Guerra de ex-presidentes da Câmara de SP tem acusação de armação e fraude

A tensão entre Milton Leite (DEM) e Police Neto (PSD) é antiga, mas atingiu o ápice após Leite denunciar Police por rasurar um requerimento de viagem Por Folhapress De São Paulo

A Câmara Municipal de São Paulo vive dias de guerra. Dois ex-presidentes da Casa protagonizam uma história com acusações de armação e fraude, que foi parar na Justiça.

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De um lado, está o vereador Milton Leite (DEM), tido como eminência parda na Câmara, e aliado do governador João Doria (PSDB). De outro, José Police Neto (PSD), homem de confiança do ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD).

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A tensão entre os dois veteranos de Casa é antiga, mas hoje atingiu o ápice após Leite denunciar Police por rasurar um requerimento de viagem para supostamente receber diárias e passagem indevidamente.

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Police diz que se trata de uma armação, pois jamais solicitou uma viagem sem ônus aos cofres públicos e foi orientado por um funcionário da Câmara a acrescentar a informação à mão.

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Ambos negam estar em guerra, mas o atrito entre os dois é assunto recorrente nos corredores do Palácio Anchieta, a sede do Legislativo municipal.

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Por ali, vereadores costumam acusar Police de ser a fonte de reportagens críticas à Casa. Ele é acusado de jogar a opinião pública contra os demais vereadores para ter ganho de popularidade.

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Em dezembro de 2018, Leite disse, em uma entrevista à rádio CBN, uma frase que foi lida por Police como ameaça: “Eu espero que as notícias do ano que vem, que vem em cima principalmente para os fofoqueiros de imprensa, que serão péssimas para ele, para o principal fofoqueiro da Câmara. Ele vai para as barras da política. Vai parar na polícia no ano que vem”.

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Leite nega que o recado fosse dirigido a Police, mas não diz o nome do vereador que estava em sua mira. À época, ele vivia tensão com o vereador Camilo Cristófaro (PSB), que vinha atacando publicamente Doria. Cristófaro chegou a ter seu mandato cassado em dezembro, mas obteve liminar posteriormente e segue no cargo.

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Police ganhou desafetos do PT ao PSDB, seja por ser responsabilizado por reportagens na imprensa ou por se pronunciar de maneira crítica, ferindo o espírito de corpo da Casa.

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Nos corredores do Palácio Anchieta, sede do Legislativo, diz-se que a birra de Leite com Police começou ainda em 2010, quando ambos disputaram a presidência da Câmara.

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Com ajuda de Kassab, Police venceu a parada contra o então favorito Leite, na época expoente do chamado centrão, por 30 votos contra 25.

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O vereador do PSD continuou tendo visibilidade na imprensa após deixar o comando do Legislativo, mas acabou isolado entre seus pares.

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Já Leite viu seu poder só aumentar desde então, sempre atuando nos bastidores. Ele apostou no novato Doria em 2016, levou-o para seu reduto eleitoral na zona sul e hoje tem a gratidão do tucano.

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Mais discreto e avesso a aparições na imprensa, tem poder de indicação de cargos tanto na máquina municipal quanto estadual, além de ter sido o fiador de seu sucessor, Eduardo Tuma (PSDB).

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Police compara sua situação à de Davi e Golias, metáfora na qual o gigante é Leite. “[Eu e o Milton Leite] Estamos de lados opostos. Não defendo as regalias, os supersalários, a Câmara fazer as coisas de maneira de maneira sigilosa. Eu não defendo um clube de amigos [empresários de ônibus] que são donos de um subsídio de R$ 4 bilhões”, diz.

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VIAGEM

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O estopim do embate atual foi viagem de Police a Kuala Lumpur, na Malásia, para participar do evento de urbanismo da ONU, o World Forum – Cities 2030, entre os dias 5 a 13 de fevereiro de 2018, com gasto de cerca de R$ 17 mil.

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Meses antes, ainda em 2017, Leite, então presidente da Casa, após constatar falta de quórum, anunciou: “Antes de encerrar a sessão, há requerimentos que eu preciso ler”. Rapidamente, leu o pedido de Police e de outros vereadores. Ao final, acrescentou: “todos eles sem ônus”.

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Police relata que, após a sessão, foi chamado pelo diretor-geral da Casa, Breno Gandelman, e questionado se o requerimento era mesmo sem ônus. Caso contrário, deveria acrescentar, à mão, que se tratava de pedido com ônus, disse.

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O vereador diz ter seguido a orientação. “Acusação é muito séria porque leva uma dúvida a uma atuação de 15 anos na Câmara. Tenho tentado me manter calmo, interpreto que nervosismo não ajuda. Mas é uma armação absolutamente odiosa”, diz Police.

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Funcionários ouvidos pela reportagem afirmam que as rasuras fazem parte do cotidiano da Câmara. A reportagem da Folha de S.Paulo teve acesso a alguns deles.

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Segundo eles, Gandelman guardava mágoa de Police, por seu salário, na casa dos R$ 56 mil, ter vindo à tona na gestão do vereador do PSD. Ele iniciou a divulgação dos vencimentos na internet – na gestão de Leite, foi dificultado o acesso aos salários dos servidores, passando-se a divulgar apenas as matrículas ao lado dos vencimentos, sem o nome.

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Os servidores ainda afirmam que Gandelman os pressionou, inclusive, durante uma reunião, para encontrar possíveis brechas para atacar Police. Gandelman foi procurado pela reportagem, mas não respondeu. À Justiça, negou a armação e afirmou que a aprovação do requerimento de Police foi sem custo para a cidade.

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Leite denunciou Police à Corregedoria da Câmara no final de 2018. Ele diz não ter nada contra Police nem qualquer outro vereador da Câmara e que cumpriu apenas o seu papel ao denunciá-lo. Se não o fizesse, diz, seria cúmplice de uma irregularidade e estaria prevaricando.

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A Corregedoria da Câmara arquivou relatório de Fernando Holiday, do partido de Leite, favorável a acusação contra Police. No entanto, o assunto ultrapassou as paredes da Câmara, de onde dificilmente saem acusações entre vereadores.

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Leite fez uma representação ao Ministério Público, que propôs ação de improbidade administrativa e pediu bloqueio dos bens de Police – concedido pela Justiça, no valor de até R$ 71 mil.

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A síntese da defesa de Police é que: 1) o pedido nunca foi votado, apenas lido; 2) como ele não solicitou sem ônus, não houve adulteração, apenas correção do erro na leitura de Leite; 3) a mesa diretora, responsável pela deliberação sobre pagamentos de viagens, aprovou a compra das passagens e diárias.

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Agora, Police pediu apuração à corregedoria da armação que diz ter sofrido.

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Leite nega veementemente qualquer acusação de armação. Diz que Police errou, “lamentavelmente”, e ele, como presidente da Casa, fez o que era sua obrigação: levar às autoridades responsáveis.

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Recusando qualquer inimizade com Police, afirma que o colega do PSD votou nele por ocasião de sua eleição para presidente da Câmara, o que mostraria que a disputa de 2010 não teria deixado cicatrizes.

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“Não estou em pé de guerra com ninguém. Minha única ação contra o Police eu tomei para evitar o risco de ser acusado de prevaricação, de deixar de cumprir minha função de ofício. Ademais, acho um bom vereador, muito técnico, quero que tenha sucesso. Se não cumpro o que cumpri, eu seria pronunciado junto com ele por ter deixado passar essa irregularidade”, afirma Leite.

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Ele diz ter encaminhado uma votação para aprovar uma viagem sem custos, tendo sido ele e o plenário induzidos a erro por Police. Ao incluir à mão que a viagem teria custos ao município, Police teria adulterado uma decisão da Câmara e se beneficiado dela.

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No Ministério Público, além de Leite, o vereador Caio Miranda (PSB) depôs contra Police, afirmando que “entendeu que o requerimento era sem ônus” e que se soubesse que havia custo não assinaria.

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O promotor Silvio Marques pediu à Justiça o afastamento e perda de direitos políticos do vereador. Até agora, já conseguiu liminar para o bloqueio de até R$ 71 mil das contas de Police.

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*Por Artur Rodrigues e Guilherme Seto, da Folhapress