Quando se fala em amamentação, a conversa costuma estar concentrada nos benefícios do leite materno para o bebê, o que não deixa de ser essencial, mas existe outra pessoa diretamente envolvida nesse processo e que também passa por uma série de transformações: a mãe.
Amamentar exige adaptação física e emocional. Nas primeiras semanas, a mulher precisa lidar simultaneamente com a recuperação do parto, alterações hormonais, noites interrompidas, produção de leite, mudanças nas mamas e uma nova rotina de cuidados. A sexualidade e a percepção sobre o próprio corpo também podem ser afetadas.
Para a psicanalista Mônica Donetto, organizadora do livro Sexualidades Não Nascem Prontas, ao lado de Renata Botelho, é importante ampliar a discussão sobre o aleitamento para incluir a mulher que está amamentando.
“Falamos, com razão, sobre a importância do leite materno, mas é preciso lembrar que existe uma mulher por trás dessa amamentação. Ela também precisa ser vista, acolhida e cuidada”, afirma.
A ideia é reforçada por recomendações de cuidado pós-parto. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera as primeiras semanas após o nascimento um período fundamental para a saúde física e emocional da mulher e defende que o atendimento contemple não apenas o bebê, mas também as necessidades da mãe.
O que acontece com o corpo durante a amamentação?
Logo após o parto, o organismo passa por uma grande reorganização hormonal. A prolactina aumenta para estimular a produção de leite, enquanto a ocitocina é liberada durante a sucção do bebê e ajuda na ejeção do leite.
Essas alterações são normais e necessárias para o aleitamento, mas fazem parte de um conjunto de mudanças no corpo da mãe. Já a queda do estrogênio, que pode permanecer enquanto a amamentação é frequente, está mais diretamente relacionada a sintomas como secura vaginal e menor lubrificação.
A redução do estrogênio pode provocar ressecamento, irritação e dor durante a relação sexual. O puerpério afeta diretamente a sexualidade, já que além das alterações hormonais, fatores como ansiedade, estresse, privação de sono, autoestima e sobrecarga mental podem interferir no desejo sexual.
Por que a libido pode diminuir?
Não existe um único motivo para essa queda. A prolactina e as alterações do estrogênio podem contribuir para mudanças na resposta sexual, mas o contexto do pós-parto também pesa. A queda do estrogênio durante a lactação pode reduzir a lubrificação e deixar os tecidos vaginais mais sensíveis, consequentemente causando dor. Com isso, algumas mulheres apresentam ardência, ressecamento ou dor durante a penetração.
A mulher também estará cansada, com dor de forma geral, preocupada com o bebê, dormindo pouco e se adaptando a uma rotina completamente diferente. “Isso não significa que o desejo desapareceu. A sexualidade também atravessa o puerpério e precisa de tempo para se reorganizar”, afirma Mônica.
Falta de desejo sexual, fadiga, dor e dificuldades relacionadas à amamentação estão entre os desafios mais comuns que podem aparecer no chamado “quarto trimestre”, período de adaptação após o nascimento. Por isso é importante ter em mente que não há uma data padrão para a libido “voltar ao normal”, cada mulher passa por um processo diferente.
E quando o sexo pode voltar?
Novamente, é díficil pensar em prazos. Biologicamente falando, o corpo pode estar “pronto” entre 40 e 60 dias após o parto, mas não existe uma padronização que sirva para todas as mulheres.
A retomada da atividade sexual depende da recuperação do parto, da presença de sangramento, dor, cicatrização de lacerações ou da cesárea e, principalmente, de como a mulher se sente física e emocionalmente.
Alguns médicos recomendam esperar aproximadamente seis semanas, especialmente para que haja tempo de recuperação inicial do organismo. Não existe um momento determinado que seja obrigatório para todas as mulheres.
Mais importante do que cumprir um calendário é não transformar a retomada da relação sexual em uma obrigação. Também é possível que a mulher simplesmente não queira fazer sexo naquele momento, mesmo sem colaterais biológicos, e isso, por si só, não significa que exista um problema.
“Isso [a falta de vontade] também não significa que o desejo desapareceu [para sempre]. A sexualidade atravessa o puerpério e precisa de tempo para se reorganizar. O problema é que ainda existe uma enorme cobrança para que a mulher recupere rapidamente o corpo, a rotina e até a vida sexual”, explica.
Para Mônica, essa pressão pode gerar culpa e sofrimento, especialmente porque a maternidade ainda é cercada por expectativas irreais de felicidade permanente.
Insistir na relação apesar da dor não é recomendado, o casal pode retomar a intimidade de outras maneiras e, quando houver desejo de voltar à penetração, utilizar lubrificante e buscar orientação médica se o desconforto continuar. A dor persistente não precisa ser encarada como uma consequência inevitável da maternidade.
O que fazer para se adaptar à amamentação?
A adaptação não envolve apenas “aguentar” os primeiros meses. Existem cuidados que podem tornar a amamentação mais confortável.
Segundo o Ministério da Saúde, amamentar não deve doer. Pode haver algum desconforto no início, enquanto mãe e bebê aprendem, mas uma pega inadequada pode provocar fissuras e dor.
Entre as orientações estão:
- encontrar uma posição confortável para mãe e bebê;
- garantir que o bebê abocanhe adequadamente a mama;
- oferecer o peito conforme os sinais de fome, sem necessidade de horários rígidos;
- procurar ajuda quando houver dor persistente, fissuras ou dificuldade de pega;
- buscar um banco de leite humano ou profissional capacitado quando surgirem dificuldades.
O Ministério da Saúde também destaca que não é necessário utilizar hidratantes ou pomadas medicinais rotineiramente para proteger os mamilos. A orientação oficial é que a própria mulher passe algumas gotas do seu leite na região após a mamada.
E há outro mito importante de abordar: amamentar não é o que deixa os seios flácidos. O Ministério da Saúde considera essa afirmação falsa e recomenda, entre outros cuidados, o uso de sutiã com boa sustentação.
E quando o peito fica “empedrado”?
O chamado ingurgitamento mamário pode acontecer quando as mamas ficam excessivamente cheias, provocando endurecimento e desconforto.
Fissuras, pega inadequada e mastite também podem aparecer durante a amamentação. O Ministério da Saúde orienta que dificuldades persistentes sejam avaliadas por profissionais de saúde ou por um banco de leite humano.
A recomendação não é simplesmente suportar a dor, não encare esse momento como “frescura” ou mentalize que você como mãe deve “aguentar” pelo filho. Dificuldades na amamentação podem e devem receber assistência.
“Muitas mães acreditam que não podem reclamar, sentir tristeza, cansaço ou falta de desejo porque isso seria incompatível com o amor pelo filho. Mas essas emoções fazem parte da experiência humana e precisam ser acolhidas”, ressalta Mônica.
Quanto tempo essas mudanças demoram para passar?
O puerpério é tradicionalmente associado às primeiras seis semanas após o parto, mas a recuperação física e emocional não termina necessariamente nesse período. A OMS, inclusive, recomenda uma abordagem de cuidado pós-natal que acompanhe a mulher para além de uma consulta isolada, avaliando aspectos físicos, emocionais, sociais e relacionados à amamentação.
Enquanto a mulher continua amamentando, alterações hormonais podem permanecer. Por isso, secura vaginal, mudanças na libido e irregularidade menstrual podem continuar por algum tempo.
A volta da menstruação também varia bastante. A amamentação exclusiva e frequente pode atrasá-la, mas isso não significa que a mulher esteja necessariamente protegida contra uma nova gravidez, a fertilidade pode retornar antes da primeira menstruação.
E o corpo depois que a amamentação termina?
O fim da amamentação também é uma fase de adaptação. Com a redução do aleitamento, o estímulo para produção de leite diminui e o organismo começa gradualmente a reduzir a lactação, os níveis hormonais também passam por novas mudanças.
Isso significa que não existe um momento exato em que o corpo simplesmente “volta a ser como antes”. Algumas mudanças desaparecem rapidamente; outras levam meses e algumas características físicas podem permanecer.
A recomendação da OMS é que a amamentação seja exclusiva nos primeiros seis meses e continue, junto à alimentação complementar, até os dois anos ou mais, quando possível e desejado pela mãe e pela criança.
Saúde emocional também faz parte do pós-parto
O impacto emocional não deve ser confundido com uma suposta incapacidade da mulher de lidar com a maternidade. Cansaço, alterações de humor e sobrecarga podem acontecer durante a adaptação, mas tristeza intensa e persistente, perda de interesse pelas atividades, ansiedade importante, culpa excessiva, dificuldade de cuidar de si ou do bebê e pensamentos de morte ou de machucar a si mesma ou a criança exigem atenção profissional.
O Ministério da Saúde destaca que a depressão pós-parto não é uma falha de caráter ou uma fraqueza e que fatores como privação de sono, isolamento, falta de apoio e estresse podem contribuir para seu desenvolvimento. O SUS oferece tratamento para a condição. A OMS também recomenda que a saúde mental faça parte do cuidado materno durante o período pós-natal.
O parceiro também precisa participar
A responsabilidade pelo pós-parto não deve ficar exclusivamente sobre a mulher. Dividir tarefas domésticas, cuidar do bebê, permitir que a mãe descanse e oferecer suporte emocional são formas concretas de participação.
No caso da amamentação, o parceiro pode buscar o bebê para a alimentação, ajudar depois desse período, trocar fraldas, colocar a criança para dormir e assumir outras tarefas que não dependem da amamentação.
Para Mônica, esse apoio também interfere na reconstrução da intimidade: “Quando existe diálogo, divisão das responsabilidades e respeito ao tempo da mulher, o casal fortalece o vínculo e cria um ambiente mais saudável para que a intimidade seja reconstruída naturalmente.”
Cuidar da criança não precisa significar deixar de cuidar da mulher
A chegada de um filho inaugura uma nova identidade, ao mesmo tempo em que nasce um bebê, nasce também uma mãe, que precisa lidar com transformações físicas, emocionais e psicológicas profundas.
“A mulher passa por uma reconstrução da própria identidade. Muitas vezes, ela deixa de se reconhecer no espelho, sente que perdeu espaço para si mesma e acredita que seu corpo passou a existir apenas para cuidar do filho”, reforça a psicanalista.
Por trás de cada mãe existe um corpo em recuperação, uma mulher enfrentando mudanças hormonais e emocionais e uma pessoa que também precisa de descanso, informação, apoio e espaço para reconstruir sua própria rotina, inclusive sua relação com o próprio corpo e com a sexualidade.






