Consórcio cita ‘orientação’ contra fiscalização de obras do Rodoanel Norte

O consórcio foi orientado a apresentar mensalmente somente os quantitativos dos serviços realizados pela construtora, mas não informa de quem partiu a "orientação" Por Estadão Conteúdo De São Paulo

Um consórcio responsável por fiscalizar a execução das obras do Rodoanel Norte em São Paulo afirmou em documento enviado à Dersa no fim de 2018 que recebeu “orientação” da própria estatal para não participar das medições dos serviços feitos pela empreiteira na construção, destaca o jornal O Estado de S. Paulo. São as medições que atestam o que realmente foi executado em uma obra viária e servem de base para o pagamento mensal feito à construtora.

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O documento, que também foi encaminhado ao Ministério Público Federal e à Procuradoria-Geral do Estado, é assinado por um representante do consórcio formado pelas empresas Geribello Engenharia, Geosonda S.A. e Urbaniza Engenharia.

Elas foram contratadas em fevereiro de 2013 pela Dersa, por R$ 19,3 milhões, para prestar serviços de apoio à fiscalização, supervisão e acompanhamento das obras do lote 6, que estava a cargo da construtora Acciona Infraestructuras.

No ofício, ao qual o Estado teve acesso, ele afirma que o consórcio foi orientado a apresentar mensalmente somente os quantitativos dos serviços realizados pela construtora, mas não informa de quem partiu a “orientação”. “Durante todo o período contratual, as medições foram realizadas única e exclusivamente pela fiscalização da Dersa no sistema Sigero, sem qualquer participação das equipes do consórcio, que nunca tomou conhecimento dos valores efetivamente pagos para a construtora”, diz o texto.

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Ainda segundo o ofício, o consórcio só foi “orientado a participar do processo de medição da construtora” após a troca de comando da Dersa, com a saída do ex-presidente Laurence Casagrande, nomeado no governo Geraldo Alckmin (PSDB), e a posse de Hamilton de França Leite, indicado pelo ex-governador Márcio França (PSB). Casagrande chegou a ser preso em 2018 junto com ex-diretores e fiscais da Dersa na Operação Pedra no Caminho, do Ministério Público Federal, que apontou desvios de R$ 480 milhões na obra. Todos negam as acusações.

Ao todo, a obra do Rodoanel Norte foi dividida em seis lotes, sendo que em cada um deles havia um consórcio de empresas para fiscalizar o trabalho das empreiteiras. No lote 2, por exemplo, a ação da OAS era fiscalizada por um consórcio do qual participava a empresa Argeplan Arquitetura e Engenharia, que tem como sócio o coronel aposentado da PM João Baptista Lima Filho, acusado de ser intermediário do ex-presidente Michel Temer em supostos pagamentos de propina da Odebrecht. Ambos negam.

Conforme o Estado revelou no sábado, dia 1º, um pente-fino feito pelo governo João Doria (PSDB) nos contratos e canteiros de obra do Rodoanel Norte identificou indícios de pagamentos indevidos às empreiteiras. A nova gestão da Dersa contratou uma auditoria do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), órgão do próprio governo, para apurar o estágio real da obra. Segundo os registros oficiais da Dersa, 85% dos 47,6 km do último trecho do anel viário haviam sido executados até 2018, mas a suspeita é de que o índice real seja inferior.

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Túnel

Um segundo documento encaminhado à Dersa em dezembro de 2018 pelo consórcio Concremat, Tüv Süd e Bureau Veritas, responsável pela fiscalização das obras do lote 3, a cargo da OAS, aponta problema estrutural na construção de dois túneis, como “falta de espessura mínima de concreto” e “escavação excessiva”, que “agrava o risco de colapso da estrutura”.

O jornal apurou que, neste lote, o levantamento preliminar feito pela Dersa constatou que um trecho incompleto – que deveria ligar um viaduto a um dos túneis – foi lançado como integralmente executado nas planilhas da estatal, que pagou pelo serviço como se ele tivesse sido concluído.

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Os contratos dos três primeiros lotes do Rodoanel Norte foram rescindidos ainda em dezembro de 2018 pelo governo Márcio França, e dos três últimos no mês passado pela gestão Doria por atrasos no cronograma e paralisação dos canteiros. As empresas reivindicavam um reajuste contratual para conseguir concluir todo o trecho. Uma nova licitação deve ser feita para terminar a obra, mas ainda sem prazo.

Defesas

A defesa do ex-presidente da Dersa Laurence Casagrande afirmou que ele “nunca foi informado” sobre a suposta orientação dada às empresas para não participar das medições do Rodoanel Norte. Para o advogado Eduardo Carnelós, o ofício enviado pelo consórcio indica que as empresas “teriam descumprido suas obrigações contratuais, sem comunicar os impedimentos que agora afirmam terem existido aos órgãos internos encarregados de apurar ou impedir a ocorrência de atos lesivos aos interesses da companhia”.

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A reportagem entrou em contato nesta quarta-feira, 5, com o consórcio Geribello, Geosonda e Urbaniza, mas não obteve resposta. A reportagem não conseguiu localizar representantes da construtora Acciona. O consórcio da Concremat não se pronunciou e a OAS afirmou que “sempre executou os serviços com qualidade técnica e segurança, seguindo a rigor todas as normas acordadas”

A Argeplan informou que não era líder do consórcio e que supervisionou os itens qualidade e quantidade, “sem adentrar nos preços praticados”.