No século XII, Hildegarda de Bingen escrevia músicas para uma comunidade beneditina. Em suas melodias, estudiosos encontraram um intervalo de três tons que, séculos depois, ganharia um apelido inquietante: diabolus in musica, o Diabo na música.
A ironia é que Hildegarda, hoje venerada como santa e Doutora da Igreja, não parecia enxergar o Diabo dentro daquele intervalo. Para ela, a imagem musical de Satanás era quase o oposto: uma criatura expulsa da harmonia celestial e incapaz de cantar.
Mesmo assim, o trítono acabou marcado como a “música do Diabo” no imaginário popular. A associação, criada muito depois da época de Hildegarda, atravessaria os séculos e acabaria incorporada à cultura pop moderna.
Diabolus in musica
O principal exemplo da visão musical de Hildegarda sobre Satanás está em Ordo Virtutum, drama musical composto por volta de 1151. A obra acompanha a disputa entre as Virtudes e o Diabo pela alma humana, mas impõe uma regra curiosa: quase todos cantam; o Diabo, não.
No manuscrito, as intervenções demoníacas não recebem uma linha melódica como as falas das Virtudes. O personagem se expressa por gritos e ruídos. Os trítonos presentes na obra não pertencem à voz do Diabo e, em uma das passagens estudadas, aparecem justamente nas palavras das Virtudes.
Para Hildegarda, a música participava da ordem divina. Satanás, afastado dessa harmonia, não conseguia produzi-la. Dessa forma, o elemento demoníaco de Ordo Virtutum não era um intervalo específico, mas a ausência da própria música.
Esse conceito reapareceu no fim da vida da santa. Em 1178, após uma disputa envolvendo o sepultamento de um homem que autoridades consideravam excomungado, o mosteiro de Hildegarda foi colocado sob interdito. As religiosas deixaram de cantar o Ofício Divino e passaram a apenas recitá-lo.
Hildegarda então escreveu aos prelados de Mainz e transformou a disputa em uma reflexão sobre o próprio significado espiritual da música. Para ela, o canto permitia ao ser humano recuperar uma espécie de memória da harmonia celestial perdida desde a queda de Adão.

Mito satânico veio depois
A história de que monges medievais chamavam o trítono de “música do Diabo” é muito mais nebulosa e acabou misturada, ao longo do tempo, a relatos como o interdito sofrido por Hildegarda e a antigas regras para evitar determinadas dissonâncias.
O musicólogo F. Joseph Smith mostrou, ao estudar o Speculum Musicae, que o trítono não possuía o imaginário satânico atribuído a ele pela cultura popular. O enorme tratado do século XIV discute o intervalo, mas não registra a famosa associação com o Diabo.
Isso não significa que os músicos medievais considerassem o trítono agradável ou simples de utilizar. Teóricos tratavam certas combinações como dissonantes e problemáticas, e elas podiam ser evitadas conforme as regras do canto e do contraponto. Ainda assim, o próprio intervalo aparece em repertórios medievais.
O problema é descobrir quando o Diabo entrou nessa história. Registros seguros da expressão aparecem apenas séculos depois de Hildegarda. Andreas Werckmeister empregou a fórmula em seus tratados na virada para o século XVIII, incluindo a Harmonologia Musica, publicada em 1702.

A expressão ganhou nova força em 1725, com Johann Joseph Fux, um dos teóricos musicais mais influentes do período barroco. Em seu tratado de contraponto Gradus ad Parnassum, Fux recuperou a fórmula mi contra fa est diabolus in musica.
Outros autores do século XVIII fizeram algo semelhante: Georg Philipp Telemann, em 1733, atribuiu aos “antigos” a ideia de um “Satanás na música”, enquanto Johann Mattheson escreveu, em 1739, que cantores antigos davam ao mi contra fa o apelido de “Diabo na música”.

Do monastério ao metal
Foi no rock pesado e, depois, no heavy metal que o trítono ganhou sua associação moderna mais famosa. Sua sonoridade instável e tensa ajudava a criar riffs ameaçadores e sombrios, combinação perfeita para bandas interessadas nesse tipo de atmosfera.
O caso mais emblemático é o Black Sabbath. Tony Iommi usou o intervalo no riff principal da música “Black Sabbath”, lançada em 1970, uma das faixas mais influentes da história do metal e um dos exemplos mais conhecidos do chamado “intervalo do Diabo”.

A partir daí, o trítono passou a aparecer repetidamente no vocabulário do heavy metal, doom metal e outros estilos extremos, reforçando sua reputação como um som de tensão e ameaça.
A associação com o Diabo, portanto, tornou-se muito mais forte na cultura do rock do século XX do que havia sido na música religiosa medieval.






