lula x Flávio na Globo hoje: o Brasil quer saber se vai ter proposta ou outra briga

Último debate do segundo turno ocorre nesta sexta-feira (23/10), às 21h20, logo depois do Jornal Nacional

Hoje à noite o Brasil vai sentar na frente da TV com uma pergunta só: vai ter proposta ou vai ter briga de novo?/Jean Carniel/REUTERS

Hoje à noite o Brasil vai sentar na frente da TV com uma pergunta só: vai ter proposta ou vai ter briga de novo? No sábado, na Band, você assistiu com o celular na mão. Não para comentar. Para conferir. Cada vez que um candidato acusava o outro, você abria o Google.

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E não foi só você: durante o debate, as buscas por “Flávio Comando Vermelho”, “Flávio Ana Clara”, “Flávio Vorcaro”, “Lula sócio da Roberta”, “idade do Lula” e “como está a economia da Argentina” subiram mais de 900%, algumas passando de 100 mil pesquisas. Nenhuma busca sobre proposta. Nenhuma sobre emprego, saúde, escala 6×1, preço da comida. Porque não teve proposta pra buscar. Teve briga.

Eu estava lá. E, como alguém que estuda comunicação e julga debates há mais de uma década, digo sem hesitar: foi o pior debate presidencial que eu já vi. Não por causa de um candidato. Por causa dos dois.

A Band não foi um debate. Foi um julgamento com dois réus e nenhum juiz. Os R$ 134 milhões do Banco Master de um lado. O INSS e o “Careca” do outro. Mentiroso. Roubalheira. Condenado. Uma plateia que precisou ser advertida pelos mediadores. Perguntas repetidas cinco vezes sem resposta. E uma coisa que os números do dia seguinte deixaram clara: 39,5% das curtidas nos comentários sobre o debate foram críticas à plateia, à emissora e ao clima de briga. O comentário mais curtido da noite não defendia ninguém. Pedia checagem de fatos ao vivo. Um dos analistas políticos mais respeitados do país resumiu assim: se houve vencedor, foi o voto nulo.

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Repare no que mais viralizou. O vídeo mais visto da noite, com mais de dez milhões de visualizações, não foi uma proposta. Foi um desafio: um candidato pedindo que o outro abrisse os sigilos. As campanhas publicaram, juntas, dezesseis vídeos depois do debate, com quase noventa milhões de visualizações. Nenhum deles sobre o que vai ser feito com o seu salário, com a sua segurança, com o seu plano de saúde. Todos sobre o que o outro fez. A internet premiou a briga porque foi o que teve para premiar.

Essa é a sensação com que o Brasil foi dormir no sábado, e é a sensação com que ele vai sentar na frente da TV hoje: não é raiva de um lado. É desconfiança dos dois. E desconfiança, em comunicação, tem um nome.

Aristóteles escreveu há 2.300 anos que toda persuasão tem três fontes: o argumento, o que a plateia sente e quem a plateia acha que você é. E a que mais pesa não é o argumento. É a credibilidade que você carrega antes de abrir a boca. Chama-se ethos. Foi exatamente isso que os dois queimaram na Band. Quando o eleitor precisa abrir o Google para saber se acredita em você, você já perdeu, mesmo que esteja dizendo a verdade.

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Por essa régua, a Band foi uma aula do que não fazer. Quem interrompe está confessando que, se deixar o outro terminar, perde. Quem responde a uma pergunta com uma acusação está dizendo que não tinha a resposta. Quem repete a mesma pergunta cinco vezes sem obter resposta ganha o ponto e perde a sala, porque vira inquisidor, e ninguém vota em inquisidor. Quem chama o outro de mentiroso na frente de trinta milhões de pessoas perde o direito de parecer o adulto da mesa. Nenhum desses erros é de conteúdo. São erros de comunicação. E os dois cometeram todos.

E aqui vale explicar o que é uma proposta, porque a palavra foi tão usada que perdeu o sentido. Proposta não é dizer “vou cuidar da segurança”. Isso é intenção, e intenção não se checa. Proposta, em comunicação, tem três partes que o ouvido reconhece na hora: o que vai ser feito, em quanto tempo e com que dinheiro. É a resposta primeiro, o número depois, o prazo no fim. Quando um candidato responde assim, o eleitor não precisa abrir o Google, porque recebeu algo que pode cobrar. Quando responde com a biografia do adversário, o eleitor abre o Google, porque recebeu algo que precisa conferir. A diferença entre os dois debates vai estar aí: em quantas respostas de hoje você consegue anotar, e em quantas você vai precisar pesquisar.

Hoje, na Globo, é a última chance. E o que eu vou observar, e sugiro que você observe também, não é quem tem o melhor plano. É quem consegue responder à pergunta que foi feita na primeira frase, antes de atacar. É quem fala com quem ainda não decidiu, em vez de falar com a própria torcida. É quem perde a calma primeiro, porque quem perde a calma perdeu a noite, independentemente de quem tinha razão. É quem consegue discordar do outro sem precisar destruí-lo. Em qualquer mesa do país, isso é raro. Num debate presidencial, é o que separa um candidato de um brigão.

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Tem uma coisa que você pode fazer antes das 21h20, e que muda a forma como você assiste: escolhe uma pergunta. Uma só. A que importa para sua vida. O que vai acontecer com o meu emprego, com a escola do meu filho, com o preço do que eu compro? E passa o debate esperando a resposta dela. Se um dos dois responder, você tem um motivo para votar. Se nenhum responder, você tem um motivo para exigir. O debate deixa de ser um jogo de quem bateu mais e vira o que deveria ser: uma entrevista de emprego para o cargo mais importante do país.

O que eu espero dos dois é a mesma coisa, e é pouco: que respondam. Que tratem a pergunta do mediador como pergunta, não como deixa. O eleitor indeciso, o que decide domingo, não está procurando quem grita mais alto. Está procurando alguém que responda. Hoje à noite a gente descobre se algum dos dois entendeu isso. Ou se vai ser a Band de novo, com outro cenário.

Vou acompanhar o debate ao vivo, direto dos Estúdios Globo, e comentar no @micarla em tempo real, com o olhar de quem avalia comunicação, não de quem torce.

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Debate da Globo: o que você precisa saber

O último debate do segundo turno acontece hoje, sexta-feira (23/10), às 21h20, logo depois do Jornal Nacional, nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro. Participam Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), com mediação de César Tralli.

A transmissão é ao vivo pela TV Globo, pela GloboNews e pelo g1, que disponibiliza a íntegra logo depois, assim como o Globoplay. A votação do segundo turno é neste domingo, 25 de outubro.

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