A Ria Livraria, um bar literário na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo, anunciou o fim das atividades na manhã desta segunda-feira (29/12). A decisão ocorreu após um jornalista (e frequentador do espaço) fazer uma postagem em que conta que os funcionários não eram registrados pelo proprietário Marcos Benuthe.
Segundo Benuthe, na postagem publicada nesta segunda, o encerramento se deve “à falta de profissionalismo e ingratidão de um dos funcionários da equipe e à falta de ética do jornalista Tom Cardoso, que foi divulgar as queixas desse funcionário de que a Ria iria pagar um prêmio milionário para escritores e não registrava os funcionários”.
Ainda segundo o dono do espaço – que abriu o local após desentendimentos com o irmão no Mercearia São Pedro, extinto bar que também era famoso pela pegada literária –, o combinado com os funcionários é que os registros seriam feitos assim que a casa começasse a dar lucro. O que não ocorreu durante os últimos quatro anos, garantiu.
“Com o fim da Merça, pós-pandemia, abri a Ria com a finalidade de incentivar a literatura e a cultura e oferecer emprego para ex funcionários da Merça. Nunca visando ganhar dinheiro, pelo contrário, sempre paguei o que consumia”, continuou Benuthe no anúncio de fechamento.
A casa também suspendeu a premiação literária que pagaria um prêmio de R$ 100 mil ao vencedor. As premiações totais ultrapassariam R$ 300 mil.
O que escreveu o jornalista
Na postagem de Tom Cardoso, depois apagada, ele contou uma suposta conversa pessoal que teve com um dos funcionários (ele revelou o nome da pessoa), em que o trabalhador reclamava da quantia paga no prêmio.
“Adianta pagar esse dinheirão para os escritores e não registrar a gente? Faz quatro anos que trabalho aqui sem carteira assinada”, teria dito o funcionário, segundo Tom, que trabalharia ainda na escala seis por um.
Nos comentários, muitos frequentadores apoiaram Benhute, por destacarem que a falta de registro profissional é comum em uma atividade que movimenta pouco dinheiro como a literatura. Já outra parte discordou.
“Existe uma confusão perigosa (e muito comum) entre boa intenção e boa prática. Abrir uma livraria ‘sem visar lucro’ não transforma automaticamente ninguém em santo. Cultura não é caridade, é trabalho. E trabalho sem direito, sem registro, sem segurança, não vira poesia só porque o patrão gosta de livro. Direito trabalhista não é bônus por desempenho da empresa, é obrigação”, escreveu uma escritora.
Outros usuários criticaram diretamente o jornalista Tom Cardoso. Ele entrou em uma polêmica recente com parte da esquerda por defender a jornalista Malu Gaspar, responsável por uma matéria de O Globo em que revelou um encontro entre o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o presidente Gabriel Galípolo, do Banco Central.
