Santa Hildegarda usou intervalo musical em sua música religiosa que séculos depois virou a ‘música do Diabo’

Hildegarda de Bingen usou trítonos em cantos sacros e retratou Satanás como incapaz de cantar; séculos depois, o intervalo ganhou fama de diabolus in musica

Monja do século XII deixou dezenas de composições e usou intervalo que ganharia uma das reputações mais sombrias da história da música (Foto: Beloved female saints / Wikimedia Commons)

Monja do século XII deixou dezenas de composições e usou intervalo que ganharia uma das reputações mais sombrias da história da música (Imagem: Beloved female saints / Wikimedia Commons)

No século XII, Hildegarda de Bingen escrevia músicas para uma comunidade beneditina. Em suas melodias, estudiosos encontraram um intervalo de três tons que, séculos depois, ganharia um apelido inquietante: diabolus in musica, o Diabo na música.

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A ironia é que Hildegarda, hoje venerada como santa e Doutora da Igreja, não parecia enxergar o Diabo dentro daquele intervalo. Para ela, a imagem musical de Satanás era quase o oposto: uma criatura expulsa da harmonia celestial e incapaz de cantar.

Mesmo assim, o trítono acabou marcado como a “música do Diabo” no imaginário popular. A associação, criada muito depois da época de Hildegarda, atravessaria os séculos e acabaria incorporada à cultura pop moderna.

Diabolus in musica

O principal exemplo da visão musical de Hildegarda sobre Satanás está em Ordo Virtutum, drama musical composto por volta de 1151. A obra acompanha a disputa entre as Virtudes e o Diabo pela alma humana, mas impõe uma regra curiosa: quase todos cantam; o Diabo, não.

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No manuscrito, as intervenções demoníacas não recebem uma linha melódica como as falas das Virtudes. O personagem se expressa por gritos e ruídos. Os trítonos presentes na obra não pertencem à voz do Diabo e, em uma das passagens estudadas, aparecem justamente nas palavras das Virtudes.

Para Hildegarda, a música participava da ordem divina. Satanás, afastado dessa harmonia, não conseguia produzi-la. Dessa forma, o elemento demoníaco de Ordo Virtutum não era um intervalo específico, mas a ausência da própria música.

Esse conceito reapareceu no fim da vida da santa. Em 1178, após uma disputa envolvendo o sepultamento de um homem que autoridades consideravam excomungado, o mosteiro de Hildegarda foi colocado sob interdito. As religiosas deixaram de cantar o Ofício Divino e passaram a apenas recitá-lo.

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Hildegarda então escreveu aos prelados de Mainz e transformou a disputa em uma reflexão sobre o próprio significado espiritual da música. Para ela, o canto permitia ao ser humano recuperar uma espécie de memória da harmonia celestial perdida desde a queda de Adão.

Mito satânico veio depois

A história de que monges medievais chamavam o trítono de “música do Diabo” é muito mais nebulosa e acabou misturada, ao longo do tempo, a relatos como o interdito sofrido por Hildegarda e a antigas regras para evitar determinadas dissonâncias.

O musicólogo F. Joseph Smith mostrou, ao estudar o Speculum Musicae, que o trítono não possuía o imaginário satânico atribuído a ele pela cultura popular. O enorme tratado do século XIV discute o intervalo, mas não registra a famosa associação com o Diabo.

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Isso não significa que os músicos medievais considerassem o trítono agradável ou simples de utilizar. Teóricos tratavam certas combinações como dissonantes e problemáticas, e elas podiam ser evitadas conforme as regras do canto e do contraponto. Ainda assim, o próprio intervalo aparece em repertórios medievais.

O problema é descobrir quando o Diabo entrou nessa história. Registros seguros da expressão aparecem apenas séculos depois de Hildegarda. Andreas Werckmeister empregou a fórmula em seus tratados na virada para o século XVIII, incluindo a Harmonologia Musica, publicada em 1702.

A expressão ganhou nova força em 1725, com Johann Joseph Fux, um dos teóricos musicais mais influentes do período barroco. Em seu tratado de contraponto Gradus ad Parnassum, Fux recuperou a fórmula mi contra fa est diabolus in musica.

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Outros autores do século XVIII fizeram algo semelhante: Georg Philipp Telemann, em 1733, atribuiu aos “antigos” a ideia de um “Satanás na música”, enquanto Johann Mattheson escreveu, em 1739, que cantores antigos davam ao mi contra fa o apelido de “Diabo na música”.

Do monastério ao metal

Foi no rock pesado e, depois, no heavy metal que o trítono ganhou sua associação moderna mais famosa. Sua sonoridade instável e tensa ajudava a criar riffs ameaçadores e sombrios, combinação perfeita para bandas interessadas nesse tipo de atmosfera.

O caso mais emblemático é o Black Sabbath. Tony Iommi usou o intervalo no riff principal da música “Black Sabbath”, lançada em 1970, uma das faixas mais influentes da história do metal e um dos exemplos mais conhecidos do chamado “intervalo do Diabo”.

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A partir daí, o trítono passou a aparecer repetidamente no vocabulário do heavy metal, doom metal e outros estilos extremos, reforçando sua reputação como um som de tensão e ameaça.

A associação com o Diabo, portanto, tornou-se muito mais forte na cultura do rock do século XX do que havia sido na música religiosa medieval.